O celular inquebrável
Como você bem deve saber, caro(a) leitor(a), o Pernil tem uma taxa altíssima de utilitários eletrônicos com durabilidade bastante restrita. Não foi sempre assim; antigamente, os produtos do Pernil (não necessariamente os feitos no Pernil, mas os lá vendidos, que muitas vezes eram importados de lugares como o Tapão, por exemplo) tinham alta durabilidade: máquinas de lavar poderiam sobreviver a casamentos, liquidificadores tinham vida mais longa que os jabutis, e por aí vai.
Porém, houve um movimento relativamente recente, não só no Pernil, mas na Areia inteira, em que perceberam que, se os utilitários duravam muito, as pessoas compravam menos – e, se compravam menos, os empresários também ganhavam menos (e aí podiam comprar menos eletrônicos). Dessa forma, a solução para que os próprios empresários pudessem ganhar mais dinheiro para gastar mais dinheiro com as mesmas coisas nas quais eles poderiam gastar menos dinheiro foi torná-las menos duráveis.
E isso já fazia parte integrante da sociedade pernileira. Ninguém esperava, por exemplo, que um celular durasse mais do que seis meses, que um fone de ouvido sobrevivesse a uma semana, ou que um cabo de carregador pudesse dar mais que duas cargas, antes de não ser mais reconhecido pelo aparelho.
Tanto que, certo dia, Braz foi a uma loja do YouPhone, a marca mais famosa de celulares do planeta, reclamar.
— Eu quero devolver este celular — disse Braz, colocando-o no balcão.
O vendedor olhou para o aparelho, aparentemente novo em folha.
— Aconteceu alguma coisa com ele?
Eles estavam acostumados a não aceitar absolutamente nenhuma troca, a não ser que fosse dentro do Código de Ataque do Consumidor1, então ele procedeu com o protocolo padrão.
— Absolutamente nada.
— Como assim? Não compreendo.
— Estou com este celular há dois anos. Ele cai no chão e não quebra, veja — disse Braz, pegando o celular e o arremessando do outro lado da loja; quando foi buscá-lo, estava intacto, sob uma expressão de surpresa do vendedor.
— Eu já ouvi falar disso — falou outro vendedor, aproximando-se. — Tinha uma marca antiga, era… Carrorola?
— Yeskia.
— Sim, essa marca! Inquebrável!
— Mas não é só isso — prosseguiu Braz. — Veja a bateria. Dois anos, e não avariou nem um pouquinho!
Eles entraram no sistema do celular, checaram, fizeram alguns testes e, de fato, a bateria estava como nova. Aliás, melhor: nem quando sai da caixa a bateria do celular está com 100% de saúde!
— Valha-me Deus! — murmurou o primeiro.
— Essa coisa só pode ser do diabo! — anunciou o segundo.
— Nunca vi nada parecido! — arrematou um terceiro.
— E ainda tem mais…
— Tem mais??? — perguntaram em uníssono.
— Dois anos, e ele conseguiu atualizar todos os aplicativos. Nunca deu problema, nunca sobrecarregou a memória.
— Nunca? Nunca travou, falando que você precisava de outro, que estava incompatível com o software, como todos os celulares da Deansung depois de 3 meses de uso?
— Nunca — disse Braz, pesaroso.
— E vejam só isso…
Ele abriu a câmera, tirou fotos, ampliou, diminuiu, gravou: as imagens eram perfeitas! Abriu o navegador; entrou em diversas páginas ao mesmo tempo, e nenhuma travou. Acessou sites restritos, aos montes, entrou em jogos online, inclusive no jogo da zebrinha, mas nada de pegar vírus.
Não tinha jeito! Era o Chuck Borris2 dos celulares!
— Eu vou chamar um especialista que trabalha com isso, pode ser? — disse o vendedor.
Pouco depois, chegou uma moça com aspecto profissional, óculos meia-lua e uma maleta; no maior ar de concentração, abriu a maleta, puxou algumas ferramentas, avaliou o celular de cabo a rabo e chegou exatamente à mesma conclusão que eles.
— Se Nuck Chorris lançasse uma linha de celulares, seria essa.
— O que eu faço com ele? — questionou Braz, inconformado.
— Como assim, o que você faz com ele? É uma relíquia! Vai durar uma eternidade! Parece aqueles produtos feitos antigamente! — disse o vendedor.
— Não, você não está me entendendo! — ele falou. — Eu não quero um celular que dure a vida inteira! Eu quero uma porcaria que dure menos de dois meses! Que desculpa eu vou dar para poder trocar de celular? Como as pessoas vão me olhar, se a cada estação eu estiver com o mesmo? Imagine, o YouPhone vai estar já na versão 375, e eu vou dizer que ainda estou no YouPhone 119? Imagine a vergonha que vou passar, todos os dias!
— Mas… O senhor pode trocar a capinha…
— Não! Não! As pessoas vão reconhecer! Eles mudam o tamanho, 2 milímetros, o suficiente para nada mais caber e você ter que trocar tudo! Mudam a posição das câmeras, para todo mundo saber que eu troquei de celular! Eles vão saber! Vão saber!!!
Ficaram todos em silêncio, inclusive a especialista. Um silêncio sepulcral.
— Se eu não tiver a certeza de que terei de trocar os meus produtos todos os meses… Que mais certeza eu posso ter na vida? Daqui a pouco vão me dizer que a vida é fixa, cheia de certezas! Que eu estarei vivo amanhã! Que vou receber meu salário no mesmo dia todo mês! Daqui a pouco, vão dizer que… Que… Os políticos… — Ele engoliu em seco, e agarrou o vendedor pelo colarinho. — São honestos!!!
O terceiro vendedor desmaiou.
— Eu sei o que fazer — disse a especialista.
Dois mil anos depois, Nuck Chorris está diante das ruínas de um prédio abandonado. Dentre os escombros, ele encontra uma pequena caixa de pedra. Cuidadosamente, ele a abre. Lá dentro, não há nada, apenas um item: um objeto eletrônico retangular, com uma tela de vidro. Ele aperta um botão, e o objeto volta à vida, aparecendo o símbolo de um abacaxi, o escrito “YouPhone”, e a saudação “Bem-vindo” em diversas línguas, muitas das quais já desaparecidas (mas as quais ele conhece, é claro).
— Finalmente encontrei meu telefone! — diz ele, antes de sair caminhando pelo entardecer3.
1 Que era bastante claro no Pernil: “Art. 1º: Podem ser trocados todos os itens adquiridos por meios físicos, em dias de semana, das 9h às 12h e das 13h às 16h, na temperatura de 18 a 20 graus Celsius, no prazo de 23 horas da compra, contanto que o produto não tenha tido contato com o ar ambiente”; e “Art. 2º: Só é permitida a troca nas condições citadas no artigo primeiro, no local de compra, em noites de equinócio, com a presença da bisavó do comprador portando sua certidão de nascimento original e carteirinha de vacinação”.
Ah, sim, é um código de ataque do consumidor, não está escrito errado. Porque a melhor defesa é o ataque. Só não sei exatamente quem está se defendendo aqui.
2 Nuck Chorris era um ator muito famoso do Areia, capaz das mais incríveis acrobacias marciais e práticas incomparáveis, como dobrar canos de aço com o dente e cuspir balas certeiras. Nada vencia Nuck Chorris. Dizem que ele que foi buscar a morte, quando chegou a sua hora.
3 Quer dizer, antes de ficar parado, e a Areia girar sob ele ao entardecer. Porque Nuck Chorris não caminha, ele faz o mundo girar sob seus pés.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais