O Caso do Conclave
Estávamos em 1903, eu já não morava em Baker Street havia algum tempo e encontrei Holmes na mesma situação deplorável em que o encontrava sempre que estava sem ter um caso interessante: fumando seu cachimbo, e ocasionalmente recorrendo às seringas.
— Ouviu falar da morte do Papa, Holmes? A Europa está de luto.
— A morte de um Papa não é suficiente para interromper a máquina de guerra que está em movimento, caro Watson — ele respondeu, entre baforadas. — Não poderia me importar menos com a morte de um Papa.
A senhora Hudson nos interrompeu antes que eu pudesse interpelá-lo; sabia que Holmes não se interessava pelos assuntos comuns, mas um Papa é um Papa. Sua morte não é algo que se vê todo dia. Ela trazia um telegrama.
— Dê ao Watson. Caro doutor, por favor, faça as honras, em nome dos velhos tempos.
Peguei o telegrama em mãos e quase engasguei; ele vinha diretamente da Santa Sé!
— Holmes! É uma mensagem do decano Luigi Oreglia, responsável pelo conclave do novo papa.
— Vem a bom tempo. Creio que combinaram, vocês dois.
— Você não está compreendendo, Holmes! Houve um assassinato no Vaticano.
Isso fez Holmes se erguer de seu estupor e tomar o telegrama de minhas mãos.
— O portador solicitou uma resposta imediata — informou a senhora Hudson.
— Watson, pegue seu casaco. Vamos para Roma!
Uma carruagem nos levou à estação de trem; contudo, apesar de estarmos acompanhados de um representante da cúria romana, ele se recusou a explicar o que estava acontecendo.
— A Santa Sé deve estar sem fé, Holmes, se está recorrendo a você, em vez de seus próprios homens.
— Ou não confiam neles mesmos.
Holmes me deixou pensativo; seria possível que o culpado estivesse dentro do clero? Toda essa aventura certamente demoraria, e eu mal tivera tempo de informar a Mary meu destino!
De Roma, uma carruagem nos levou à Cidade do Vaticano, onde fomos recebidos pelos guardas suíços devidamente trajados com suas roupas coloridas.
— Não os subestime, Watson — disse Holmes, como se conseguisse ler meus pensamentos. — São a guarda mais bem treinada de todo o mundo.
Fomos recebidos pelo decano em pessoa, na Basílica de São Pedro. A portas fechadas, ele finalmente se dispôs a nos relatar o acontecido, em um inglês perfeito.
— Na manhã do dia em que lhes enviei o telegrama, cinco cardeais foram encontrados mortos em suas câmaras. Os senhores veem, estamos nos preparando para o conclave, após o sepultamento do finado papa Leão XIII. Contudo, diante deste tão grave acontecimento…
— Como, exatamente, eles foram encontrados? — questionei. — Precisamos de todas as informações que possa nos dar, Sua Santidade.
O decano sorriu e recomendou que eu guardasse esse título para quando houvesse um novo Papa. Ele nos levou através das inúmeras passagens até o quarto de cada um dos cardeais; não havia absolutamente nada de significativo em seus quartos, que o decano ordenara que fossem mantidos intactos, até a nossa investigação.
— Mesmo a nossa guarda não sabe o que dizer, senhor Holmes.
Holmes caminhou pelo recinto com as mãos atrás das costas, o seu característico chapéu na cabeça, o sobretudo de Tweed, apesar do calor que fazia no verão italiano. Tomou um livro de capa verde em mãos e o folheou cuidadosamente, lambendo os dedos para virar as páginas.
— Belo exemplar, este — Holmes falou. — Uma versão especial da Bíblia Sagrada?
O decano disse que não conhecia esta versão, embora já tivesse visto um livro de cor semelhante em algum lugar, mas ficou igualmente curioso. Holmes o impediu de encostar no livro, colocando-o de volta na mesa, o que me pareceu, no momento, deveras indecoroso.
— Talvez devesse nos mostrar os cardeais, sim?
— Os outros? Somos em 57, neste momento.
— De forma alguma. Desejo ver os mortos.
O decano, assim, levou-nos à câmara onde até havia recentemente repousavam os restos mortais do papa antecessor. Em bancadas de pedra jaziam placidamente os corpos dos cinco cardeais mortos; a câmara era bastante fria, pela sua própria arquitetura, e, apesar do calor inclemente, os corpos estavam bem conservados.
— Muito bem, caro doutor. Está na hora de trabalhar.
Eu perscrutei os corpos com o máximo de zelo que pude, porém, nada encontrei que pudesse me definir de que houvessem morrido.
— Para falecerem os cinco de uma vez, Holmes, só consigo pensar em envenenamento. Porém, não observo nada que possa me dizer…
— Você observa, mas não vê, meu bom doutor! Preste atenção nos detalhes! Os detalhes são de máxima importância! O que seus olhos lhe dizem?
Eu observei novamente os cardeais; não havia nada particularmente marcante. Já estavam todos com as suas vestes vermelhas, em preparação para a cerimônia do conclave. Os outros religiosos haviam procedido conforme o esperado e os mantido exatamente como foram encontrados, para que pudéssemos desvendar este crime.
— Não consigo pensar em nada, Holmes. É-me difícil cogitar algo sem a possibilidade de realizar uma autópsia, em um caso tão desafiador!
— Observe as mãos, Watson, as mãos!
Observei-as; as mãos de homens das letras, homens do clero, com calos de utilizar instrumentos de escrita, mas, afora isso, uma pele seca e envelhecida. Não havia nada de surpreendente, exceto por manchas escurecidas nas palmas e mais intensas nos dedos.
— Acredito que seja de ler o jornal.
— Jornal antes do conclave, Watson? Última atualização antes do enclausuramento?
— Pode ter sido de algum alimento que ingeriram — tentei.
— Tudo o que entra aqui é controlado, doutor Watson — explicou-me o decano. — Toda a comida é feita aqui, provada e verificada antes de ser servida. Para garantir que os cardeais, de fato, não tenham qualquer contato com o meio externo.
— Isso está tornando as coisas mais e mais complicadas, Holmes.
— Discordo. Está claro como água. Caro decano — ele falou, dirigindo-se ao clérigo. — Seria possível utilizar de seu telégrafo?
O homem pareceu tão surpreso quanto eu.
— Sim, pois não. Está à sua disposição.
Fomos encaminhados para a sala onde a igreja transmitia as suas mensagens para o mundo exterior; Holmes solicitou que enviassem uma mensagem para um endereço específico na Alemanha e depois se virou para nós dois:
— Excelente. Agora, resta-nos esperar que a minha linha de investigação se conclua. Infelizmente, porém, caro decano, creio que o homem que procura, o responsável por tudo isso, esteja além das nossas possibilidades de apreensão.
— O que quer dizer com isso, Holmes?
— Crê que foi, de fato, um assassinato?
— Ah, sem dúvida alguma, foi um assassinato. E um assassinato com repercussões muito maiores do que imaginam.
Dito isso, Holmes se calou, como era seu costume, e mais nenhuma informação pude eu obter. Fomos levados aos nossos aposentos, com a promessa de que seríamos informados no momento em que recebêssemos a resposta do telegrama. Holmes ocupou uma poltrona confortável, mirando, pela janela, a praça de São Pedro, fumando o seu cachimbo. Eu, por minha vez, permaneci andando de uma ponta à outra do cômodo.
— Que formidável, ehm, Watson? Um crime deveras formidável… A criatividade, Watson! A simplicidade e a ousadia!
— Holmes, do que está falando? Eu não consigo compreender!
— Observe, Watson, e veja! O que há de notável naqueles cardeais? O que eles têm de semelhante?
— Além do fato de serem cardeais e de estarem juntos para o conclave, Holmes, não vejo semelhanças. Cada um era de um país da Europa: Alemanha, Áustria, França… De acordo com o decano, eram todos favoritos a ocupar o posto de Papa, todos muito queridos dentro de suas paróquias, bem quistos pelos reis ou imperadores…
— Exatamente, Watson. É isso que você não está enxergando. É aí que está a chave!
— Não me diga que acredita que alguém daqui de dentro cometeu este crime, para poder tomar o poder? — questionei; aquilo me era inconcebível! Apesar das histórias antigas de disputas sangrentas pelo poder papal, não poderia cogitar isso ocorrendo em pleno século XX!
— Paciência, meu caro doutor… Paciência.
A noite caiu na Santa Sé; eu me encontrava exausto. A viagem havia levado mais de dois dias, e, embora a cúria houvesse nos oferecido um vagão de primeira classe, eu ainda me sentia dolorido e cansado. Sim, era de fato muito melhor das agruras da guerra, mas…
Meus pensamentos foram interrompidos pela chegada do mensageiro, trazendo um telegrama dobrado para Holmes. Ele o abriu e, imediatamente, mandou chamar o decano. O homem da fé que nos encontrou tentava transmitir paz, mas eu podia ver que estava tão ansioso quanto eu.
— Senhores, gostaria de dizer que sei quem foi o responsável pelo assassinato dos seus cinco cardeais — Holmes anunciou. — Porém, sinto em dizer que ele não pode ser preso, pois já se encontra morto.
— Como assim, Holmes? O assassino estava aqui entre nós? Faleceu entre eles?
— O quanto vocês conhecem da história do Reino da Sérvia?
Eu não conhecia, particularmente.
— Um principado até vinte anos atrás, era governada pelo rei Aleksandar Obrenovic, até ser deposto em 11 de junho deste ano. A grande questão, senhores, é que o pequeno Reino da Sérvia encontra-se ameaçado por todos os lados pelas grandes potências europeias. Imagine se uma dessas potências obtivesse também um papa? Ciente de que corria o risco de ser deposto a qualquer momento por um líder oposicionista muito mais impetuoso que ele, Aleksandar optou por uma medida ousada. Enviou de presente seis livros de capas verdes: um para o papa Leão XIII, e outro para cada um dos cardeais que nos deixaram, e que certamente os manusearam amiúde. Os mesmos livros que seus olhos observaram, mas não viram, caro Watson.
“Estes livros são pintados com o famoso Verde de Paris, que contém arsênico em sua formulação. Sua exposição prolongada leva, invariavelmente, à morte. E uma das alterações antes disso é a pigmentação escura da pele”.
— Mas como sabe que foi o rei que fez isso, Holmes?
— Simples. O livro foi impresso em uma gráfica na Alemanha, onde a cor se originou. Mandei uma mensagem para a gráfica, questionando quem fez a encomenda, e aqui está a resposta — ele respondeu, mostrando-me o telegrama. — Creiam, meus senhores, que esta simples ação deste ousado rei pode parecer cruel para os olhos mortais, mas tenho fé que tenha impedido uma grande guerra pelos próximos dez anos. Quem sou eu para julgar, mas, às vezes, Deus escreve certo por linhas tortas. E verdes, por que não? Nota do autor: escrevi esta história para um concurso de uma editora. A ideia era: Sherlock Holmes envolvido em uma investigação durante o conclave que elegeu o Leão XIII. Infelizmente, não fui escolhido para participar da antologia, mas a história está aqui. Eu gostaria de ter feito uma versão mais longa, mas as exigências do concurso envolviam este tamanho diminuto (pequeno demais para um conto do Sherlock!).

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais