O Caso da Justiça Divina
Eu já mencionei anteriormente que Holmes, embora um grande gênio na resolução de crimes, mantinha em sua mente somente os conhecimentos que lhe eram realmente necessários para o seu trabalho. O fato de a Terra girar em torno do Sol lhe importava tanto quanto se fosse o reverso; e, embora eu já tenha comentado sobre isso uma ou outra vez, essa informação simplesmente não fora registrada, e ele sempre se mostrava surpreso – para não dizer indiferente – quando este fato novamente vinha à tona.
A religião, para Holmes, causava-lhe tanto efeito quanto o heliocentrismo. Não obstante, devo admitir, ela ocupasse um espaço relativamente maior: embora a crença de Holmes no divino ainda me fosse um mistério – creio que a ciência era o seu grande deus –, Holmes ainda mantinha conhecimentos sobre as mais diversas religiões e práticas religiosas, uma vez que, frequentemente, crimes eram cometidos em nome destas.
Certa manhã, quando estávamos tomando o desjejum, a senhora Hudson bateu à porta, trazendo o jornal matinal, assim como algumas correspondências para mim.
– Continue com seus hábitos hereges, senhor Holmes, e tenho certeza de que Deus irá se vingar! Veja o que já fez com estes pobres homens! – disse ela, entregando-lhe o jornal.
A senhora Hudson nunca fora um doce com Holmes, mas naquela manhã ela parecia particularmente atacada.
– Começando a semana com ameaças divinas, senhora Hudson? – foi a pergunta dele.
– Não fui eu quem começou.
– Caro doutor, por favor, faça a gentileza de descobrir de que raios a senhora Hudson nos ameaça desta vez.
Tomei o jornal em minhas mãos e vi a chamada em primeira página:
“Dois mortos, um em estado grave, um cego: vingança divina?”.
– Parece-me uma notícia um tanto alarmista, não, senhora Hudson?
– Os quatro abandonaram a igreja há anos. Não compareciam à missa, mas estavam frequentemente em bares. Como o senhor, senhor Holmes!
– Absurdo, senhora Hudson! Quando a senhora me viu indo a bares, que não fosse devido ao curso de meu trabalho?
– O seu tabaco, então? Ou aquela outra coisa abominável que o senhor guarda em sua gaveta da cabeceira?
– A senhora anda mexendo em minhas gavetas, senhora Hudson?
– Alguém precisa garantir que este recinto permaneça habitável por seres humanos, e não por ratos!
Senhora Hudson estava ficando cada vez mais vermelha e ofegante, de forma que achei mais seguro deixar o jornal de lado e a auxiliar; levantei-me, coloquei as mãos sobre seus ombros e fui murmurando baixinho, enquanto a conduzia porta afora:
– Está tudo bem, senhora Hudson, não precisa de tanta excitação. Holmes não faz por mal…
– Não faz por mal? Ora! As situações que passo nesta casa, o violino nas madrugadas, os tiros!
– Sim, sim, mas o aluguel permanece sendo pago tão pontualmente quanto um relógio suíço – achei válido lembrá-la. – Pode deixar que eu cuido de Holmes, sim?
– Ah, senhor Watson! E quando se casar com a senhorita Mary, o que será de mim? E dele?
– Fique tranquila, ainda há muito pela frente. Que tal tomar um chá com mel? Gostaria que o fizesse?
– O senhor é um doce, senhor Watson. Não será necessário, obrigada.
Uma vez acalmada a nossa senhoria, retornei ao nosso apartamento, para encontrar Holmes debruçado sobre o jornal.
– Diga-me o que acha, caro doutor!
O jornal não trazia muito mais informações do que a senhora Hudson havia nos contado. Quatro homens que já não iam mais à igreja havia alguns anos haviam se reunido em um bar, como costumeiramente, e foram afetados por alguma punição divina, segundo o jornal. O único homem que ainda permanecia consciente, embora cego, não falava nada além de “poena est iustitia iniustis”.
– O que a frase lhe diz, Watson?
– “A punição é justiça para o injusto”, se não me falha o latim. Contudo, a que se refere?
– Belo cristão o senhor é, doutor. Talvez, a provocação da senhora Hudson tenha encontrado o alvo errado!
– Ora, Holmes! Continuo indo à igreja semanalmente!
– Você ouve, mas não escuta! Esta é uma frase de Santo Agostinho. Um dos principais da sua igreja, não?
– Acredita que isso torne o crime uma vingança divina, então, Holmes?
– É o que faz parecer. Deveríamos conversar melhor com este homem.
– Não me diga agora que vai investigar um caso contra Deus, Holmes? Vou começar a concordar com a senhora Hudson, se este for o caso!
– É claro que não, Watson. Com o tanto de crimes que ocorrem por aí, você acredita mesmo que Deus estaria preocupado com o absenteísmo dominical? Não, isso me parece ter saído das mãos de homens. Vamos, Watson, temos muito a fazer!
– Holmes, tenho uma agenda repleta de pacientes hoje. Não posso simplesmente sair e investigar crimes pseudo-divinos a meu bel-prazer!
– Pois bem! – disse ele, pegando seu sobretudo, chapéu e cachimbo. – Trarei notícias ao anoitecer!
– Ele está atacado – foram as palavras da senhora Hudson, quando cheguei ao número 221B da Baker Street naquela noite.
– E quando não está? – retruquei; trincando os dentes e franzindo o cenho, lancei um olhar para cima. – Creio que o violino esteja sendo mais atacado.
Quando estava em um humor particularmente ruim, Holmes tinha por hábito tocar obras obscuras de russos com ataques violentos às cordas, que poderiam tirar qualquer um do sério. Ocasionalmente, eu me questionava se estes russos obscuros realmente existiam, ou era apenas o nome que Holmes dava às suas criações revoltosas.
– Eu já disse, senhora Hudson, estou dentro do meu horário de direito… Ah, Watson! Entre, vamos, estava esperando por você.
Para nosso alívio e de boa parte de Baker Street, ele deitou o violino e o arco sobre o divã.
– Você deveria ter estado lá comigo, Watson. O homem cego…
– Alguma informação importante?
– Absolutamente nenhuma. O homem não fala nada além de punição divina. Mas os seus olhos, Watson! Os seus olhos! – ele falou, jogando-se no divã, desviando por pouco do violino, e apoiando as mãos na testa.
– O que tem, Holmes?
– Você deveria ter estado lá para examiná-los, Watson. Aprendi um pouco de exame físico com você ao longo dos anos, caro doutor, mas não chego nem aos pés de suas habilidades. Ele não enxergava absolutamente nada.
– Acredito que seja isso que cegueira signifique, Holmes.
– Nem sempre! Existem cegueiras parciais, existem aqueles que conseguem ver vultos, aqueles que veem tudo embaçado, e aqueles que não enxergam absolutamente nada, mas que sua mente, de alguma forma, consegue ver e os faz desviar de obstáculos. Este homem, contudo, tinha os olhos perfeitamente normais. Nenhuma alteração no globo ocular, reflexos totalmente preservados. As pupilas se contraíam com a luz e ampliavam com a escuridão. O que isso lhe diz?
– Que os globos oculares estão funcionando perfeitamente, mas, ainda assim, a pessoa não conseguia enxergar.
– Onde estaria o problema, então?
– No nervo ou no cérebro, Holmes. Mas, não consigo compreender qual é a significância disso!
– É bastante claro, meu caro Watson! O que causou a lesão não foi instilado diretamente nos olhos.
– Ainda permanece com a ideia de que não foi uma punição divina?
– Obviamente. O Deus cristão não é conhecido por cegar os outros, mas, sim, restaurar-lhes a visão.
– Então, qual é a sua teoria, Holmes?
– Como está a sua programação para esta noite? Espero que a senhorita Mary não esteja tomando toda a sua agenda.
– Ora, Holmes, ainda é segunda-feira!
– Excelente, Watson! Pegue seu casaco. A noite promete ser fria.
– Aonde vamos? – questionei; devo admitir que a minha curiosidade era maior do que o meu instinto de autopreservação.
– A um lugar aonde apenas um médico pode ir.
Seguimos pela noite escura de Londres até o necrotério, onde os corpos das duas vítimas estavam sob análise do médico legista. A história de uma morte por punição divina poderia ter caído no gosto popular, mas, para a ciência e para a Scotland Yard, tivesse Holmes a opinião que tivesse a respeito dela, isso não era plausível.
Não obstante, é claro, a Scotland Yard permanecia totalmente perdida a respeito do motivo das mortes.
– Questione ao médico tudo o que achar relevante, Watson. Esta é a sua área de trabalho, não a minha – Holmes disse, levantando a aba do casaco para caminhar na noite enevoada.
Chegamos ao necrotério pouco depois de o relógio bater oito horas; o médico legista havia acabado de retornar do seu jantar, e estava terminando seus relatórios. Não ocorriam crimes suficientes, nem mortes urgentes o bastante para serem solucionadas na madrugada, e o seu turno certamente acabaria antes das nove. Apesar disso, quando me apresentei como colega, ele nos recebeu calorosamente.
– Doutor Watson e senhor Holmes! – ele disse, apertando nossas mãos. – Leio sempre suas histórias. São excelentes! Sempre me fazem pensar…
– Ora, deixe disso, Doutor McHale – respondi.
– Em que posso ajudá-los?
– Os homens que supostamente foram mortos por punição divina. O que pode nos contar sobre eles? Podemos vê-los?
– Quem sabe seus olhos mostrem mais do que os meus – respondeu o doutor, seriamente.
Ele puxou duas gavetas do necrotério, uma a aproximadamente dois metros da outra, onde os corpos estavam armazenados, aguardando liberação para o enterro. Eles estavam cobertos com lençóis, e suas roupas, dobradas perto de seus pés. Holmes as observou com interesse, enquanto eu avaliava os cortes realizados pela autópsia. O legista se postou ao lado esquerdo do homem; eu fiquei do lado direito, e Holmes avançou para o outro cadáver, atrás do médico.
– O que me diz? – questionou o legista, certamente esperando algo digno do que já havia lido em minhas publicações.
– Bem… Parece-me um homem de meia-idade. Um trabalhador comum. Carrega peso, provavelmente trabalha com enxada. Não; a pele clara, com as marcas de fuligem nos cabelos e sob as unhas indicam que trabalha em uma fábrica. Provavelmente, uma fábrica de carvão.
– Excelente, Watson! – disse Holmes, do outro lado. – Mas me parece um carvoeiro de barco a vapor. Note que seu pescoço está queimado, mas o rosto, não. Ele usa uma boina, e o calo em seu lábio indica que fumava cachimbo, muito provavelmente enquanto trabalhava. Continue, continue! – ele me instigou, e o médico legista parecia deveras impressionado.
– Bem, as marcas ao redor dos olhos, as alterações venosas na barriga… Me parece um bebedor contumaz. Imagino que o fígado não estivesse em boas condições. O que encontrou nos órgãos internos? – questionei ao legista, vendo que minhas observações estavam se esgotando.
– Ele sofreu de uma falência múltipla de órgãos. Foram todos parando, um a um, todos isquemiados. Alguma apoplexia como nunca vi antes.
Holmes se juntou a nós.
– Os dois trabalhavam juntos – Holmes afirmou, mais do que questionou.
– Sim, trabalhavam em um barco que liga o Canal da Mancha, o RMS Alma do Oceano.
– Os estômagos estavam vazios – ele afirmou novamente.
– Exatamente! Como sabia?
– Eles estão desidratados, os lábios secos, as faces encovadas. Devem ter vomitado consideravelmente antes de morrerem.
– É o que as esposas relataram. Saíram do serviço, foram a um bar na sexta-feira à noite, passaram muito mal por todo o sábado e expiraram no domingo. No hospital, não tiveram o que fazer. Ninguém sabe dizer o que estava acontecendo.
– Alguma frase em latim sobre punição? – questionei.
– Não sei dizer. Quando eles chegam aqui, já não falam mais nada, se é que me entendem.
Holmes se virou, jogando as mãos por trás do casaco.
– Excelente, doutor McHale. Ajudou-nos muito. Muito obrigado pelo seu tempo. Vamos, caro Watson, temos muito a fazer.
Eu me despedi do meu colega, e nós seguimos de volta para Baker Street, ainda sem que eu compreendesse o que, exatamente, Holmes havia depreendido daquela entrevista.
Ao menos, porém, naquela noite ele não retomou o seu violino.
Por alguns febris momentos, cri que Holmes havia abandonado o caso da punição divina. Quando chegava à Baker Street à noite, ele já havia saído para cometer algum de seus atos hereges, de acordo com a senhora Hudson. E, quando eu me levantava pela manhã, ele geralmente estava em um sono profundo compensatório de suas atividades noturnas, o que em nada contribuía para a boa avaliação da senhora Hudson a respeito de seu inquilino. Entretanto, certa manhã, quando me levantei para o desjejum, eu o encontrei sobre a mesa, abarrotado de jornais.
– O que está fazendo, Holmes? – questionei.
– Este não foi o primeiro caso semelhante, Watson. Veja!
Ele havia recortado e juntado dezenas de notícias ou obituários apontando mortes relativamente esquisitas, de pessoas até então saudáveis.
– Não compreendo, Holmes – eu falei. – Em nenhuma delas ninguém comentou sobre punição divina.
– Novamente, seus olhos veem, mas não enxergam, caro Watson! Observe!
Eu tentei notar algum padrão de semelhança, mas, fosse o que fosse, escapava-me.
– Todos foram enterrados em cemitérios não cristãos, o que significa que, por algum motivo, foram considerados como excomungados. Todas as mortes ocorreram nos finais de semana, principalmente aos domingos. Apenas homens, geralmente de meia-idade, e todos moravam próximos desta região aqui.
– O que quer dizer exatamente? – questionei, observando o mapa.
– Acredita que Deus manteria um padrão como um assassino em série?
– Está realmente insinuando que isso é obra de um ser humano, Holmes?
– Acredita que faz mais sentido ser uma obra divina? Ou obra do acaso?
– Sinceramente, eu não…
– Tenho um convite, então, meu bom doutor. Me encontre neste bar, sexta-feira, às nove horas da noite.
Ele me entregou um endereço, anotado em um papel; depois disso, despediu-se e foi repôr o seu sono perdido. Porém, não haviam se passado dois minutos, quando retornou com uma seringa repleta de um líquido transparente.
– Caso perceba que o cachorro está passando mal, Watson, aplique isso aqui nele. Na veia.
– O cachorro?
– Deve ter comido algo estragado – ele disse e apoiou a mão forte em meu ombro. – Mas tenho certeza de que você é perfeitamente capaz de aplicar o remédio. Já esteve em situações piores na guerra.
– Mas, que cachorro é esse?
Ele simplesmente apontou para um beagle deitado no chão, a um canto da sala, tão escondido que eu daria por morto, e depois se retirou para seu quarto em definitivo.
– Holmes! – exclamei, sem acreditar.
Levei o cachorro para meu consultório, onde minha enfermeira me ajudou; ele definitivamente não parecia muito bem, tendo vomitado bastante pelo caminho, e estava febril e prostrado. Com um torniquete, consegui acessar uma veia da pata e apliquei o líquido misteriosos da seringa. Ao longo do dia, o cachorro pareceu ainda mais grogue, e por alguns instantes cri que não iria melhorar, mas, ao final do dia, estava bem.
Retornei à Baker Street para encontrá-la vazia, exceto pela senhora Hudson.
– Alguém deveria prender este homem por maus tratos aos animais – ela disse.
– Aqui, senhora Hudson, tome. Não sei de onde Holmes tirou este cachorro, mas acredito que vá ficar bem, agora.
– Este homem, este homem! – exclamou ela, indo embora com o beagle em seus braços.
Depois de um jantar rápido, pois nunca se sabe o que nos aguardam nos encontros com Sherlock Holmes, segui para o bar que ele me havia indicado; lá, encontrei com Holmes já sentado ao balcão, rindo e bebendo com outros homens que não conhecia.
– Oh, meu caro Watson! Venha, junte-se a nós! Diga-me, como ficou o cachorro?
– Bem, creio eu, não obstante…
– Watson é um médico maravilhoso, senhores – disse Holmes, voltando-se para os outros homens. – Cuida de pessoas e de animais. Precisou dar o remédio?
– Sim, mas devo dizer, foi a primeira vez que…
– Uma rodada para todos! – disse ele, chamando o barman. – Mas não para o doutor, ele não pode.
– Holmes!
– Está lidando com… Sabe? – ele murmurou para o homem que nos servia as bebidas. Depois, virou-se para mim e murmurou: – Watson, em meu gabinete tem mais daquela solução em uma garrafa verde. Se eu passar mal como o cachorro, aplique em mim metade da garrafa.
Sem esperar para ver se eu havia compreendido, ele se virou para os homens.
– Watson, diga-me, qual é a sua religião?
– Ora, Holmes, você sabe que sou católico…
– Quais as chances de encontrarmos um pastor em um bar?
– Do que está falando?
– Enquanto aguardava ansiosamente pelo seu retorno de seus afazeres, acabei entrando em uma discussão com o pastor Dave, aqui – ele disse, apresentando-me um dos homens. – E este é John O’Brien, um funcionário da ferrovia que estava aqui no banco do lado e entrou na conversa, também. Diga-nos, Watson, qual é a sua opinião sobre a existência de Deus?
Aquele não era, de fato, um tópico usual de conversa que se travaria com Holmes, especialmente em um bar, em uma sexta-feira à noite. Isso só poderia significar que aquilo se tratava de uma investigação, ou que, de fato, ele havia bebido demais.
– O que anda bebendo? – questionei, tomando seu copo para cheirar.
– Não, não, nada de cheirar. Você se lembra do que dizem sobre a sua situação. Vamos, Watson, ilumine-nos com a sua sabedoria! Eu já expliquei para o pastor aqui a minha visão duvidosa sobre a existência de um ente todo poderoso, mas você, Watson, como bom católico que é, tenho certeza de que teria uma visão completamente diferente da minha.
Ainda sem compreender qual era, exatamente, o jogo, comecei a explicar, sob a anuência satisfeita do pastor, por que acreditava em Deus com todas as minhas forças. Holmes refutou absolutamente tudo o que disse, entre goles e mais goles de sua bebida, e o pastor parecia cada vez mais enfurecido, embora a única coisa que o demonstrasse fosse o brilho de seus olhos. Por fim, quando era em torno de onze horas, Holmes concluiu:
– A diferença entre nós é clara, Watson: você precisa crer para ver. Eu preciso ver para crer. Senhores, foi um prazer.
Ele deixou uma libra sobre o balcão e se levantou, mas, instável, quase caiu para o lado, não fosse por meu amparo.
– Lembre-se do que conversamos sobre Santo Agostinho, senhor Holmes: poena est iustitia iniustis – disse o pastor.
Eu acreditei que não estivesse ouvindo bem: será que aquilo fora coincidência, ou Holmes havia discutido sobre o quarteto que morrera com o pastor? Ele, porém, não pareceu dar importância, pois logo disse:
– Talvez precisemos de um táxi, Watson.
Desculpei-me especialmente com o pastor e segui com meu colega para o lado de fora; um cabriolé logo se aproximou e nos levou rapidamente à Baker Street. No caminho, Holmes parecia mal como nunca o havia visto antes.
– Watson, a infusão. Não se esqueça, Watson! Estamos a caminho de solucionar…
Ele, porém, não concluiu, pois mandou o cocheiro encostar e vomitou copiosamente na sarjeta.
Chegamos ao apartamento, e eu o deitei no divã.
– Watson, a infusão!
Fui rapidamente ao gabinete, onde, como Holmes descrevera, encontrei uma garrafa verde, uma seringa e um torniquete. Fosse o que fosse que ele dera para o cachorro, queria que fizesse o mesmo com ele. Contudo, ele estava muito agitado, e precisei pedir ajuda à senhora Hudson para que o segurasse, enquanto eu tentava acessar a sua veia.
– O que este homem fez desta vez, doutor?
– Não tenho certeza, senhora Hudson, mas sei que ele não poupa meios para solucionar um crime, mesmo que para isso tenha de sacrificar a si mesmo!
Segui as orientações que ele me dera no começo da noite e apliquei, aos poucos, metade da garrafa em sua veia, fosse aquilo o que fosse. Ele se revirou e vomitou a noite inteira; parecia um bêbado com a pior ressaca de sua vida. No meio da madrugada, pediu-me um remédio para dor de cabeça, e lhe dei uma solução de ópio. Isso o acalmou um pouco, e eu consegui adormecer no sofá quando o sol já despontava no horizonte.
Fui despertado pouco após as duas da tarde, com Holmes já de pé, arrumando a camisa.
– Ora, bom dia, caro doutor. Pronto para acompanhar a provável prisão mais marcante da Scotland Yard nas últimas décadas?
Aprontei-me rapidamente, ainda surpreso com a recuperação de Holmes.
– Não vai me explicar o que aconteceu?
– Tudo a seu tempo.
Seguimos pela Baker Street e chegamos a uma igreja perto de Picadilly Circus, onde o Inspetor Lestrade e alguns agentes já nos aguardavam.
– Recebemos seu telegrama bem a tempo – disse Lestrade, cumprimentando-nos.
– O homem está lá?
– Sim.
– Enviou agentes para o Soho?
– Sim, o senhor O’Brien já foi transferido para o hospital.
– O que estão esperando, então?
– O homem está terminando uma celebração.
– Ah, Lestrade, seu respeito pelos ritos religiosos ainda será o seu fim!
– Não quero provocar a ira de Deus, senhor Holmes.
– Acabamos de provar que a ira de Deus não passa da ira dos homens.
– Ainda não…
Por fim, quando o homem deu o culto por encerrado, os agentes adentraram a igreja para efetuar sua prisão. Próximo de lá, no bar onde havíamos nos encontrado, o barman foi preso e algumas de suas garrafas, apreendidas.
Ao anoitecer, recebemos a notícia de que John O’Brien estava bem, embora houvesse perdido um pouco de sua visão central. Enquanto a senhora Hudson nos servia um pouco de sopa, tive a oportunidade de perguntar a Holmes o que, exatamente, havia acontecido naquele caso.
– Mas é bastante simples, Watson!
– Eu consegui compreender em partes, Holmes. O pastor ficava no bar às sextas-feiras, onde agia de conluio com o barman. Ele identificava as vítimas, pessoas que não concordavam com a sua fé, e o barman servia algum veneno misturado à bebida. A pessoa era afetada aos poucos, dependendo também do quanto havia bebido, e morria ao longo do fim de semana, ou ficava cega. Na segunda-feira, os jornais alardeavam uma vingança divina.
– Pois compreendeu perfeitamente! Sua capacidade de dedutiva em breve será tão boa quanto a minha.
– Porém, não consigo compreender que tipo de veneno consegue causar estes efeitos, em especial a cegueira. E como, Holmes, se você deliberadamente provocou o homem para que fosse também envenenado, resistiu aos seus efeitos.
– Espere um pouco, Watson.
Ele retornou em seguida com um pequeno tubo de ensaio, onde uma substância vermelha estava decantada, e finas lâminas de outras cores se destacavam.
– Esta é uma amostra de sangue do homem que visitamos no necrotério.
– Senhor Holmes! – exclamou a senhora Hudson, que escolhera justamente aquele momento para entrar na sala de jantar. – Não vou permitir que traga este tipo de coisa para a mesa!
– Acalme-se, senhora Hudson. Está bem fechado – ele falou, guardando de volta no bolso do paletó.
– Quando…?
– Quando você, inocentemente, estava distraindo o médico legista para mim.
– Eu não acredito… Então, enquanto estava de costas para nós…
– Exatamente.
Respirei fundo, pensando como havíamos ambos sido enganados pela astúcia de Holmes.
– E você identificou o veneno?
– Sim. É metanol. Um subproduto da fermentação alcoólica, mas que pode ser obtido de outras formas. Já conhecemos este produto há séculos, Watson, mas ele ainda não havia oficialmente como um veneno, o que explica por que seus colegas estavam com tanta dificuldade de descobrir o que estava acontecendo.
– É isso que você testou no cachorro?
– Exatamente.
– E o antídoto? O que apliquei em você e no pobre cão?
– O mais puro absinto.
– O quê?
– Quando obtive a amostra de sangue, Watson, havia um pouco de metanol, mas também de formaldeído. Ora, eles não iriam aplicar formaldeído para conservar um corpo que ainda estava sendo avaliado no necrotério. Estudando um pouco de química, você verá que o formaldeído é um subproduto do metanol, e é o subproduto que, efetivamente, causa a morte da vítima. E, estudando também um pouco de fisiologia, irá descobrir que o responsável pro processar tanto o metanol, quanto o etanol, é o fígado. Assim, a minha teoria, comprovada com sucesso pela sobrevivência do nosso querido animal de quatro patas, era de que, o fígado, uma vez ocupado processando o etanol, não iria processar também o metanol, não gerando, assim, o formaldeído, e o veneno poderia ser filtrado e expelido pela nossa urina antes mesmo de causar danos ao corpo. E, para isso, quanto mais etanol, melhor. Daí, o absinto. Houve algum erro de minha parte, do ponto de vista metabólico?
– Absolutamente, Holmes. Seu pensamento é perfeito!
– Com o pastor Dave preso, logo descobriremos todas as outras vítimas que ele fez ao longo dos anos. E, certamente, ele continuaria assim, porque nada deixaria fundamentalistas mais felizes do que acreditar na punição divina, se não fosse pela senhora Hudson e a crença de que sou um herege.
– Ora pois! – exclamou a velha senhora, que havia ficado na sala, intrigada com a explicação sobre o tubo de ensaio. – Pois, para mim, ainda é justiça divina, e Deus está vendo suas ações, senhor Holmes!
– Se de fato for, senhora Hudson, as mortes e cegueiras continuarão. Neste caso, por favor, traga-me novamente o jornal, para encontrar outro assassino em série deste tipo.
– Humpf! – grunhiu ela, saindo da sala, injuriada. – “A verdade vos liberará” – ele concluiu, pensativo. – Mas, talvez, nem todos estejam prontos para ela.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais