Súcubo
Aviso ao leitor: este conto de terror pode trazer gatilhos. É um conto mais pesado do que o usual que temos aqui no site, mesmo na seção de terror.
Este conto ficou em 3º lugar da categoria Contos no 17º Concurso Ben Gurion de literatura.
As lendas falam de uma criatura terrível chamada Súcubo. Um ser mitológico que assume a forma de uma mulher e absorve a energia vital do homem por meio de relações sexuais.
Eu vi uma Súcubo. Mas não era dessa forma que ela agia.
Tudo começou com Jonas, um homem de 35 anos de idade que estava em sua casa, cozinhando, quando viu a Súcubo a primeira vez. Ele estava em pé, na ilha da sua cozinha, com um cutelo na mão direita, segurando com a mão esquerda uma cenoura que fatiava cuidadosamente. Tec. Tec. Tec.
Subitamente, a Súcubo apareceu: uma mulher linda, de forma voluptuosas, totalmente nua. Jonas ficou inicialmente paralisado, encantado com a sua imagem diante de si; depois, voltou a cortar a cenoura. Tec. Tec. Tec. A mulher começou a se aproximar, andando lentamente em sua direção, cada uma de suas formas claramente visível sob a luz da cozinha. Tec. Tec. Tec.
A cenoura acabou; Tec. Tec. Tec.
Jonas teve uma sensação estranha; tentou mover o olhar para baixo, mas a Súcubo balançou a cabeça, prendendo-o com seu olhar, sem deixar que ele movesse a cabeça sequer um milímetro.
Tec. Tec. Tec.
O cutelo continuou a avançar; Jonas cortou a ponta de seus dedos, mas pareceu não se importar; seu coração batia forte, suas partes íntimas em ressonância, e seu olhar não se desprendia da mulher nua que se aproximava.
Tec. Tec. Tec.
O cutelo avançava, inexorável. Ele progrediu pelos dedos, subindo pela mão e pelo punho, em golpes cada vez mais fortes para conseguir cortar as estruturas com a lâmina. Tec. Tec. Tec. Ele não desviava o olhar; não emitia um gemido. Sangue escorria de seu antebraço por toda a ilha da cozinha, respingando no chão.
A Súcubo se aproximava; Jonas respirava ofegante, o coração acelerado. O cutelo prosseguia: tec. Tec. Tec. A Súcubo se apoiou na ilha diante dele, inclinando-se para frente, os seios desnudos balançando, tentadores. O olhar de Jonas não desgrudava dela. Com uma força inexplicável, Jonas foi forçado a se inclinar, apoiando o cotovelo na tábua, enquanto o cutelo prosseguia: tec. Tec. Tec.
Ossos se partiam; sangue escorria. As fatias de seu braço permaneciam jogadas ao lado das fatias de cenoura na tábua. A Súcubo sorria, lambendo os beiços. Tec. Tec. Tec.
Ela se inclinou mais, apoiando os seios e a cabeça na mesa; Jonas fez o mesmo, apoiando todo o braço, até a axila, sobre o tábua ensanguentada. Tec. Tec. Tec.
A Súcubo arreganhou os dentes.
Sua esposa chegou pouco depois, encontrando-o caído no chão, em uma poça de sangue, o braço ensanguentado, os restos dele fatiados sobre a ilha da cozinha.
Jonas foi levado ao pronto-socorro; uma cirurgia de emergência, várias transfusões de sangue, e o homem foi salvo. Sua mente e sua alma, porém, nunca se salvariam; ele não conseguia explicar o que havia acontecido. Por que fizera aquilo com o próprio braço? Não sabia dizer. Tentou explicar da mulher que vira, mas foi em vão; todos pensavam que estava louco.
Retornou para casa e foi orientado que ficasse de repouso.
Dois dias depois, a Súcubo reapareceu; Jonas estava sozinho no quarto, dormitando no meio da tarde, quando algo o acordou. Ele abriu os olhos para encontrar novamente a mulher, totalmente nua, sobre si, a boca sobre a sua, ameaçando roubar um beijo. Jonas ficou aterrorizado; mais uma vez paralisado, sentiu a mulher sair de cima de si. Ela foi em direção à porta, e ele observou suas nádegas desnudas balançando a cada passada, direita, esquerda, direta, esquerda.
Jonas se levantou, hipnotizado, e foi atrás dela, o que sobrara do braço esquerdo ainda em um curativo. Ela o levou pela cozinha até a porta da garagem; ele acendeu a luz para enxergar. Ela estava parada, com as pernas entreabertas, sobre o machado que usava para cortar lenha. Jonas não hesitou; pegou o machado e se sentou no chão. A Súcubo permaneceu diante dele, exatamente na mesma posição, e ele ergueu o machado. Tchac. Tchac. Tchac. Seu pé esquerdo voou para o lado, o sangue escorrendo sob si, a Súcubo, com todas as suas formas, sorrindo e lambendo os beiços. Tchac. Tchac. Tchac. Os ossos da perna se partiram, e pedaços foram lançados para cá e para lá. Jonas não conseguia desgrudar os olhos da criatura diante de si, embasbacado com seus olhos azuis, seus cabelos pretos e lisos, seu corpo escultural, os seios perfeitos…
Tchac. Tchac. Tchac. O joelho se soltou. Ele avançou até a coxa. Depois, o machado prosseguiu, inexorável, para o outro lado. Ele se sentia fraco, mas não podia parar; algo o impelia em frente, aquele olhar daquele ser diante si, cada vez mais próximo, mais próximo…
Sem equilíbrio, ele caiu para trás; arrastou-se para a parede, cada vez mais pálido, o sangue escorrendo como um rio do que restara de sua coxa esquerda e o tornozelo já amputado da direita. Tchac. Tchac. Tchac. Ele continuou, cada vez mais rápido, antes que fosse tarde demais. Tchac. Tchac. Tchac.
A Súcubo sorriu; com ele encostado na parede, ela se sentou em cima dele, segurou-o pelo pescoço a começou a aproximar seu rosto mais uma vez.
Jonas resistiu por muito pouco. A cirurgia foi complicada, ele foi para a UTI e, depois, para um quarto de enfermaria. Nem sua esposa, nem seus familiares, nem ninguém conseguia compreender o que estava acontecendo com ele. Ele falava da mulher, mas ninguém acreditava. Ele tinha medo dela, mas, ao mesmo tempo, ansiava que voltasse, ansiava que concluísse seu trabalho.
Duas noites depois, quando ele estava sozinho no quarto do hospital, ela apareceu; a luz da lua cruzando pela janela a iluminava, deixando seu cabelo mais brilhante, acentuando suas formas. Estava mais bela e mais irresistível.
Restava-lhe o braço direito; sem hesitar, Jonas levou a mão à boca. Nhac. Nhac. Nhac. Arrancou um dedo, que jogou sobre a cama. Nhac. Nhac. Nhac. Foi-se outro. Assim prosseguiu, e a cada mordida a Súcubo se aproximava mais e mais. Nhac. Nhac. Nhac. Não tinha forças para arrancar o braço como fizera com o cutelo, mas poderia continuar mordendo e mordendo, a criatura se aproximando, subindo na cama, deitando-se sobre ele, até que…
Quando o técnico veio fazer a medicação no meio da madrugada, encontrou Jonas em um estado deplorável. Havia pedaços de seu braço por todo o quarto, sangue espalhado por toda a cama, o seu membro superior nada além de um amontoado de ossos, ainda presos ao seu tórax.
Foi a sua terceira cirurgia. Já sem os dois braços e as duas pernas, Jonas estava preso a um leito, todo enfaixado, como um sobrevivente de guerra. Como ele parecia propenso a ter um novo surto a qualquer momento, eu fui chamado para me sentar diante dele e ficar de guarda. Esta era minha única tarefa: garantir que o homem não se machucasse novamente.
Eu não conseguia compreender o que estava acontecendo e perguntei para Jonas por que ele tinha feito tudo aquilo; sem hesitar, ele me contou tudo o que lhe passara, sem conseguir explicar o que o fizera se machucar daquela forma. Não era como se a mulher ordenasse algo: ela não falava absolutamente nada!
Eu não acreditei. O homem deveria estar louco! Não era possível! Seres sobrenaturais não existem, ainda mais algum com um poder como aquele!
Naquela noite, eu fui despertado por um barulho; abri os olhos, mas não podia me mexer.
Na cama, sobre Jonas, pude ver as formas de uma mulher, totalmente nua, de cabelos negros, mexendo-se sobre ele. Jonas gemia e ofegava, conforme a mulher arrancava pedaços de seu corpo. Subitamente, ela parou, ajoelhada, com as nádegas voltadas para mim, e se virou; eu pude ver seus seios balançando, manchados de sangue, e seus olhos azuis penetrantes, que congelaram a respiração em meu peito.
Ela engoliu o que tinha na boca; lambeu os beiços; e sorriu para mim.
– Você é o próximo – ela sussurrou.
E depois voltou ao trabalho. Eu assisti a tudo, aterrorizado. Não tive escolha; não podia gritar, não podia me mexer, não podia sequer fechar meus olhos.
Entraram no quarto pela manhã, para encontrar o cadáver de Jonas, repleto de mordidas. Eu estava preso na cadeira, como que por encantamento, e a muito custo conseguiram me tirar de meu estupor.
Escrevo estas linhas, porque é tudo o que me resta. Estou sozinho em meu quarto e aguardo as horas até que a Súcubo chegue. Estou aterrorizado; espero que ninguém venha ao meu resgate, que ninguém a veja.
Mas, ao mesmo tempo, estou ansioso.
Venha, Súcubo. Mal posso esperar.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais