O Fantástico Caso das Múmias
Eu já estava afastado da polícia civil fazia tempo, assim como a Isabella já estava longe dos salões de autópsia do IML, mas, de vez em quando, alguns colegas vinham pedir ajuda para nós. Foi em uma segunda-feira, alguns meses atrás, que Roberto veio à nossa casa um pouco antes do fim do horário do expediente. Ficamos felizes com a sua visita, é claro, mas sabíamos que Roberto não era daqueles de vir fazer visita ao fim do dia; com três filhas nas costas, se tinha uma coisa que ele não tinha era tempo para visitas sociais.
Assim, já fui perguntando:
— Vamos, Roberto, do que a polícia precisa?
— Ora, Dias, o que faz você pensar que eu só vim aqui porque preciso da sua ajuda?
— Tá bom, prove que estou errado.
— É claro. Vim pedir ajuda da Isa, não sua!
Nós três rimos e, em alguns instantes, ele espalhava diversas imagens e relatórios pela mesa.
— Mulher, 37 anos, encontrada morta em casa. Foi o marido quem chamou a polícia. Aqui estão as imagens… E o relatório da autópsia.
Observei a cena; a mulher havia sido encontrada desacordada, no banheiro. Não havia absolutamente nenhum sinal de violência; ela simplesmente estava de bruços no chão, e alguns dos vários frascos da bancada estavam caídos, como se ela tivesse se apoiado lá antes de cair. Sua face estava com um aspecto arroxeado, assim como os lábios e pontas de dedos, e havia algumas petéquias. Fui logo buscar sinais de estrangulamento pelas fotos, mas não havia absolutamente nadam nenhuma marca em seu corpo.
— O que acham?
— Eu pensaria em algum tipo de morte por asfixia — falei. — Mas não vejo sinais de estrangulamento.
— Excelente, André — Isabella falou. — Não parece mesmo.
— O que acha?
— Algum tipo de sufocamento. Ela se engasgou com algo? O que o legista achou?
— Aqui — disse Roberto, entregando o relatório e as fotos do legista.
Ela leu o relatório, franzindo a testa, depois pegou a foto; deixando-a de lado, foi ao escritório e voltou com uma lupa, para avaliar a foto com mais atenção.
Enquanto isso, eu lia o relatório; segundo o legista, parecia que a moça havia se asfixiado com uma substância viscosa, semelhante a…
— Betume?
— Vai dizer se não é bizarro?
— Aqui — disse Isabella, com a foto e a lupa na mão. — Estão vendo?
Afora uma bancada bastante bagunçada, eu não via nada que se parecesse com betume.
— Aqui. A taça virada. Está vendo o fundo preto?
— Pode ser borra de vinho, não?
— E agora, isso aqui — ela falou, apontando para um pequeno frasco com inscrições praticamente ilegíveis, no que pareciam hieróglifos ou qualquer coisa do tipo.
— O que raios é isso? A perícia chegou a coletar os frascos?
— Provavelmente — Roberto respondeu. — A casa ainda estava isolada quando eu saí, mas estavam concluindo as coletas.
— Existe uma nova corrente médica de volta às origens.
— Como é?
— Medicina tradicional antiga. Ou qualquer baboseira do tipo. Teoria dos humores hipocráticos, fórmulas medicinais milenares… Precisamos conseguir esse frasco. Eu acho que ele vai ter informações importantes para nós.
Roberto e eu nos entreolhamos; será que havia betume naquele frasco? E por quê? Mas Isabella, como de costume, não iria falar muito, e Roberto teve de sair e buscar o frasco ele mesmo.
— Isa, você poderia pelo menos ter falado o que você está pensando!
— Se eu falasse, Roberto não iria trazer o frasco para mim. E eu quero ver com meus próprios olhos.
Eu revirei os meus olhos, mas, fazer o quê? Seu jeito sempre fora esse, não seria agora, perto dos 50 anos, que ela iria mudar.
Roberto chegou pouco depois, com o frasco em um pacote de evidências.
— Você sabe que eu não posso fazer isso — ele disse.
— Você não está fazendo nada — retruquei.
Isabella manipulou o frasco pela embalagem transparente e, com a ajuda do celular, tentou tirar uma foto e traduzir o que estava escrito.
Os hieróglifos eram intraduzíveis, mas havia algo em grego que o tradutor do Google definiu como “Cocção de Paracelso”.
— Há! Exatamente! Veja…
Isabella digitou no buscador o nome de um livro: “Basílica Chymica”, de Oswald Croll.
— Neste livro do século XVII, Croll descreve algumas variações de poções ou remédios de Paracelso. Essas poções usam muito betume… Que era uma panaceia para muitas coisas na antiguidade. Não preciso dizer que, é claro, não só não serve para nada, como, e isso vocês podem ver claramente, ainda pode matar.
— Então, você acha que ela se intoxicou com alguma fórmula de algum médico maluco? — perguntou Roberto.
— Exatamente. Não acho que seja algum assassinato, nem nada assim. Agora… Alguém precisa fazer alguma coisa em relação a esse médico.
— Posso notificar as autoridades competentes — ele respondeu. — Mas, você sabe como o sistema funciona.
Eu concordei. Infelizmente, não era um sistema muito célere, nem justo, e era provável que não desse em absolutamente nada (um dos vários motivos pelos quais eu abandonara a minha carreira na polícia). Assim, meu antigo colega agradeceu, juntou seus documentos e, prometendo que em breve viria para um jantar social decente (o que todos nós sabíamos que não aconteceria), foi-se pela porta.
Quando fechamos a porta e nos viramos para voltar aos nossos afazeres, Isabella disse:
— Então, quando vamos falar com o marido da vítima?
— Como é?
— Ah, André, não vai me dizer que você não está nem um pouco curioso com isso!
— Curioso? Eu achei é nojento. Mas, se tem gente maluca querendo ingerir isso…
— Não, você não está entendendo. Betume é o menor dos problemas. As cocções de Paracelso muitas vezes usavam múmias humanas.
— Múmias? Você só pode estar brincando!
— Aquele tempo era muito maluco. Eles acreditavam em muitas coisas sobrenaturais, semelhanças de minerais, vegetais, etc… Não muito diferente de hoje, para falar a verdade…
— Mas, de onde ele estaria tirando múmias, Isa?
— Aí é que está o negócio. De onde?
Eu abri a boca para responder, mas não soube o que falar. Virei-me para ir para o escritório, depois voltei, dirigi-me à cozinha, virei-me, abri a boca para falar, parei, e, por fim, após uns instantes de indecisão, falei:
— Está bem.
Não adiantava discutir com ela. Eu estava curioso e sabia que a polícia não daria conta de resolver aquilo. Seria mais um caso probono para a minha conta.
Isabella, que não era nem um pouco boba, havia memorizado as informações da vítima que constavam no relatório. Eram nove horas da noite, mas a casa continuava a todo movimento; havia diversas pessoas ao redor do viúvo, que parecia claramente perdido. Tendo decidido que não se tratava mais de um crime, o quarto não estava mais isolado e os policiais haviam ido embora, mas ainda havia alguns parentes circulando aqui e ali, organizando a casa, ajudando com as escolhas para a cerimônia – que ainda não tinha data determinada, pois dependia da liberação do corpo pelo IML.
Entrei me apresentando pelo nome e falando que era investigador. Não era mentira, e ninguém perguntava exatamente de onde eu era investigador – de polícia ou particular, para os leigos, não fazia diferença.
— Estou ajudando meu colega Moreto — falei, apresentando-me para o marido. — Temos algumas teorias sobre o que aconteceu.
— Vocês têm alguma informação? — ele perguntou, ávido. — Não recebemos nada da polícia.
— Ela asfixiou ao ingerir uma quantidade acima do tolerável de uma substância chamada betume — disse Isabella. — Acreditamos que estava em uma fórmula que ela estava tomando.
Ela pegou o celular e mostrou uma foto do frasco, a mesma que havia usado para conseguir traduzir o que estava escrito.
— Reconhece isso?
— S-sim. Foi isso que matou a minha esposa?
— Não temos certeza ainda — falei, antes que Isabella respondesse a verdade e o caos se instaurasse. — Precisamos aguardar a perícia concluir sua análise. Mas seria importante se soubéssemos de onde isso veio.
Ele ficou pensativo por alguns instantes.
— Ela passava em um médico… Puxa, eu não tenho certeza, nunca prestei atenção… Disse que isso era ótimo, fazia o cabelo crescer… Como era o nome dele? Eu…
— Ela não guardou a receita em algum lugar?
— Sim! — exclamou ele. — Escritório, primeira gaveta. Mãe? Mãe, consegue ajudar a investigadora…
As duas mulheres foram rapidamente pelo corredor.
— Betume? — o marido questionou. — Não usam isso no asfalto?
— Estou tão surpreso quanto você — respondi.
Pouco depois, Isabella retornou com um papel na mão.
— Aqui, André. Temos um contato.
Conseguimos agendar uma consulta para o dia seguinte à tarde. Neste meio tempo, Isabella pesquisou o nas redes sociais tudo o que ela conseguiu encontrar sobre o médico: o Dr. Mohamed Ibn Sina, ou Dr. Moha, como ele gostava de se intitular.
— Basicamente, um poço de conspiracionismo — disse ela, mostrando-me a página dele no Instagram, com quase um milhão de seguidores. — Impressionante que o CFM não tenha caído em cima dele, ainda.
— Poder energizante das pirâmides… Pedras quentes sagradas… Antivacina, terraplanismo, cura para autismo… Gente do céu!
— E, aqui, veja: as cocções de Paracelso!
Ela abriu um vídeo falando sobre as maravilhas que as cocções poderiam fazer por você, desde a cura da calvície até o câncer de qualquer tipo.
— Práticas milenares… O poder das múmias e dos betumes… Gente!
— Mas, Isa… Se já temos todas essas informações, do que mais precisamos?
— Precisamos do fornecedor das cocções ou dos ingredientes para ele.
— E como você vai conseguir isso dele?
— Ora, do jeito mais simples… Pedindo uma fórmula para mim!
E, assim, algumas horas e uma fortuna depois, encontrávamo-nos no seu consultório, repleto de símbolos da cultura antiga, tanto oriental quando ocidental, em uma mistura que me dava dor de cabeça (isso e o cheiro de incenso).
— Uma amiga minha me falou muito bem do seu tratamento para crescer cabelo, Dr. Moha — Isabella falou.
— Ah, sim, sim! Quem foi que me indicou?
— A Mariela Esteves.
— Ah, a Mari, sim! Resultados excelentes. Excelentes!
— Estava pensando se poderia indicar para o meu marido, também.
Eu a encarei, mas consegui segurar minha boca antes que falasse um “O quê?!”.
Eu não estava careca e tinha, no máximo, umas entradas que cultivava desde a adolescência, mas nada além disso.
— Tenho o tratamento perfeito para isso — ele falou.
Assim, depois de uma consulta de uma hora em que ele avaliou meu pulso, minha língua, meus chakras, definiu que eu tinha alguma coisa Yin, outra coisa do Yang, algum canal obstruído, alguma coisa no chakra do meu triplo aquecedor ou algo que o valha, algum vento encanado e que certamente eu me beneficiaria de um tratamento caríssimo que envolveria pedras quentes que vieram de Pompeia, soroterapia suíça (o soro era feito a partir de água das montanhas dos Alpes), um jogo de potes de odores (sim, era ar obtido dos mais diversos locais, que eu deveria cheirar uma vez por dia, em uma sequência determinada, para melhorar minha aura – talvez isso seja o “farmar aura” que os adolescentes tanto falam hoje em dia) e, por fim, uma cocção especial de Paracelso para os meus cabelos em vias de falecimento.
Tudo era vendido lá, por um valor que se aproximava do valor de venda do meu carro – exceto pela poção, que eu deveria encomendar com um mestre chinês.
— Acho que está cedo o suficiente para darmos um pulo na Liberdade — disse Isabella, fingindo-se exultante com a fórmula prescrita que salvaria a calvície do seu marido.
No começo, eu estava em dúvida de por que ele mesmo não vendia as cocções. Poderia fazer como fazia com todas as outras coisas, comprando-as muito barato e vendendo por um preço exorbitante.
Chegamos ao endereço indicado e tocamos o interfone. Era uma porta pequena em um prédio comercial, ladeada por dois restaurantes de Lámen. Você nem diria que a porta estava lá, se não soubesse o que procurar.
— Olá! — disse uma voz com sotaque chinês.
— Olá — respondeu Isabella. — Vim pegar uma cocção prescrita pelo Dr. Moha.
A porta se abriu imediatamente. Passamos por uma passagem estreita que nos saudou com algum cumprimento em chinês, vindo de alguma máquina automática, subimos uma escada apertada e, por fim, encontramo-nos no segundo andar de um daqueles vários predinhos da Liberdade. Havia uma meia porta antiga de metal, daquelas vazadas sanfonadas, como a de elevadores antigos, protegendo uma outra de madeira. Ouvi o barulho de várias trancas e, por fim, um chinês um pouco mais baixo que Isabella, de cabelos brancos e longo bigode, apareceu.
— Receita? — ele pediu.
Isabella lhe mostrou a receita escrita pelo médico, e o homem assentiu. A porta gradeada permaneceu fechada, permitindo que víssemos através, mas não que passássemos. A sala era pequena e abafada, cheirando forte a incenso e talvez moxa, e parecia um boticário antigo; havia animais empalhados, objetos estranhos que se assemelhavam a chifres de animais e diversas ervas em armários chineses, repletos de gavetinhas e mostruários de vidro.
O homem voltou pouco depois, com dois frascos na mão.
— Noventa e nove e noventa e nove — disse.
Isabella os pegou, olhando atentamente, enquanto eu também observava com curiosidade.
— Não tem os mesmos hieróglifos da Mariela — comentou. — Nem o escrito em grego.
— Isso me parece chinês.
— Sim. E, por incrível que pareça, tem os ingredientes aqui. Veja, betume.
Ela me mostrou um monte de ideogramas incompreensíveis.
— Desde quando… — comecei a perguntar, mas ela me cortou.
— De onde vocês conseguem esse betume? — ela perguntou para o chinês.
— Noventa e nove e noventa e nove. Só dinheiro ou pix.
Isabella revirou os olhos e puxou uma nota de cem. Aquela aventura estava começando a sair muito caro.
— E então? O betume?
— Não entendo.
De repente, ela soltou uma frase em chinês; o homem ficou tão surpreso quanto eu. Tão surpreso, que ele não teve escolha, a não ser responder. Depois de um diálogo absolutamente incompreensível, em que talvez tenha corrido alguma ameaça, eu não saberia dizer, Isabella se deu por satisfeita, o homem nos saudou, fechou a porta e tornou a trancá-la; ela, por sua vez, virou-se e seguiu para a escada, e eu fui atrás.
— Isa! Ei, Isa!
— O enganador está sendo enganado!
— Isa, sério! Desde quando você sabe falar chinês?
— Desde… Ora, tem uns anos, já.
— Mas, como? Eu nunca vi você tendo aula!
— Não, eu aprendi com o Duolingo. Aqui, veja — ela falou, mostrando-me o aplicativo da coruja verde.
Meu queixo caiu tanto quanto o da corujinha, quando você faz uma lição perfeita. Pois é, lá estava eu, ainda patinando no inglês, e ela estava no nível cento e sabe Deus quanto de chinês. Além das outras cinco línguas que ela já falava.
— Isa, ajude um ignorante. O que raios aconteceu ali?
— Ah, sim. Às vezes eu esqueço que você não fala… Bem, deixa. Eu perguntei para ele de onde ele tirava o betume para colocar na fórmula. Ele não quis falar no começo, mas eu falei que pegar betume de múmias era crime, e ele ficou bem assustado, perguntou de onde eu tinha tirado isso, falei que era o Dr. Moha que falava, e aí ele riu e falou que ele não pegava de múmias coisa nenhuma, que era betume simples, mesmo, daquele que você importa no Ali Express.
— Ou seja, não é concentrado o suficiente para matar a Mariela?
— Com certeza, não — ela respondeu. — Mas, você viu o frasco comigo: não era igual. De alguma forma, o Dr. Moha deu uma fórmula diferente para ela.
Saímos pela portinha e encaramos os postes de estilo japonês da rua Galvão Bueno, bastante movimentada, embora já estivesse começando a escurecer.
— Talvez…
— Talvez…?
— Pode ser que as cocções chinesas sejam só para os pacientes que estão chegando agora. Os que vão começar o tratamento, sabe? Talvez, para os pacientes mais fiéis, que gastam mais dinheiro, Dr. Moha faça exatamente o que você sugeriu: faz as cocções ele mesmo e vende por um preço exorbitante.
— O que você quer dizer?
— A pessoa pode voltar para a clínica dele e falar que a poção do chinês não está dando certo. O que você faria neste ponto?
— Botaria a culpa no chinês.
— É claro! Fala que existe uma medicina ainda mais antiga, a medicina egípcia, com uma cocção de Paracelso que só ele sabe fazer. Que custa dez, vinte, cinquenta vezes mais. Nesse ponto, a pessoa já investiu tanto dinheiro, que o que custa investir mais um pouco?
— Mas, Isa, isso não é perigoso?
— Não, isso é uma regra do charlatanismo! Quanto mais a pessoa investir, mais ela se recusa a acreditar que está sendo enganada, e mais ela terá vergonha de admitir! Mariela deve ter gastado uma fortuna! E tudo iria bem, se o Dr. Moha não tivesse cometido um erro.
— Como assim?
— Na Roma antiga, eles ingeriam betume com vinho, para tratar tosse, disenteria, enfim, qualquer coisa. É claro que isso melhorava por si só, porque qualquer resfriado melhora em dois, três dias, assim como a maioria das disenterias. Agora, Mariela provavelmente combinou betume, que talvez ela tenha pegado do chinês aqui, com a cocção de Paracelso do Dr. Moha. A antiga, mais viscosa e, talvez, por que não, de múmias de verdade.
— E isso a fez morrer, então? Um potencializou o outro.
— Exatamente.
— Mas, Isa… De onde esse médico vai tirar essas múmias todas? Não tem tanta múmia dando sopa assim no mundo!
— Essa é a minha preocupação, André. O chinês que acabamos de encontrar é apenas um trapaceiro. O Dr. Moha, por outro lado… Pode ser pior que um simples charlatão. Ele pode estar acreditando, de fato, na sua medicina falsa. E isso significa que…
Foi aí que as engrenagens da minha cabeça começaram a rodar.
— Ele está fazendo as próprias múmias?
— Exatamente.
— Isso talvez seja excessivo.
— Nada é excessivo para uma pessoa que acha que alienígenas construíram pirâmides como fonte de energia a partir do calcário e da água dos lençóis freáticos do deserto.
Eu abri a boca para responder, mas, de fato, não tinha resposta.
O próximo passo da investigação envolveria falar novamente com o Dr. Moha. No entanto, eu não tinha mais o poder de policial civil para exigir um interrogatório ou solicitar um mandado e, por mais que eu tivesse explicado para Roberto da importância disso, ele também estava de mãos atadas.
— Um maluco que você acha que faz as próprias múmias para as pessoas comerem, André? Olha, eu sei que você vive achando crimes bizarros e coisas do tipo, mas eu não tenho material suficiente para convencer o delegado. Você sabe disso.
— Pelos velhos tempos, Roberto!
— Eu sei, André, eu sei, mas não dá. Me ache um corpo, uma múmia, seja o que for, e aí a coisa muda de figura.
Assim, sem o apoio da polícia, restou-me seguir pelos modos civis, marcando uma consulta de retorno com o doutor para poder falar sobre a fórmula chinesa. Meu plano era simples: Isabella iria reclamar que o frasco era diferente do de Mariela, que não tinha os escritos em outras línguas, e o homem iria, que sabe, convidar-nos para fazer parte do seu clubinho especial de fim de semana, que envolvia rituais secretos, danças ao luar e fatiamento de múmias.
Ou pode ser que nada disso desse certo e eu precisasse improvisar.
Ok, essa é a vida, né?
A secretária nos informou que ela conseguiria um encaixe na sexta-feira, às 21h. Péssimo horário, mas, fazer o quê? A agenda do doutor era muito concorrida. E, para nós, não sobrou nada além de esperar.
Sexta-feira, pouco antes do horário, dirigimo-nos para o consultório dele na Avenida Brasil, para encontrar…
Nada.
A fachada ainda continuava lá, mas estava tudo trancado, sem nenhum dos carros importados que costumavam ficar de vitrine na porta.
— Isso não é um bom sinal…
— Acha que é motivo suficiente para Roberto conseguir um mandado?
— Duvido — respondi, descrente, encostando o rosto no vidro para tentar ver o que havia lá.
E, de fato, não havia nada. Em questão de menos de três dias, eles haviam esvaziado totalmente o consultório, como se ninguém nunca tivesse estado lá; pareciam picaretas profissionais, mesmo!
— E não vamos encontrar nenhuma pista aqui. Deveríamos ter vindo antes!
Eu olhei ao redor, pensando. Se ele havia tirado tudo de lá, certamente havia usado uma empresa de mudança, mas um homem esperto como ele não deixaria pistas. Poderia muito bem ter contratado uma empresa aleatória, ou uma pessoa com um grande caminhão, e feito a mudança na calada da noite. Os contratos de aluguel também não trariam lá muita informação, já que todos os dados poderiam ser falsos.
Mas a questão principal era: para onde o homem teria ido?
— Ele tem uma casa de campo — disse Isabella.
— Como é?
— No meio das várias coisas da decoração caótica dele, tinha uma foto dele e da família, em uma casa de campo.
— Podemos buscar propriedades no seu nome.
— Não vai estar no nome dele. Com certeza vai estar no nome de um laranja; algum familiar.
— Certo!
Peguei o celular e liguei para o meu hacker pessoal.
— Jonas! Preciso que procure por imóveis no nome de Mohamed Ibn Said, ou qualquer familiar dele.
— Estamos agora trabalhando com terroristas, chefe?
— Nem toda pessoa com nome muçulmano é obrigatoriamente um terrorista, Jonas.
— Obrigado por atrapalhar a minha sexta-feira à noite só para manter minha xenofobia sob controle, chefe — ele respondeu, sarcástico como só ele poderia ser. — Já te ligo de volta.
Enquanto Jonas fazia a sua pesquisa, voltamos para casa.
— Por que acha que ele desapareceu? — perguntei a Isabella.
— O chinês com certeza falou para ele que perguntamos demais. O agendamento para sexta-feira à noite foi deliberado da secretária, André. Provavelmente ela achou que éramos policiais disfarçados e colocou em um horário que complica tudo. Isso deu tempo a eles de fugir e nos atrasou bastante. Ele provavelmente imagina que, até que descubramos para onde ele pode ter ido e convencido um juiz a emitir um mandado, já vai ter tido tempo de sumir com suas provas e montar seu esquema em outro lugar. É um esquema bom demais para perder.
— Sim, mas ele não vai conseguir mais usar suas redes sociais, ou o seu nome, nem nada assim.
— Se ele sumir com as provas e não utilizar nada além das fórmulas daquele chinês… Para o qual ele pode terceirizar a culpa, é claro… Ele pode ficar na moita tempo o suficiente para a coisa esfriar e ele inventar outra moda. Afinal, ele já ganha o suficiente com as pedras e todas aquelas porcarias.
— Se bem que eu acho que, para essas pessoas, nunca é suficiente.
— Isso é verdade. Por isso mesmo que ele não vai querer deixar o seu negócio das múmias.
Estávamos no meio do caminho, quando Jonas me ligou.
— Encontrei uma fazenda, no nome da mãe do Mohamed.
— É exatamente disso que eu precisava, Jonas.
— Vou te mandar o endereço no zap. Você sabe, quando for abrir, copia o endereço no aplicativo de mapas para…
— Eu sei, eu sei, Jonas!
— Depois não vai brigar comigo se cair nas coordenadas erradas do GPS!
— Quando você estava nas fraldas, eu já usava computadores, Jonas!
— E ainda assim, não sabe usar direito.
Touché.
Depois de o xingar, como era nosso costume diário, coloquei o endereço no aplicativo – a algumas centenas de quilômetros dali – e liguei para Roberto.
— Qual o seu programa para essa noite?
— Nem vem que não tem, vou jantar com a minha sogra — ele respondeu.
— Tenho certeza de que a minha oferta é melhor.
Roberto suspirou e pude senti-lo revirando os olhos do outro lado do telefone.
Touché.
Roberto ainda não tinha provas o suficiente para conseguir convencer o delegado de que deveriam pedir o mandado, mas uma falha no plano do Dr. Mohamed era que, na sexta-feira à noite, o delegado estava de folga, de forma que Roberto conseguiu dar uma contornada na burocracia e ir cobrar uns favores a um juiz para emitir o mandado.
Com isso, ele demorou um pouco mais do que a gente para sair de São Paulo, mas compensou com a sua sirene e chegou logo atrás de nós em um carro descaracterizado, acompanhado por mais duas unidades curiosas. Pegamos uma estrada de terra saindo da rodovia principal e, uma vez encontrando o endereço, paramos mais à frente, para não levantar suspeitas.
— Você vai entrar da forma oficial? — perguntei a Roberto.
— É lógico. Estou com mandado e tudo mais.
— Ainda bem que não preciso mais cumprir essas regras.
Assim, enquanto Roberto caminhava em direção à porteira para tocar no interfone e chamar pelo médico, Isabella e eu nos esgueiramos por um furo na cerca e seguimos fazenda adentro.
Pois é, é praticamente impossível você ter uma fazenda e não ter um furo na cerca. Muito difícil e cara a manutenção – e é mais fácil simplesmente instalar câmeras e alarmes perto da casa e outros locais importantes.
Enquanto Roberto falava no interfone, seguimos adiante; depois de algum tempo, pudemos ver o homem com um casaco sobre o pijama saindo para caminhar em direção à cerca, que ficava a cerca de duzentos metros da casa.
Foi a nossa oportunidade; certamente, ele não manteria a sua falcatrua dentro de casa. Provavelmente, as múmias, se é que ele tinha alguma, estavam estocadas em algum galpão, não distante demais, mas não perto demais.
— Ali! — apontou Isabella, para um galpão um tanto escuro, alguns metros atrás da casa principal.
Fomos caminhando até aquela direção, quando ouvi um latido, acompanhado de olhos brilhantes que vieram correndo em minha direção.
— Cuidado! — falei, pondo-me diante de Isabella, mas, para minha sorte, o bicho parou com um ganido, a poucos passos de mim, latindo furiosamente.
— Lá se foi a entrada furtiva — disse ela.
— Ainda bem que ele está preso — falei. Era um rottweiler enorme, quase do tamanho de um dog alemão, preso por uma corrente longa o suficiente para que patrulhasse os entornos da entrada do galpão.
— O que é que está acontecendo? — ouvi atrás de mim.
Eu me virei; a porta de trás da casa estava aberta, com a sua luz iluminando o que deveria ser uma mulher, portando uma espingarda apontada para nós. Eu não conseguia vê-la muito bem, mas tenho certeza de que ela nos enxergava perfeitamente.
— Calma, minha senhora — eu falei, erguendo minha mão e sinalizando para que Isabella fizesse o mesmo. — Não sou ladrão e não estou armado.
— Difícil de acreditar, a essa hora da madrugada.
Instantes depois, pude ouvir sons de passos e respirações pesadas; Dr. Mohamed chegou, acompanhado de Roberto, que sacou a arma imediatamente.
— Baixe a arma, senhora!
— Querida, o que está acontecendo?
— Eu que pergunto! — ela exclamou.
— Abaixe a arma, senhora!
— Abaixe a arma, querida!
Olhando indecisa para nós, ela acabou por abaixar a espingarda. Respiramos aliviados, mas Roberto não abaixou sua arma.
— Quem são vocês? — o médico perguntou, até que, por fim, pareceu reconhecer Isabella, ainda que estivesse meio encoberta pelas sombras. — Ora, vocês estavam no meu consultório nesta semana!
Ele se virou para Roberto.
— São policiais da sua equipe? Estão invadindo meu domicílio?
— O que é que tem no galpão, Dr. Mohamed?
— Apenas ferramentas.
— Então, não vai se importar de me mostrar.
— Ora, investigador, que interesse pode ter em um velho galpão?
— Quero saber por que tem um cachorro preso especificamente na entrada dele. Me parece que é para ninguém entrar.
— Não quero que pessoas venham roubar minhas ferramentas. Esses lugares podem ser perigosos à noite.
— Bem, então está na hora de me mostrar essas ferramentas tão valiosas.
Dr. Mohamed encarou a mulher.
— Por que vocês não entram para um café? Tenho certeza de que tudo não passa de um mal-entendido.
Roberto se virou para responder à mulher, e isso foi o suficiente; Mohamed saiu correndo. Pude ver meu antigo colega de equipe bufando, revirando os olhos e certamente pensando: “Odeio quando eles fazem isso”, que era o que ele sempre me falava, quando tinha de correr atrás de algum criminoso.
Quando a mulher olhou para nós novamente, usando um robe sobre o pijama, eu disse:
— Não olhe para mim, só vim trocar uma receita.
O que foi a deixa para ela correr também.
Mas não adiantaria nada, porque havia mais policiais cercando a área.
No final, a equipe de Roberto prendeu o médico e a sua esposa; conseguiram também controlar o cachorro e abrir o galpão, que me deixaram ver, como forma de agradecimento pelo auxílio na investigação.
Mohamed havia montado um verdadeiro templo egípcio em seu interior: havia sarcófagos, réplicas de pirâmides e esfinges, diversos papiros e uma quantidade impressionante de estatuetas, tanto egípcias, quanto gregas e romanas. Em um salão específico do galpão, havia um corpo em processo de embalsamento, enquanto outros estavam guardados em réplicas de sarcófagos.
A polícia identificou depois os corpos como de pessoas desaparecidas – como Mohamed depois admitiu, eram apenas moradores de rua perdidos que haviam batido à porta da fazenda e pedido abrigo por uma noite. Ele e sua esposa os matavam durante o sono e depois levavam seus corpos para o processo de embalsamento.
Como Isabella previra, o homem acreditava, de fato, no que estava exercendo; aquilo não lhe parecia crime algum, uma vez que estava seguindo (ou quase) as orientações do livro de Oswald Croll. Não somente isso, ele periodicamente fazia retiros em sua fazenda, a preços exorbitantes, onde seus pacientes poderiam passar de dois dias a uma semana em total imersão da cultura antiga, com todas as suas técnicas medicinais, por mais bizarras que fossem. Mariela, como descobrimos, havia sido uma das escolhidas para participar – e também tinha acreditado demais naquela maluquice toda.
Por fim, Roberto ofereceu um jantar em sua casa, como agradecimento por termos ajudado a solucionar um caso que, na verdade, nem parecia que tinha algo a ver com homicídios.
— Isso é uma prova de que a volta às origens, aos valores antigos, nem sempre é uma boa ideia. Na verdade, acho que raramente é — disse Isabella. — Evoluímos ao longo de séculos, milênios, para chegar aonde chegamos, e as pessoas querem voltar a uma época em que achavam que você é dominado por espíritos malignos? Que vento frio causa resfriado? Que pode se curar coisas com betume?
— Estamos caminhando para um futuro difícil… — comentei.
— Mas, vejamos o lado bom! Graças a vocês, a polícia conseguiu prender um assassino em série. Sem vocês, andarilhos continuariam desaparecendo e morrendo sem que ninguém desse falta, e talvez mais pacientes desse médico maluco morreriam por medicações inadequadas! — disse a esposa de Roberto.
— Tudo graças a você, Isabella, que ouviu falar de um livro bizarro do Século XVII — disse Roberto, erguendo uma taça de vinho.
Todos nós erguemos também.
— Tudo isso graças às redes sociais que você vive reclamando que eu vejo, André — disse Isabella. — Nem sempre é idiotice.
— Tudo bem, às vezes é uma idiotice útil — respondi.
— Às idiotices úteis! — brindou a esposa do Roberto, e todos batemos nossas taças, cheias de vinho, mas sem nenhuma gota de betume.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais