Comprando aquilo
Era aquele vale night do mês em que os quatro podiam se encontrar: Tiago, Rogério, João e Eduardo, o Dudu. Estavam todos em um restaurante do shopping, comendo uns petiscos, tomando cerveja e deixando os mais diversos jogos passarem em várias telas ao seu redor. De repente, o assunto entrou em anticoncepcionais, e Tiago acabou soltando:
– Cara, sou só eu, ou vocês também ficam constrangidos para comprar aquilo?
– Aquilo o quê? – questionou João.
– Não vai dizer que tu tá usando o azulzinho? – falou Rogério.
– Nunca nem vi isso aí – disse Dudu.
– É claro que não!
– Foi pra um amigo, né?
– Todo mundo sempre fala isso.
– Não é disso que eu tô falando! – exclamou Tiago. – Quero dizer camisinha!
– Ah, tá…
– Mas você usa isso ainda? Não tá casado, não?
– Já tenho três filhos, isso basta, não basta?
– Mas, tu não cortou as bolas?
– Olha como fala, ô Rogério! Pretendo manter as minhas bolas bem onde elas devem ficar!
– Não, seu cabeçudo. Tu não operou, não?
– Não, não, acabei… Sei lá, fiquei enrolando, ainda não.
– Já operei – disse João, colocando as mãos atrás da cabeça. – Melhor coisa que fiz. Não preciso me preocupar mais com isso. Todo mês era um risco.
– Minha esposa usa pílula – disse Rogério. – Muito mais fácil.
– Mas, quando vocês tinham que comprar camisinha… Vocês não ficavam constrangidos, não?
– Como assim, Tiagão?
Ele tomou um gole longo da cerveja gelada, como se estivesse criando coragem pra contar.
– Toda vez que eu entro na farmácia pra pegar aquilo… Eu olho em volta, pra ver se não tem ninguém olhando. Daí, escolho o mais rápido possível e vou pro caixa. E sempre, sempre tem alguém atrás, ou na frente, que fica olhando, e eu sinto que tá me julgando…
– Julgando por quê?
– Sempre tem uma velhinha, porque farmácia sempre tem velhinha, que fica me olhando como quem diz: “Seu depravado!”. Especialmente quando eu compro aquelas caixas com 16…
– Mas, também, tu vai e me compra uma caixa?
– Dura mais! É mais fácil!
– Lógico que a velhinha vai achar que tu vai usar tudo de uma vez!
– Com o tanto de filho que ele tem, certeza que dura um ano isso aí… – murmurou João para o Dudu, que riu.
– Como se você fosse uma máquina! – exclamou Tiago, que tinha ouvido o comentário jocoso.
– Todo domingo! Domingão do João! Aliás, amanhã é dia!
– Fora que eu vou passar no caixa – ele continuou, ignorando. – Sempre fico pensando o que a moça fica pensando. Eu sempre acho que ela vai olhar e falar, nossa, olha esse cara, comprando camisinha, achando que vai mandar bem, quem é a doida que ficaria com ele…
– Sério, cara, tu precisa de tratamento.
– Você é casado, Tiago, não precisa prestar contas a ninguém! – e depois adicionou, baixinho, para Dudu: – Fora que já tem uma louca que fica com ele…
– …Daí, outro dia, eu tava voltando de viagem com uma mala de rodinha, precisei passar na farmácia, fiquei pensando se a moça do caixa não achou que eu era, tipo, sei lá, um executivo em viagem que tava indo encontrar a amante…
– Cara, tu já pensou em ser escritor? Com essa imaginação toda?
– Sério que vocês não pensam nisso, não?
– Velho, na boa – disse João, pondo a mão sobre o ombro de Tiago, que estava ao seu lado. – Ninguém tá nem aí pra você estar comprando camisinha ou não. Eu tenho certeza de que a moça do caixa nem se liga do que ela tá passando. Só se você for feio demais, tipo o Rogério, que daí ela vai pensar, “Puta merda, esse cara tá pensando que é quem pra…” Ei! – ele foi interrompido por um soco que cruzou a mesa e o acertou no ombro.
– Vamos perguntar para a única pessoa que está realmente no mercado. Dudu. Que que tu sente quando vai comprar camisinha?
– Ahm… Geralmente eu pego um pacote de oito, deve dar pra semana…
– Ah, vai se fu… – começou João.
– Dou um sorrisinho pra moça do caixa, especialmente se ela for solteira… Pergunto se ela acha que é o suficiente… E algumas vezes eu saio com o telefone dela.
– Duvido! – exclamaram todos da mesa.
– Cara, se fosse comigo, eu juro que ia falar que ia vencer antes de você usar metade – disse João.
– Ou que é o suficiente pra vida toda! – completou Rogério.
– Então, você não se sente mal com isso, mesmo? – questionou Tiago, que estava realmente curioso.
– Que nada, cara. Isso é natural. Certeza que a moça do caixa faz isso também. A dúvida só é qual anticoncepcional ela usa. Todo mundo faz isso, Tiagão. Relaxa.
– Justo o cara que é cheio da autoconfiança e disciplina positiva e educação sexual e o raio que o parta… – comentou Rogério. – É um trauma de infância, isso aí, é? Teu avô de repente encheu uma camisinha como balão inflável e te deu pra brincar?
– Cara, faz o seguinte – disse Tiago, pegando uma nota de vinte e ignorando o outro. – Já que você é todo desinibido aí, passa na farmácia ali da frente e compra um pacote pra mim?
– Sério, cara, tu precisa de terapia…
Dudu pegou a nota de vinte, levantou-se e saiu; eles estavam na área aberta do restaurante, de forma que podiam ver com clareza Dudu entrando na farmácia logo em frente.
Sem qualquer hesitação, ele foi ao corredor correto, pegou um pacote, dirigiu-se ao caixa. Enquanto estava na fila, uma velhinha olhou para o pacote de preservativo brilhante que ele exibia sem pudor.
– Olha lá a velhinha desaprovando! – comentou Tiago.
Os três acompanhavam a cena como se fosse uma corrida de fórmula 1.
Uma vez no caixa, ele entregou sem medo para a moça.
– Agora é a hora! A hora da cantada! – disse Rogério.
Ele falou alguma coisa; a moça do caixa riu. Ele entregou a nota, recebeu o troco, pegou a notinha e, com o pacote em mãos, saiu vitorioso da farmácia.
– Viu? – disse ele, voltando para a mesa. – Sem estresse nenhum. Ninguém me olhou feio.
– A velhinha fez uma careta.
– Ela tava é com saudade da época que fazia isso.
Dudu pegou o pacote e o troco e entregou para Tiago; depois, pegou a notinha.
– Posso ficar com isso? A moça do caixa marcou o telefone dela aqui.
– Tá de zuera!
– Não acredito!
– Ah, vai se fu…
Dudu apenas riu e guardou a notinha no bolso. Poderia ser que realmente tivesse algum número lá; poderia ser que não. Mas Tiago permanecia com uma decisão a tomar: fazer uma vasectomia, para evitar ficar comprando preservativos, ou simplesmente pedir ao Dudu que comprasse para ele periodicamente?

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais
9 de julho de 2025 @ 11:32
Confesso que já me senti constrangido quando era mais novo, acho que você liga mais para oque as outras pessoas estão pensando de você quando se é mais novo. Engraçado lembrar disso.