O caso do peão voador
Este caso aconteceu na época em que eu ainda estava na polícia civil. Fomos chamados para avaliar uma morte suspeita em um muro de uma casa nas cercanias de São Paulo.
Roberto e eu fomos de viatura para uma casa na zona Oeste de São Paulo, uma região que tinha mais árvores e casas do que as regiões mais populosas, com prédios a perder de vista. O policial militar que nos recebeu passou rapidamente o carro:
— Recebemos o chamado dos moradores da casa hoje, lá pelas sete da manhã. Ouviram um barulho, o cachorro começou a latir, e vieram aqui dar uma olhada. Imaginam que o homem estava tentando invadir a casa, ficou com medo do cachorro, subiu de volta o muro e ficou preso na cerca.
Parecia um caso realmente simples demais para termos sido convocados; naquele tempo, já tínhamos um pouco de fama de avaliar casos estranhos, mas ainda recebíamos alguns chamados por casos mais comuns. Foi quando chegamos que Roberto abaixou seus óculos de sol, fez um assobio, e o motivo do chamado fez sentido.
Estávamos no quintal da casa, que era todo azulejado; o muro a circundava por completo, também com azulejos para facilitar a limpeza, e diversos vasos de temperos e suculentas espalhados para fazer a decoração. Uma típica casa de subúrbio. O muro tinha em torno de dois metros de altura, e o seu topo tinha aquelas varas de metal curvadas para fora, com pontas flechadas, para manter os possíveis invasores do lado de fora.
Ou, ao menos, esta era a tentativa, pois, preso às varas estava o corpo de um homem, de costas, atravessado pelo abdome. As pernas pendiam para dentro da casa, enquanto os braços pendiam para o lado de fora; sangue escorrera para ambos os lados, manchando o chão azulejado do quintal e o gramado da calçada do lado de fora.
A área havia sido isolada com faixa amarela listrada e o populacho era contido pela polícia militar, mas era impossível evitar que curiosos se aglomerassem, tirassem fotos e comentassem. Nada com o qual não nos acostumaríamos quando eventualmente viesse o caso do Anatomista.
Observei o homem com atenção: era negro, magro, usava roupas puídas, tinha uma barba por fazer e não usava sapatos. Dava toda a impressão de ser um morador de rua, e era bastante compreensível a teoria de que ele tivesse tentado entrar e, por medo do cachorro, tivesse fugido de volta. No entanto, era impossível que uma lesão daquelas ocorresse com um homem que estava somente tentando entrar em uma casa.
— Alguma identificação do sujeito? — perguntou Roberto.
— Não tinha nenhum documento com ele — o policial respondeu.
Como de costume, a papiloscopia ficaria a nosso encargo, mas não significava muita coisa. O sistema de comparação não era bom o suficiente para ser tão fácil quanto nos filmes identificar as pessoas, e isso poderia demorar demais. Da mesma forma que o DNA depende diretamente de um banco de dados de criminosos, a papiloscopia não adiantava tanto quanto se pensava.
Eu tinha, na verdade, uma ideia melhor.
— Isa, bom dia! Está ocupada? O que acha de um trabalho de campo?
Isabella estava de plantão no IML naquele momento, então não foi difícil pedir que seu colega a cobrisse para que viesse ajudar a polícia em um trabalho de campo. Ela chegou quando já estava próximo do meio-dia, a turba estava no seu maior furor, os helicópteros circulavam pelos céus e os repórteres salivavam com uma história, no mínimo, bisonha.
Ela nos cumprimentou a se pôs a observar atentamente o cadáver diante de nós; foi para dentro da casa, voltou, observou-o de baixo, dos lados, pediu uma escada para o ver de cima, e por fim puxou alguns instrumentos e começou a raspar por baixo das unhas do homem. Nós ficamos de braços cruzados, apenas observando; os curiosos encaravam, discutiam entre si, tiravam fotos e filmavam; um dos policiais militares, careca, com óculos de aviador e bigode grosso e dourado, tentou questionar algo, mas nós o silenciamos – havia um gênio trabalhando.
Isabella, por fim, deu-se por satisfeita, parou diante de nós e disse:
— Ele veio de uma fazenda de soja, provavelmente a oeste daqui, não muito longe. Caiu de um helicóptero ou um bimotor. Procurem por voos realizados ao amanhecer que se encaixem nesta descrição e vamos achar de onde fugiu.
Nenhuma surpresa para mim ou Roberto, mas o bigodes dourados abriu e fechou a boca algumas vezes, antes de formular, de forma muito eloquente:
— Como…?
— Estamos diante de um homem provavelmente proveniente do Haiti. Não ficaria surpresa se o banco de dados não encontrar sua identificação a partir de digitais; é possível que seja um imigrante ilegal, que veio com a última onda de fugitivos haitianos. Está na casa dos trinta anos de idade, bastante desnutrido. Suas mãos calosas mostram que trabalha na terra, e os restos sob as unhas mostram que trabalha especificamente com soja. Minha aposta: trabalho análogo à escravidão em uma fazenda de soja.
Depois de alguns instantes de silêncio, o policial formulou:
— Mas, a direção… A distância…?
— A forma como ele está preso nas estacas deixa claro que ele caiu sobre elas; dado para onde elas apontam, ele só poderia ter vindo do oeste. Se caiu de cima, há poucas possibilidades: um avião, um helicóptero, um balão. Balão não é o tipo de coisa que se vê voando por aqui, e, a não ser que você esteja em um romance do Júlio Verne, é uma péssima forma de se fugir de qualquer lugar. O avião é uma possibilidade: ele poderia estar no trem de pouso e, quando o trem de pouso abriu para iniciar o processo de pouso, ele caiu. No entanto, a velocidade do avião e a altitude em que normalmente voa fariam com que o seu corpo fosse destroçado ao cair aqui no muro. Portanto, sobra um objeto voador que plane a baixa velocidade e a baixa altitude. Daí, um bimotor e um helicóptero.
“Por que um homem cairia de um veículo deste tipo em plena manhã? Bem, ou ele estava dentro, ou ele estava fora do veículo. Se estava dentro, ou era o dono do veículo, o que não me parece, considerando as roupas que está usando, ou estava lá convidado pelo dono. Me parece muito trabalho e, caso fosse um assassinato deliberado por algum dono de terra vingativo, seria muito mais limpo e inteligente jogá-lo no mar e deixar que os tubarões cuidassem do resto, ou dar os restos aos animais. Assim, resta a opção de que ele estava fora do veículo, ou seja, um passageiro indesejado.
“Se estava fora do veículo, provavelmente estava tentando fugir; em um helicóptero, poderia se segurar embaixo, naquelas hastes, pés, ou seja lá como chamam; se fosse em um bimotor, poderia se segurar na roda. O piloto pode ter identificado e feito manobras para se livrar dele, mas isso teria sido feito provavelmente mais próximo da fazenda, e não há nenhuma por aqui; assim, sou levada a crer que o homem estava tentando fugir, prendeu-se no veículo e, por aqui, vencido pela exaustão, caiu a uma altura razoável, velocidade relativamente baixa, e foi empalado pelas lanças deste muro.
“Agora, o que um veículo destes estaria fazendo neste momento? O que penso: um fazendeiro rico, vindo para a cidade resolver alguma coisa importante. Neste caso, viria de helicóptero. Um bimotor é mais improvável, embora não impossível. Aviões de pulverização também seriam uma opção, mas ele não teria por que vir para a cidade, ficaria em torno da fazenda.
Ela parou, olhando ao redor; estava falando baixo o suficiente para os repórteres e a turba não a compreenderem.
— Assim, resta-nos, aliás, resta a vocês, procurar uma fazenda de soja grande o suficiente para ter um helicóptero, cujo dono tenha decolado nesta manhã, vindo para a cidade, e talvez esteja voltando neste mesmo instante.
Bigodes dourados permanecia sem palavras. Ele conseguiu reunir, por fim, algumas palavras e disse:
— Mas… O trabalho análogo à escravidão?
— Por que mais ele iria querer fugir? Além disso, veja seu estado deplorável. As roupas velhas, o estado de nutrição… Há muitos agricultores que estão, na verdade, acima do peso, pelas mudanças de hábitos alimentares e pelo relativo sedentarismo atual com o uso de tecnologia mecanizada. E, bem, a ausência de sapatos. Clássico da escravidão, não? E sapatos são caros. Dá para ficar sem, especialmente se tiver de comprar na loja da própria fazenda.
Bigodes dourados torceu a lateral dos bigodes, cruzou e descruzou os braços e, por fim, decidiu que não havia o que responder.
— Muito obrigado, Isa — falei, por fim, despedindo-me.
Ela assentiu.
— Não foi um assassinato, mas acredito que desbancar regime de escravidão seja interessante da mesma forma para a polícia, não?
— Com certeza — disse Roberto, olhando para o policial militar.
Quando ela tinha se afastado o suficiente, bigodes dourados estendeu a mão.
— Cem reais que ela está errada — ele disse.
— Você vai perder a aposta, mas, tudo bem.
A polícia militar normalmente não iria investigar aquele caso, mas eles estavam particularmente curiosos, e o Bigode Dourados queria ganhar a sua aposta. Assim, eles decidiram que iriam abordar pelo caminho tradicional – tentando identificar quem era o homem, buscando por testemunhas, etc, ignorando totalmente a teoria de Isabella de que o homem tinha simplesmente caído do céu.
O próximo passo da minha equipe, depois de ter coletado as evidências e encaminhado o cadáver para o IML, foi buscar os planos de voo de aeronaves na região de São Paulo.
— A fazenda deve ser longe de São Paulo — comentei com Roberto.
— Por que tanta certeza?
— O homem tinha horário para estar aqui de manhã cedo. Imagino que alguma reunião importante. Se ele tivesse uma fazenda próxima daqui, poderia muito bem ter vindo com carro ou algo do tipo. O que justifica o uso de um helicóptero é, assim, uma fazenda distante. Eu diria entre 300 e 400 quilômetros de carro.
Ele pegou um compasso e traçou o círculo compatível em um mapa que tínhamos.
— Estamos falando então de algo para o oeste. Ribeirão Preto está a uma distância correta, mas está muito para o norte. Presidente Prudente está muito longe. Temos Ourinhos, Assis, ou até mesmo…
— Londrina. Está bem para o Oeste.
— Já estamos falando de outro estado. Outra jurisdição.
— Ele não precisa necessariamente ter vindo totalmente do Oeste — opinei. — Ele pode ter feito uma curva ou ajustado a posição para entrar em São Paulo ou se dirigir para, sei lá, a Faria Lima.
— Não adianta ficar elucubrando isso. Planos de voo.
— Deve ter um monte de aeronaves que vêm para São Paulo em uma segunda-feira de manhã. Não vai ser fácil.
— E desde quando nosso trabalho é fácil?
Estávamos fazendo um trabalho que também não era nosso. A princípio, a investigação de trabalho análogo à escravidão é feita pela justiça trabalhista ou pela Polícia Federal; no entanto, nós queríamos, é claro, descobrir o que havia acontecido com o homem e quem era o culpado. Queira ou não, tínhamos um crime a solucionar e não tínhamos informações o suficiente para poder realmente direcionar aos órgãos competentes, ao menos, não enquanto não encontrássemos a fazenda responsável.
Passamos o dia inteiro buscando informações e planos de voo, mas não havia nenhuma aeronave que se encaixasse na descrição e tivesse seguido o plano que estávamos procurando. Assim, no dia seguinte pela manhã cedo, encontrei com Isabella na Faculdade de Medicina da USP, onde ela daria uma aula para a graduação.
— Bom dia, André — ela falou, surpresa. — Alguma emergência?
— Estamos trabalhando na sua teoria do escravizado fugitivo — respondi. — Mas estamos com uma dificuldade grande de achar a origem do voo. Você conseguiu mais alguma informação com a autópsia formal?
Ela suspirou.
— Desnutrição crônica, um pouco de esteatose hepática, indicando que consumia uma quantidade considerável de álcool, pulmões limpos, então não fumava. Sob os dedos, confirmamos as amostras de soja, identificamos Haemonchus, que é um parasita de bovinos, e, também, um pouco de terra roxa.
— Terra roxa?
— Sim, o que o situaria como um peão que trabalha em terras do sudoeste paulista, mas, principalmente, noroeste do Paraná.
— Perto de Londrina, então. Era nossa suspeita, fica bem a Oeste de São Paulo. Mas não conseguimos nenhuma informação compatível.
— Acha possível que tenha voado sem plano de voo?
— Pelo horário, deve ter decolado antes do amanhecer. Só um voo clandestino iria decolar neste horário sem a devida autorização e documentação.
— Bem — Isabella falou, em tom de quem encerra a conversa, já que precisava ir para a sua aula —, você já tem uma localização para procurar, ao menos. Talvez o jeito seja buscar fazenda a fazenda, alguma grande, de soja e bois, com heliponto.
Eu agradeci e voltei para a delegacia, onde me pus a pensar com Roberto. A alternativa que teríamos era de usar um helicóptero para sobrevoar os locais e, assim, fui me encontrar com o Bigodes Dourados.
— Como está indo sua investigação?
Ele se reclinou na cadeira, mordiscando um palito de dentes e pondo as mãos atrás da cabeça.
— Zé ninguém totalmente desconhecido. Sem testemunhas, sem câmeras de vigilância, nada de nada. E vocês? Já acharam a sua fazenda?
— É sobre isso que vim conversar. Acreditamos que nosso peão tenha vindo do noroeste do Paraná. Não conseguimos nenhum plano de voo que indique que alguma aeronave tenha vindo da região para São Paulo, então, estamos trabalhando com a suspeita de um voo clandestino. Vamos sobrevoar a área, procurando por uma fazenda que se enquadre nas nossas características. Quer acompanhar? Cabe mais um no helicóptero.
Meu convite era principalmente porque queria esfregar na cara dele o heliponto com o helicóptero no meio de uma fazenda.
— Está acostumado a voar, Dias? — ele questionou, com um sorriso.
— Não particularmente.
— A distância daqui a Londrina é apertada. Uns 450 quilômetros para uma aeronave. O helicóptero vai ter de reabastecer em algum lugar por lá.
— Ele não consegue ir e voltar?
— Não sem reabastecer. Seria mais fácil decolar de lá, como você acha que o seu fazendeiro rico fez.
Isso significava, também, que o fazendeiro tinha de ter reabastecido em algum hangar naquela manhã, mas isso seria como buscar uma agulha no palheiro; quantas aeronaves não haveriam reabastecido naquela manhã?
Era possível que o PM estivesse tentando sabotar a minha investigação, mas, surpreendentemente, Bigodes Dourados era um competidor bastante justo. Quando fui ao hangar da polícia conversar com o nosso piloto, seu comentário foi bastante compatível com o dele:
— Podemos ir. Vai chegar muito mais rápido que de carro. Podemos sobrevoar a região, mas, antes de voltar, precisamos reabastecer. Acho que vamos ter alguma dificuldade burocrática com isso. Você já falou com o delegado?
Entraves burocráticos! Sempre dificultando a nossa vida. Fui tentar falar com o delegado Almeida e expliquei a situação em que estávamos.
— São recursos demais para pouca coisa — ele falou. — É só um cara que foi tentar invadir uma casa e ficou preso nas estacas!
— Não é possível que tenha sido só isso. A forma como estava o corpo, o tipo de lesão…
— Como vou justificar no orçamento um voo para o Paraná, Dias?
Eu bufei.
— Olhe, eu vou fazer o seguinte. Vou falar com os colegas de Londrina. Consigo chorar para você um sobrevoo saindo de lá. Mas você tem de ir de carro, está bem?
— Está certo! — respondi, mais animado. A perspectiva de enfrentar horas no carro, é claro, não era nem um pouco convidativa, mas…
— Ah, e Dias… Hoje é terça-feira. Isso precisa estar resolvido, no máximo, até segunda-feira. Não posso ficar gastando pessoal com casos de pedintes aleatórios.
— Sim, senhor — falei. Naquela época, Almeida ainda não acreditava no nosso faro para crimes complicados; a única forma de eu provar que estava certo era achar aquela fazenda.
Saímos naquele dia para Londrina, parando para dormir em um hotel barato de beira de estrada. Na manhã seguinte, fomos ao hangar da polícia, onde pegamos um helicóptero e sobrevoamos a área; o lado bom de voar com alguém local era que conhecia bem as fazendas.
— Com essas características, acho que não vamos encontrar ninguém — disse o piloto. — Tem fazendas com heliponto, com soja, com boi, mas com soja e boi… Não me lembro de nenhuma.
Passamos duas horas sobrevoando as cercanias da cidade, avançando mais em direção ao leste, porém, de fato, nenhuma fazenda se enquadrava nessas características.
— Que fazenda é aquela? — questionei.
— É a fazenda dos Oliveira. Mais de dois, três mil hectares.
— Me parece que eles têm boi e soja.
— Sim. É um dos fazendeiros mais ricos daqui. Mas não tem heliponto.
Continuamos a investigação, mas, mesmo seguindo para a direção de São Paulo, ainda não encontramos nada.
— Precisamos voltar — ele falou. — Está acabando nossa autonomia de voo.
O retorno para São Paulo foi razoavelmente decepcionante; tinha certeza de que encontraria a fazenda como descrita pela Isabella. Não tinha como errar! Terras roxas, bois, soja, heliponto! O que mais faltava?
Na quinta-feira, continuei tentando procurar planos de voo e abastecimentos, mas não consegui nada de útil; todos os voos tinham rotas incompatíveis, partindo ou indo para outras cidades ou em outros horários. Poderia arriscar tudo e bater à porta, ou melhor, porteira dos Oliveira, mas, de que adiantaria? Iria lhe perguntar se tinha voado para São Paulo recentemente?
Sexta-feira foi a vez de Bigodes Dourados vir me visitar.
— E aí? Achou a fazenda?
— Tenho uma suspeita — disse. Sem provas concretas, claro, mas não queria dar o braço a torcer e dizer que não tinha praticamente nada. — E vocês?
— Meus superiores já estão pedindo para encerrar a investigação — ele comentou, com as mãos nos bolsos e claramente chateado. — Talvez tenhamos de encerrar nossa aposta por empate de incompetência.
— Nem vem tentar escapar dela agora! Tenho até segunda-feira para achar essa fazenda!
Decidi ir falar novamente com a Isabella; quem sabe ela teria alguma luz?
— Talvez precisemos rever nossas premissas — ela falou. — Do que temos certeza?
Estávamos no salão do IML. Ela foi para o quadro branco, onde costumava escrever suas pistas.
— Certamente é um trabalhador de uma fazenda de soja e bovinos, o que o coloca bem distante da cidade de São Paulo. Certamente passando fome e necessidade. Pelo modo como ocorreu a morte, não temos outra opção além de uma queda do alto. A região não tem prédios, nem nada assim, para dizer que ele pulou de um prédio e caiu ali. Também não temos nada que mostre que veio de paraquedas ou asa delta ou qualquer outra coisa do tipo. Portanto, certamente caiu de um helicóptero ou bimotor. Certamente veio do Oeste. A sua dificuldade está em juntar todas as características no mesmo lugar, certo?
— Sim.
— Então, eu lhe pergunto: o que é obrigatório? — ela falou, como se falasse com um de seus alunos.
Fui enumerando nos dedos.
— Fazenda, terra roxa, soja, boi, helicóptero.
— Sim. Mas precisa estar tudo no mesmo lugar?
Foi quando deu um estalo na minha mente.
— Não! O helicóptero pode ter vindo de outro lugar! A fazenda não precisa ter um heliponto, só precisa ter uma área grande o suficiente para ele pousar! E eles têm, bem perto da fazenda, um pátio enorme onde qualquer helicóptero poderia pousar e decolar!
— Perfeito! Agora, se ele não tem um heliponto, provavelmente quer dizer que não tem um helicóptero. Ou, ao menos, não guarda o helicóptero em casa.
— Poderia ter um em um hangar, mas não faz o menor sentido. Com todo esse espaço, por que não fazer um hangar na própria fazenda?
— Isso significa…
— Que é um helicóptero de outra pessoa! Emprestado ou, melhor ainda, alugado!
Tudo fazia sentido! Ele provavelmente tinha alugado o helicóptero de uma empresa de táxi aéreo, e não precisaria nem ser algo de São Paulo! Certamente o helicóptero gastaria demais para vir, buscá-lo e voltar, sem mencionar a necessidade de reabastecimento. Ele devia ter alugado de alguma empresa de Londrina ou da região – e, certamente, não tinha muitas delas.
— Muito obrigado, Isa! Salvando minha vida, como sempre!
— Bobagem — ela falou. — Você já tinha a resposta. Eu só ajudei a trazer à luz.
— Tipo uma parteira de ideias — falei, empolgado, e imediatamente me arrependi. Que comparação idiota!
Voltei para a delegacia e comecei a buscar informações sobre empresas de táxi aéreo da região; em pouco tempo, tínhamos uma empresa, que ficava em uma cidade próxima de Londrina. Pouco depois, tínhamos um locatário – e, quem diria? Ninguém menos que o próprio José Oliveira. Tudo fechava, inclusive o plano de voo – o helicóptero não tinha saído de Londrina, mas de outra cidade!
Agora, era questão de conversar com a Polícia Federal. Não seria fácil.
O delegado Almeida tinha me dado até segunda-feira para solucionar o caso, mas, tecnicamente, eu o havia solucionado na sexta; passei todas as informações que tinha para a PF, que assumiu o caso junto à justiça do trabalho. Precisei de muita persuasão, mas consegui que alguém na justiça me levasse a sério, o que fez a PF funcionar. A investigação toda acabou levando em torno de um mês; fizeram uma avaliação aérea, tentando identificar a estrutura da fazenda e os seus trabalhadores, mas isso acabava chamando muita atenção, e o dono não era nem um pouco bobo.
Uma operação por terra também não seria fácil; a fazenda era muito isolada, e qualquer aproximação chamaria a atenção, além do fato, é claro, de que eram muitos e muitos hectares – os trabalhadores poderiam estar literalmente em qualquer lugar.
No entanto, a justiça do trabalho acabou achando convincente o suficiente e, por fim, conseguiu um mandado e entrou na fazenda, procurando pelos trabalhadores. Havia, de fato, no subsolo da casa principal, os alojamentos – escuros, abafados, insalubres. Uma loja vendia produtos a preços extorsivos, que consumiam o parco salário dos homens, que se endividavam cada vez mais; eles, em maioria realmente fugitivos do Haiti, mal sabiam falar nosso idioma, e tudo o que sabiam era que precisavam trabalhar, trabalhar e trabalhar para conseguir a própria comida.
Quando questionados por um intérprete, descobrimos que o fugitivo era Pierre, um haitiano de 29 anos que havia prometido fugir e trazer a polícia para garantir a liberdade dos seus companheiros. Ele havia, de fato, conseguido.
Quando tudo acabou e saiu na mídia, com o furo espetacular de que a fazenda havia sido descoberta graças a uma morte aparentemente inocente (aos olhos de quem? Era claro que aquilo não era um caso simples de invasão de domicílio!), fui ao Bigodes Dourados cobrar os meus cem reais, que, na época, compravam muita coisa.
— Na-na-ni-na-não — ele falou.
— Mas a Isa estava certa!
— Não de tudo. A fazenda não tinha heliponto e o fazendeiro não tinha um helicóptero.
— Ah, vá!
Ele reclamou um pouco, mas acabou pagando. E nunca mais se arriscou a apostar que a Isabella Angier poderia estar errada.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais