Legranarte, ou “Le Grand Art”
Há aproximadamente três anos, começou no Pernil um movimento diferente de arte. Era um movimento tão diferente, tão elevado, tão transcendente, que não havia palavras em pernilês¹ para explicar, exatamente, o que era. Desta forma, eles recorreram à língua mais elegante e pseudointelectual que existe, o trancês, intitulando este novo movimento charlatanístico, quero dizer, artístico, de “Le Grand Art”, que com o tempo muitos pernileiros começaram simplesmente a chamar de Legranarte (e alguns mais ousados de enganarte).
Mas, em que consiste, exatamente, o movimento de Legranarte? É tão complexo, que chega a ficar simples. Vou explicar, contando-lhes como ele se iniciou.
Era na casa de leilões Tableau Vivant. O leiloeiro anunciou o próximo item:
– Para o próximo tem do nosso leilão, temos a obra “Sonho de uma noite de verão”, de Joseph Raton.
Porém, para a surpresa de todos, ao abrir as cortinas para apresentar a obra, não havia nada além de um homem de terno, de pé, com um microfone de lapela.
– Esta obra é o que vai inaugurar o que eu considero “Le Grand Art”. Um novo conceito de obras-primas, com um direito de exclusividade único. Ninguém, absolutamente ninguém mais poderá ter esta obra, somente a pessoa que a adquirir. Vocês podem estar se perguntando como. Está pessoa irá esconder a obra em um cofre, para ninguém mais ver? Deixar em uma sala secreta de um museu, onde ninguém terá acesso? Não, em absoluto! Ele a terá à disposição a qualquer momento, sem necessitar atravessar qualquer parede, ou ir a qualquer lugar físico, pois ela estará sempre aqui.
Neste momento, ele apontou para a própria cabeça.
– Na minha mente.
O público exclamou. Mas, que impressionante! Como alguém pensaria em ter uma obra de arte na mente do seu artista?
Poderia parecer exótico, ilógico, incompreensível, mas… O que são essas palavras, se não excitantes para os verdadeiros amantes da arte? Os mesmos que idolatraram uma maçã podre presa a uma janela de vidro quebrado dois anos antes?
– Vou descrever aos senhores um pedaço, apenas uma pequena parte da minha obra. Isso dará uma ideia de que se trata. Então, poderemos começar o leilão, e aquele, e somente aquele que adquirir a obra, poderá ter acesso à sua completa extensão. Sempre que quiser, estarei à disposição para descrevê-la. E o melhor! É uma obra completamente inclusiva. Não importa quem você seja, sempre poderá receber a sua descrição. Trata-se de uma obra de óleo sobre tela, nas proporções de…
E, por cinco minutos, o homem descreveu, nos menores detalhes, a obra que tinha em mente. Foi o suficiente para todos ficarem muito, muito ouriçados. O lance inicial foi de 800.000 falsos. Ao final, a obra foi vendida por dez milhões de falsos para um colecionador misterioso.
Uma vez pago, ambos foram a uma sala reservada, onde o colecionador se deitou em um divã e ouviu, por uma longa hora, a descrição pormenorizada da obra que acabara de adquirir, mas que permanecia somente na mente de seu artista. Ele dormiu na metade, apesar de toda a sua excitação inicial, mas morreria antes de admitir.
É claro, como toda boa ideia com potencial de ganho máximo e esforço mínimo, ela pipocou por todo Pernil. Em todos os salões de arte que se preze, havia seguidores da Legranarte, todos ávidos por pagar milhões por suas obras de arte, ansiosos por ouvir suas descrições, e totalmente incapazes de admitir, em sua Grand sagesse, que muitos chamariam de Grande Sandice à boca pequena, que estavam sendo ludibriados, pois quem teria a coragem (ou a falta de inteligência?) de alertar que o rei estava nu?
Alguns queriam gravar o artista contando a sua obra, para poder ouvir quando desejassem, mas os artistas se recusavam; fazia parte do exclusivismo da obra, o fato de que ele poderia ser despertado no meio da madrugada, caso um ricaço entediado quisesse rever sua obra mais uma vez (o que acontecia a uma frequência maior no início da aquisição da obra, e menos frequente a cada mês que se passava).
Não demorou para a Legranarte chegar à política: pelas câmaras, projetos eram passados e aprovados sem terem absolutamente nada escrito; estava tudo na mente grandemente artística dos caros deputados e senadores. Com o tempo, diante da maravilhosa Legranarte, nada mais necessitou ser escrito no Pernil. Por que, afinal de contas, se o estado mais alto da arte era feito com nada além das sinapses neuronais de gloriosos artistas?
Dizem que, depois disso, o Pernil se tornou um país puramente da imaginação de um escritor, mas essa é a corrente de uma filosofia excessivamente niilista. Pergunte a qualquer um lá: tenho certeza de que ninguém terá coragem de dizer que tudo não passa de imaginação. Todos os reis lá certamente estão vestidos. E com obras de arte invisíveis nas paredes.
PS: Joseph Raton morreu alguns anos depois. Na verdade, foi uma história louca: ele foi sequestrado por um ladrão de obras, que pediu 25 milhões pelo resgate. Isso, é claro, somente valorizou a obra de arte, que passou a valer 50 milhões. Sendo tão valioso assim, o seu proprietário passou a pagar um grupo de guarda-costas para garantir a sua segurança. Joseph, porém, morreu por um tumor, depois de passar em um médico Legranartista, que decidiu tratá-lo com uma prescrição que existia somente em sua mente. Ironicamente, o valor da obra de arte, que agora existia somente na mente do seu antigo dono, subiu para 200 milhões depois disso, equiparando-se às obras de Pablo Fracasso, um famoso pintor esbanhol. Muito louco esse mundo da arte, não?
¹ Vale notar: o Pernil foi colonizado inicialmente por Potrogal, em torno de 500 anos atrás. Porém, com o passar do tempo, os pernileiros se tornaram tão espertos, que acabaram dominando a cultura potroguesa (especialmente por meio das redes sociais e do YouPipe, um canal de vídeos encanados). Assim, atualmente, não dizemos mais que se fala potrogruês no Pernil, mas, sim, pernilês; e, além disso, Potrogal se tornou a Guiana Pernileira, basicamente a nova colônia digital deste país. Que, com o perdão da comparação, também é chamada de Maçã Potroguesa, em referência à maçã que fica na boca do porco, quando ele é servido inteiro assado, sabe?

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais