Não enche (tanto) o saco!
Fazia tempo que o Chato não aparecia. Mas, eis que, um belo dia, quando eu estava fazendo compras no Pão de Açúcar da Praça Pan-americana, devidamente empacotando minhas compras em uma sacola retornável, ele apareceu.
O Chato havia passado por muitas mudanças ao longo da sua vida: engordara, emagrecera, engordara de novo, fizera cirurgia bariátrica, emagrecera, engordara, especialmente quando havia organizado a máfia de contrabando de leite condensado dentro de frascos de shampoo para um spa de emagrecimento, e atualmente se encontrava em sua fase magra novamente, graças, não tenho dúvidas, a uma certa medicação que ele certamente estava aplicando sem a devida orientação médica.
Apesar dessas idas e vindas, inclusive do seu cabelo (ele havia recebido a calvície de vez, agora, apesar de ter passado por diversas tentativas, dentre perucas, medicamentos miraculosos da televisão, até implantes capilares, que haviam também miseravelmente falhado), uma coisa nunca havia mudado: sua chatice (assim como suas roupas, que ficavam apertadas e curtas quando estava gordo e largas e lasseadas quando estava magro).
E lá estava ele, em todo o seu esplendor, discutindo com a moça do caixa. Eu tentei me esconder, puxando o boné para baixo, colocando óculos escuros, mas, ainda assim, ele me reconheceu.
– David! Ei, David, vem cá!
Eu tentei fazer uma cara de surpreso, apontando para mim mesmo, mas ele insistiu:
– É, você! Eu sei que é você, não adianta se esconder com esse boné ridículo que nem cabe direito nessa sua cabeçona!
Também não precisa jogar na cara que quase todos os chapéus ficam pequenos para mim!
Revirando os olhos, eu peguei minhas compras e caminhei lentamente até ele.
– Veja, esse cara aqui é um cara inteligente – disse ele, apontando para mim. – Médico, escreveu uma pancada de livros, acabou de publicar um negócio de umas quinhentas páginas, maior que a Bíblia, vai defender o doutorado em breve…
Para quem eu não via fazia uns anos, ele estava sabendo demais da minha vida!
– Me diga, então, David, quem está certo, se sou eu ou ela.
– Ela.
A moça do caixa não conseguiu conter a risada.
– Mas você nem me deixou explicar!
– Eu conheço você há uns 22 anos – respondi. – Em 99,9% das vezes, você estava errado.
– Ah-há! Teve uma vez em que eu estava certo!
– Não, na verdade, tanto você, quanto a pessoa com quem estava discutindo estavam erradas, então eu considerei um empate.
– Bem, mas desta vez eu tenho certeza absoluta de que estou certo. Veja!
Ele me mostrou algumas sacolas de compras.
– O que tem? – questionei.
– Eu comprei essas sacolas, certo?
– Eu imagino que sim.
– Sim, estou com a nota fiscal aqui – ele falou, mostrando-me uma enorme lista de compras, dentre cujos itens estavam quatro sacolas plásticas. – E, uma vez que adquiri como um produto qualquer, estou dentro do meu direito do consumidor de me arrepender da compra e devolver o produto.
Eu parei e olhei para ele, depois para a moça, depois para ele, sem conseguir acreditar nas coisas que meus ouvidos tinham de aturar.
– Calma. Você quer devolver a sacolinha de compras?
– Exatamente.
– Mas, por quê?
– Porque eu me arrependi da compra!
– Mas, você não levou todas as suas compras nelas?
– Sim.
– Elas não cumpriram a sua função?
– De certa forma, sim.
– Então, por que você se arrependeu?
– Porque descobri, depois, que elas são frágeis e não tão reutilizáveis quanto eu esperava. Veja como estão esgarçadas e rasgadas! Ficaram abaixo da qualidade que esperaria de um supermercado tão bom quanto este.
– Por que você não comprou sacolas retornáveis, igual eu fiz?
– Porque elas são muito caras, e a propaganda das sacolinhas mostra claramente que elas são resistentes, reutilizáveis e bonitas. Não vi nada disso! Não duraram nada, não pude reutilizar, e convenhamos que esse cinza aqui é horroroso!
– Senhor, eu já expliquei, não existe devolução das sacolinhas, uma vez que foram utilizadas!
– Mas, veja, eu mal utilizei!
– Mas o senhor acabou de dizer que levou as compras nelas!
– Sim, mas elas esgarçaram e rasgaram. Veja! Veja! Veja que material porcaria que sou obrigado a comprar para poder levar minhas compras para casa!
– Isso é mau uso! Veja, as sacolinhas têm um limite de peso…
– E como eu vou saber quanto pesam as coisas, se nem uma balança tem aqui para eu poder pesar?
– É só você calcular, todas as embalagens têm peso e…
E os dois continuaram a discutir, enquanto eu ouvia, inconformado.
– Sério, não seja chato – falei. – Eu sei que é uma droga ter que pagar a sacola, porque antes a gente não pagava, mas quero crer que essa lei é para proteger o meio ambiente. Além disso, é só você fazer como eu fiz e trazer uma sacola ou pegar uma caixa! E todo mundo sabe que essas sacolinhas não duram nada, mesmo.
– Ah-há! Uma testemunha! Uma testemunha da péssima qualidade dos produtos que vocês vendem!
– Ela cumpre o que se propõe! – falei, inconformado. – Se você quer algo melhor, compre uma retornável!
– Ora, de que lado você está?
– E além disso – falou a moça, mostrando o celular como Chat GPT aberto –, o arrependimento de compra só se aplica a compras online!
– Mas não estou nem falando mais de arrependimento de compra, estou falando da qualidade…
– Mas, senhor, eu já disse, isso configura mau uso e…
Aproveitando que eles estavam distraídos, eu saí de fininho de lá, antes que eles me chamassem de novo.
Agora, uma coisa eu tenho de admitir: se o Chato tivesse conseguido convencer a moça do caixa a trocar a sacolinha… Que golpe de mestre teria sido! Haveria precedentes e uma revolução jurídica. Já podia imaginar as pessoas marchando pelas ruas na chamada “Revolta das Sacolinhas”. Tivemos a Sabinada, a Balaiada, por que não a Sacolada?
Pronto, já estou contaminado pela megalomania dele. Melhor parar por aqui, antes que eu encha demais o saco de vocês. Ou a sacola, neste caso.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais