O caso do arqueiro
Um dos casos com o maior requinte de crueldade cinematográfica do qual já tive a oportunidade de participar é o que eu chamei de “O caso do arqueiro”. Ocorreu em uma época na qual já estava casado com Isabella havia algum tempo e minha agência de investigação particular estava começando a deslanchar.
Era inverno e estávamos aproveitando uma merecida folga em Campos do Jordão, fazendo um daqueles passeios totalmente turísticos e parcialmente ridículos nos quais subimos os morros de trem (na verdade, um trator puxando um vagão que finge ser um bonde ou algo do tipo) para ver a cidade, as casas dos famosos, hotéis em forma de castelo parcialmente construídos e totalmente embargados, entre outros.
Estávamos passando pela casa do Edir Macedo, embalados em nossos agasalhos de frio e com gorros, em um clima com toda a cara de um país europeu, quando ouvimos um grito. Olhamos para a nossa esquerda e, pouco acima da mansão do pastor, uma moça de avental saía correndo pelo portão de serviço de outra mansão, quase tão exuberante quanto a dele.
— Socorro! Socorro! Assassinato! — ela gritava.
Isabella e eu trocamos olhares, revirando os olhos; constantemente comentávamos que, da mesma forma que médicos, policiais nunca tinham folga. Sempre tinha alguém para pedir um atestado ou querer uma consulta extraoficial de um médico, da mesma forma que sempre tinha um crime acontecendo em algum lugar, do qual eu nunca conseguia me desvencilhar.
O povo no trenzinho ficou, é claro, em polvorosa, e, antes que a situação tomasse rumos desagradáveis e irrefreáveis, eu vesti minha expressão costumeira de investigador e desci do trem, para me aproximar da moça, que falava desesperadamente com o condutor, que provavelmente era seu conhecido.
Eu me apresentei, pedi que ela se acalmasse e me dissesse seu nome – Maria Madalena. Isabella já estava ao meu lado neste momento.
— O que aconteceu exatamente?
— Fui entrar na sala principal agora pela manhã e encontrei… Encontrei… Ah, meu Deus, seu André, é horrível!
— Entendo que seja difícil, mas a senhora precisa me contar…
— A dona Fátima, seu André, a dona Fátima!
— Ela é sua patroa, imagino?
— Sim, sim, esposa do seu Antunes.
— Aconteceu algo com ela? — às vezes, a única forma de fazer as testemunhas saírem do estupor é seguir repetindo em passos de bebê, conduzindo a entrevista para que elas finalmente nos informem algo significativo.
— É horrível, seu André! É horrível! Ela… Ela… Está morta! — ela despejou, por fim. — Com uma flecha no coração! — arrematou.
O trenzinho ressoou com um “Óóóó!” bem longo, que foi se prorrogando conforme a mensagem era passada para as fileiras de trás.
Transmitindo segurança diante do meu histórico com a polícia, pedi ao condutor que levasse o trenzinho adiante. Ele não parecia muito disposto – a curiosidade era certamente maior –, mas acabou cedendo. O público se foi, não sem tirar inúmeras fotos, e eu tinha certeza de que eu já circulava na rede social de diversos desconhecidos. Isabella me ajudou a acalmar Maria Madalena, e seguimos para dentro da casa; pedi ao segurança que entrasse em contato com a polícia local e solicitei aos outros funcionários que mantivessem tudo absolutamente como estava.
A mansão era circundada por um muro alto, coberto de hera. Um portão de folha dupla de madeira todo elaborado e decorado com gárgulas permitia a entrada dos carros, mas nós seguimos pelo portão lateral, bem menor, mas igualmente decorado, por onde geralmente seguem os funcionários. A mansão possuía um lindo jardim, a estilo inglês, circundado por araucárias ao fundo. Seguimos pelo trajeto de paralelepípedos até uma fonte e, por fim, à entrada da mansão, que possuía três andares, fachada de tijolos, incontáveis janelas de madeira e as gárgulas decorativas pelo telhado inclinado, como se preparado para receber uma neve inexistente na região.
Ao menos, mantinha um estilo arquitetônico, ao contrário das caixas cinzentas que se erguiam como lápides por toda São Paulo.
— Como foi que a senhora encontrou a dona Fátima? Foi só agora?
— S-sim — ela respondeu. — Eu normalmente entro por ali…
Ela apontou por uma pequena via de paralelepípedos que circundava a mansão e levava para uma provável entrada de funcionários por trás.
— É a entrada da cozinha e da lavanderia. E-eu começo meu dia por lá, com as tarefas da cozinha e, quando os patrões estão aqui, às dez, eu sirvo o café da manhã e vou chamar a dona Fátima e o seu Antunes.
— Certo. Você percebeu algo de estranho quando chegou hoje?
— Não, seu André, nada de diferente.
Eu observei o piso sob nossos pés; não havia nada marcante. Depois, precisaria olhar com mais detalhes os jardins e os arredores, em busca de marcas de pegadas, grama amassada e coisa do tipo, mas anos de experiência já haviam me provado que isso raramente trazia alguma informação em pleno século XXI. Somente Sherlock Holmes poderia definir o criminoso a partir de uma folha amassada, um pedaço de uma marca de sapato e uma mancha de lama de determinada cor na barra da calça de um sujeito.
Seguimos pela entrada da frente.
— Você veio por esta porta?
— Não, eu vim por dentro.
— Ela já estava aberta?
— Eu normalmente destranco depois de chamar os patrões — ela falou. — Só que, quando vi, eu fiquei desesperada e…
— Você foi para o jardim pela porta da frente? — Isabella perguntou.
— S-sim.
— E a porta estava trancada?
Ela pensou por alguns instantes; passou as mãos pelo avental, pelo uniforme e, sem conseguir encontrar o que queria, abriu finalmente a porta da mansão; na fechadura, do lado de dentro, um molho de chaves.
— Sim. Aqui estão minhas chaves.
Eu não respondi, pois estava entretido observando o grande salão e a mulher assassinada no mezanino.
O salão principal da mansão tinha aquele aspecto de mansão de filmes: um lindo piso de mármore, um pé direito suficiente para um gigante, paredes repletas de quadros, um lustre de cristal maior do que eu mesmo e um par de escadas de madeira subindo em arco em direção a um mezanino, ou um balcão, no segundo andar. Havia portas para todas as direções; grandes janelas na parede de entrada mostravam os jardins e, entre uma delas, à minha esquerda, havia uma armadura medieval (sim, uma armadura medieval). À minha direita, havia diversas armas penduradas, entre espingardas, lanças, maças, bestas e arcos. Havia portas, uma debaixo de cada escada, levando para cômodos adjacentes, e uma grande passagem em arco na parede à minha frente, que levava para o que parecia ser uma enorme biblioteca com uma parede toda de vidro emoldurando um segundo jardim, ainda mais bonito que o primeiro. À distância, naquela biblioteca, eu podia ver o que me pareciam diversos animais empalhados, alguns apenas cabeças penduradas, outros, animais completos.
Ah, sim, estou evitando falar do principal: no balcão acima de nós, jazia no chão uma mulher loira, de aparentemente sessenta anos, com um penhoar branco de seda manchado de vermelho; uma flecha estava presa em seu peito, com as penas para cima, quase como se fosse um animal abatido, como aqueles que estavam empalhados no outro cômodo.
— A criatividade humana nunca deixa de me surpreender — Isabella comentou.
— Alguém tocou no corpo? — questionei.
— Não, ninguém.
— Alguém alertou o seu Antunes?
— Seu Antunes! — exclamou ela. — Meu Deus, não!
— Tem mais algum funcionário na…
— Madalena! Madalena! Chame a polícia! — gritou alguém, vindo do andar de cima. Quando chegou ao balcão e viu a mulher caída no chão, gritou novamente: — Ai, meu Deus! A polícia! Madalena!
O homem, porém, estava tão transtornado que acabou tropeçando no corpo de Fátima e rolou alguns degraus escada abaixo, antes de se segurar no corrimão. Eu corri para o ajudar.
— Leopoldo! — exclamou Madalena, subindo logo atrás de mim.
— Está machucado? — perguntei, mas o homem não parecia se importar. Ele era careca, tinha um bigode fino e branco e usava as roupas clássicas de um mordomo inglês. Que raios de fetiche era esse?
— Madalena, o seu Antunes, a dona Fátima… A polícia, a polícia!
Eu o segurei pelos ombros.
— Leopoldo, pare um pouco! — disse, com firmeza. — Eu sou da polícia. Me diga: o que aconteceu com o seu Antunes?
— Ele… Ele…
O homem que provavelmente era o mordomo, porém, não conseguia falar.
— Onde é o quarto do seu Antunes? — perguntou Isabella, prática.
— À direita no corredor… Terceira porta à esquerda.
Deixei os dois parados na escada e fui com Isabella para o quarto indicado.
Aquele terraço levava para um grande corredor acarpetado, repleto de quadros e decorações antigas. Eu me sentia em um verdadeiro castelo europeu; para a minha direita, como pude ver, o corredor seguia por diversas portas, antes de culminar no que me parecia uma pequena passagem interna, que devia levar para uma escada em caracol de acesso de funcionários. Eles provavelmente evitavam circular pelas áreas comuns e “sociais” da casa, como era costume nas construções da época de escravidão no Brasil e em outros países.
A terceira porta estava entreaberta; empurrei-a com o pé, para evitar a contaminação com minhas digitais, para encontrar o seu Antunes. Ele, porém, não parecia muito disposto a nos receber.
— Esse já foi menos criativo — comentou Isabella.
O corpo de Antunes, ainda com um pijama longo de seda com listras verticais azuis e brancas estava pendurado, preso pelo pescoço ao lustre, logo acima da cama, sobre a qual um pequeno banco de madeira estava virado. O rosto do homem estava inchado e arroxeado logo acima do cinto que fazia a volta em seu pescoço; não havia muitas dúvidas do que havia acontecido.
Apesar de acharem que todos nós nos conhecemos, não é bem assim; nem todo policial se conhece. Porém, curiosamente eu conhecia o delegado que ficou responsável pelo caso; havíamos passado por um treinamento juntos, muitos anos atrás, quando estávamos começando na polícia.
— Olha só quem temos aqui! André Dias! — ele falou, com um sorriso. — Não envelheceu nada!
— Você que continua o mesmo — falei, sorrindo de volta e apertando a sua mão.
Não era bem assim, mas não era eu quem iria falar isso. Castanho tinha ganhado uns bons vinte quilos desde a última vez em que o vira, estava com a barriga bem saliente; os cabelos castanhos agora só existiam no nome, mas o basto bigode que ele sempre cultivara continuava lá, só que salpicado de branco, dando uma impressão de sal e pimenta. Ele era um pouco mais baixo do que eu, o que, em combinação, dava a impressão de um delegado bonachão que provavelmente não enfrentava nada muito complicado no seu dia a dia de cidade turística do interior. Alguns furtos, talvez, batidas de carro; mas, assassinatos? Nunca.
— Não precisa mentir, eu sei o que o tempo fez comigo — ele falou, batendo na barriga. — Mas foi gentil da sua parte. Andei acompanhando sua trajetória na TV, meu amigo!
Eu sempre ficava meio sem jeito quando falavam esse tipo de coisa, então, simplesmente sorri e agradeci.
— Como foi que se meteu nessa?
— Estava fazendo o passeio de trenzinho, quando a Madalena veio avisar sobre o que tinha acontecido.
Castanho olhou para os outros três oficiais que haviam vindo com ele e, sem precisar falar nada, despachou-os para que começassem a coletar depoimentos e informações relevantes.
— E aí? O que achou? Já decifrou o crime?
— Parece relativamente autoexplicativo — comentei. — Mas, como sabe, sempre precisamos compreender o motivo.
Ele suspirou, deu de ombros e olhou para o meu lado, onde Isabella nos observava.
— Essa é a famosa Isabella Angier? — ele questionou, abrindo um sorriso ainda maior.
— Ah, sim, desculpe, essa é minha esposa, a…
— Dra. Angier! — ele falou, estendendo ambas as mãos e apertando a de Isabella efusivamente. — É uma honra! Nunca estive com duas celebridades tão importantes aqui, e olhe que estamos falando de Campos!
— Fico lisonjeada — respondeu Isabella, o que era a sua resposta padrão para aqueles elogios desnecessários e que só não a irritavam mais, porque ela escolhera ignorá-los.
— Já conseguiu fazer seu diagnóstico, doutora? Só de bater o olho?
— Não quero enviesar nem atrapalhar seu trabalho, doutor.
— Chame-me de Marcelo, por favor! E não atrapalha de forma alguma!
Ela puxou a mão do aperto, que já estava meio desconfortável, sorrindo.
— Marcelo, então. Não quero atrapalhar.
Ele olhou ao redor, em um silêncio parcialmente constrangedor.
— Olhe, somos civis aqui, eu… — comecei.
— Civis! Ora pois! São a melhor dupla de detetives que eu já vi! Mas, tudo bem, eu sei, eu sei, vocês estão de férias, e quem é que gosta de ser atrapalhado nas férias? Podem deixar, eu cuido de tudo aqui! Depois, se tiverem um tempinho para um velho, vamos comer alguma coisa à noite. No Crocodilo, o que acham? Eu pago!
— Ora, Castanho, não seria…
— Tudo bem, não fique desconfortável, pode pagar a sua parte, não tem problema, o importante é vir.
Não era exatamente isso que eu ia falar, mas tudo bem. Provavelmente o salário do delegado (que deveria ser maior do que o meu, quando eu ainda fazia parte da corporação) não era suficiente para ficar pagando jantares caros a amigos parcialmente conhecidos (ou conhecidos parcialmente amigos).
Lançamos um último olhar ao redor e nos despedimos; mas devo admitir que foi necessário muito autocontrole para não ficar lá e mergulhar naquela investigação.
Só que, é claro, como vocês sabem, as investigações têm uma tendência de me perseguir.
Naquela noite nos encontramos no Crocodilo, um restaurante em forma de crocodilo que fica próximo ao centro da cidade, famoso por servir carne de jacaré, além do clássico curso de fondue. Castanho trouxera seu marido, Alessandro, que cultivava um bigode tão basto e salpicado de branco quanto o dele, mas ainda tinha os cabelos pretos, claramente pintados. Estava um pouco mais em forma (o que não era realmente difícil) e era mais alto do que ele.
Conversamos sobre amenidades; explicamos como havíamos nos conhecido, Castanho contou sobre seu retorno para sua cidade natal, onde se casou com sua paixão da adolescência. Isabella e eu explicamos nossa história no mínimo, ahm, complicada.
— Ah, mas isso é uma história digna de um livro! — disse Alessandro.
— Me surpreende que ninguém tenha feito uma série pro Netflix com esses casos que vocês investigam! — exclamou Castanho. — Eu assistiria. Fácil, fácil.
— Ah, eu não gosto muito de assistir séries policiais, prefiro descansar a cabeça com coisas idiotas — comentei.
Tentamos manter a conversa furada pelo maior tempo possível, mas, inevitavelmente, Castanho acabou puxando o assunto para o assassinato, que estava, é claro, na boca do povo.
— O que você achou do caso, Dra. Isabella? — ele perguntou, enquanto molhava um pedaço de pão no queijo derretido.
— Como? — ela respondeu, claramente dando a oportunidade para que ele mudasse para um assunto menos desagradável, mas ele não pegou (ou não quis pegar) a deixa.
— Do arqueiro. Seu Antunes, que vimos hoje de manhã. Quero ver se estou certo. Conte-me o que viu.
Isabella fechou os olhos, revivendo a cena.
— Diante do que temos, sou levada a crer que, após retornar de uma festa na noite de ontem, provavelmente em torno das duas da madrugada, seu Antunes desceu para o andar térreo para tomar um remédio para refluxo, chamou sua esposa, que o viu pelo balcão do mezanino, acertou-a como uma flecha no peito, devolveu a arma ao seu local, subiu para o seu quarto e se enforcou com um cinto preso ao lustre. Há um ou outro detalhe que me questiono, mas a cena toda parece levar a esta hipótese como mais provável, ao menos com as informações de que disponho.
Os dois a encararam de olhos arregalados; eu apenas comi a minha carne mergulhada no queijo.
— Como…? — Castanho começou. — A festa? O remédio?
— Algumas coisas são muito claras. Fátima estava com as unhas perfeitas, indicando que as fez recentemente. Tinha um discreto machucado no calcanhar direito, indicando um sapato novo. O cabelo ainda tinha um pouco de fixador, assim como ainda havia uma discreta mancha de rímel, evidências de que ela chegou tarde, cansada demais para realmente tirar toda a maquiagem ou tomar um banho para limpar todo o cabelo. Todas as evidências apontam para alguma festa importante, ao menos importante o suficiente para que ela usasse roupas novas. Ambos estavam de pijama, ou seja, já haviam ido se deitar, e por algum motivo Antunes se levantou. Minha suspeita seria de algum sinal do sistema de alarme, mas eu não tinha como acessar os dados e, além disso, ele poderia muito bem ver isso pelo próprio celular, ou seja, não precisaria descer até o térreo para averiguar. Por outro lado, havia um copo em um balcão perto das armas, e um pedaço de papel da embalagem de sal de frutas caído ao lado. Então, acredito, desceu, tomou seu sal de frutas, chamou Fátima de alguma forma, pegou o arco e disparou a flecha, o que faz pensar em um crime ao menos parcialmente premeditado. Todas as armas expostas tinham uma discreta camada de poeira, exceto pelo arco que foi utilizado. As penas da flecha, inclusive, ainda estavam um pouco sujas.
Ela parou uns instantes para tomar um gole de vinho, e os nossos amigos apenas a encaravam, os olhos brilhando de ansiedade, e eu aproveitando para pegar mais fondue.
— Na sequência, somos levados a crer que Antunes voltou para seu quarto, subiu em um banco, amarrou o cinto no lustre e deu fim à sua própria vida.
Depois de um pequeno silêncio, Castanho disse:
— O que faz ter certeza de que não foi um terceiro?
— Certeza, não tenho. Porém, temos de pesar o que temos disponível de evidências, e alguns fatores que apontariam para um terceiro parecem não estar presentes. Não havia sinal de arrombamento em nenhum lugar; ou seja, se fosse um terceiro, seria conhecido e teria acesso à casa. O mais difícil de reproduzir seria o suicídio de Antunes; a força foi, de fato, aplicada pelo cinto preso ao lustre, e o desenvolvimento do hematoma pós-morte indica que ele ficou naquela posição vertical por algumas horas, o que significa que o corpo não foi mudado de posição, do chão para o lustre após um tempo. Também não havia marcas de luta, nem nenhum outro sinal de agressão. É claro, o terceiro poderia ter dopado seu Antunes antes de fazer tudo isso, mas aí já é trabalho da polícia e do IML de descobrir. Essa hipótese depende do que virá do toxicológico.
O casal se olhou.
— Uau — disse Alessandro. — Me senti numa história do Sherlock Holmes.
Castanho passou a mão pelo queixo, pensativo, e depois se inclinou na mesa, encarando-a como se estivesse em um interrogatório.
— E quanto aos funcionários da casa?
— Madalena parecia estar verdadeiramente em choque. Claro, já enfrentamos diversos assassinos altamente dissimulados, mas a probabilidade de que tenha sido ela sozinha é baixa. Além disso, dentre outras questões físicas, acredito que ela seja baixa demais.
— Baixa?
— A flecha foi disparada por alguém mais ou menos da altura do André, considerando o ângulo de entrada no corpo da vítima e o fato de que deixou uma pequena marca no corrimão. Se fosse da altura de Madalena, o disparo teria de ser feito de uma distância maior e, para evitar o corrimão, o ângulo de entrada também seria diferente. Por fim, acredito que a pessoa que disparou tenha um controle perfeito do uso desta arma, uma vez que o impacto foi o suficiente para acertar o coração sem jogar Fátima para trás. Perfeitamente calculado.
Os dois permaneciam boquiabertos. Eu seguia comendo minha fondue.
— Outras questões físicas impedem Madalena. Ela tem provavelmente uma artrose do quadril esquerdo, anda mancando e tem uma discreta dificuldade para subir escadas, que esconde com maestria usando-se do corrimão. E, é claro, ela não teria força suficiente para levar o corpo e erguer seu Antunes no lustre. Aí, temos o segundo suspeito: Leopoldo. Leopoldo tem a altura adequada e talvez o conhecimento da arma para o disparo, porém, ele tem uma hérnia discal cervical que o impediria de fazer o disparo, assim como de elevar o corpo do morto sozinho.
Ela pegou um pouco de fondue, enquanto os dois se entreolhavam.
— Como sabe da hérnia discal do Leopoldo?
— Ele evita mover o ombro esquerdo acima de um determinado ponto. Nas vezes em que exaltou e precisou movê-lo, fez um movimento em contorção do pescoço, tentando melhorar a dor, como se fosse para descomprimir a vértebra, além, é claro, de uma careta de dor. A pequena atrofia muscular de seu ombro esquerdo mostra que ele evita usar aquele braço para boa parte das atividades, compensando com o braço direito. Talvez conseguisse ergueu o homem no lustre, mas não conseguiria disparar, o que desfaria a nossa ideia de um trabalho em dupla, pela falta de alguém apto a executar o assassinato.
Ficamos todos em silêncio por alguns instantes. Por fim, Alessandro quebrou, dizendo:
— E uma terceira pessoa?
— Algum familiar conhecido, que tivesse a chave da casa ou algo do tipo. Isso é possível, mas, novamente, cabe à polícia investigar. Minhas inferências são realmente limitadas.
— Limitadas? Limitadas? — falou Castanho, rindo. — Em poucos instantes, você descobriu mais do que uma equipe de quatro pessoas conseguiu com um dia inteiro de investigações. Os funcionários estão, como você tão bem demonstrou, livres. Fátima faleceu pelo golpe da flecha, e Antunes de fato faleceu por enforcamento, sem qualquer outra evidência de violência. Não sabemos sobre possível intoxicação. Seu estômago estava ainda com restos de comida e, de fato, o pH mostrou que tinha usado um sal de frutas, pouco antes de morrer. Ele usava remédio para dormir, mas é líquido, então só vamos saber se usou algo depois da resposta do toxicológico. Quanto a possíveis terceiros, por fim… O único outro com acesso à casa é o filho deles, César. Ele não estava no evento para os pais – que, aliás, bem apontado, Isabella, foi um evento de música clássica para a caridade –, mas esteve em um bar com os amigos, depois foi dormir na casa de um deles. O álibi é consistente até a uma hora da manhã, no bar. Depois, depende do relato do amigo, mas tem um álibi.
— A principal pergunta é: motivos?
— Os funcionários definitivamente não teriam qualquer ganho. Antunes e Fátima vinham para cá somente no inverno, quando o shopping do Doria abre e a cidade funciona a todo vapor. Ou seja, eles tinham 9 meses de férias todo ano, praticamente. O filho… Bem, sustentado por pais milionários, sem absolutamente nenhuma obrigação na vida. Que bem teria em ficar sem eles? Por mais que recebesse herança, há um certo trabalho em ser herdeiro.
— Mas Antunes e Fátima? Alguma desavença? Algum motivo que o levaria a assassinar a própria esposa e terminar a vida de uma forma tão drástica?
— À vista de todos, um casal perfeito. Mas não temos como saber o que acontecer entre portas fechadas, não é?
Isso pareceu encerrar a discussão do caso; terminamos nossa fondue salgado, fomos para o doce e depois continuamos com as amenidades. Pouco antes de sairmos, Castanho me fez um convite.
— Não sei se vai ficar tempo o suficiente na cidade, mas o IML deve liberar os corpos amanhã, e o funeral será depois de amanhã. Sei que não é o melhor dos convites, mas será um evento na cidade.
Eu não tenho nenhum gosto peculiar por funerais, mas, por algum motivo, senti que seria importante para Castanho se eu estivesse lá. Parecia que aquele crime havia abalado as estruturas da sociedade Jordanense.
As peculiaridades de cada cerimônia fúnebre sempre me pareceram interessantes, mas as dos ricos eram sempre as mais curiosas. Sempre havia aqueles que pareciam estar mais desfilando para um evento de moda ou social, do que efetivamente para prestar suas últimas homenagens aos mortos. A situação era terrível, mas era possível ver pessoas em roupas elegantes, cheias de joias e penteados elaborados, discutindo, trocando cartões, rindo de piadas e tudo mais.
Não, tudo bem, cada um encara a morte à sua maneira, mas eu ainda acho estranho pessoas rindo em funerais ou encarando isso como uma oportunidade de investimento (aliás, como Isabella bem pontuou, teve um casal que deu uns amassos em algum lugar da mansão, considerando pequenos detalhes de suas vestimentas e cabelos). Enfim, cada um com sua tara.
O caixão havia sido disposto no centro da grande biblioteca; a entrada tinha alimentos para quem viesse prestar suas homenagens. Havia uma equipe de valetes manobrando os carrões dos visitantes e, para todos os fins, aquilo se parecia muito com uma festa.
Tive a oportunidade de encontrar César, o filho único e herdeiro da fortuna de seus pais; ele estava sentado em uma poltrona, onde recebia as condolências da alta sociedade jordanense, com uma bela jovem em um vestido preto curto e apertado demais para a ocasião, com um chapéu digno da realeza britânica e, sim, um véu preto à frente. As luvas em suas mãos (sim, luvas) impediam que eu descobrisse se era namorada, noiva ou esposa; porém, como bem pontuou Isabella, o homem ainda morava com os pais, então era uma pretendente em potencial.
Embora a polícia estivesse certa de que se tratasse de um homicídio seguido de suicídio, eu ainda continuava considerando suspeitos. Para a jovem, só valeria a pena se fosse casada; uma pretendente poderia ser facilmente descartada, enquanto uma esposa receberia parte da herança, a depender do regime de casamento.
Havia, também, familiares de Antunes: os pais já eram falecidos, mas um irmão – que era a sua cópia escarrada, exceto pela altura (era um pouco mais alto) e por ter um pouco mais de cabelos – viera de sua morada na, quem diria, Inglaterra (onde, como vim a saber depois, tinha de fato um título nobiliárquico e um terreno para chamar de seu feudo). Havia chegado provavelmente na noite anterior, mas não parecia particularmente cansado da viagem. Ouvi-o comentando que sempre imaginara que morreria antes de Antunes, especialmente por ser o irmão mais velho, mas aparentemente a vida o havia privado desta gentileza.
A cerimônia em si foi um show: discurso do irmão, discurso do filho, discurso da irmã de Fátima, velhas ricas se jogando sobre o caixão e chorando, pessoas aleatórias tentando garantir seu momento de glória, lembrando-se de quando ele fizera isso ou aquilo, peixes que haviam pescado, barcos que haviam navegado, esqui em Aspen, dirigir em Mônaco, e o que mais de excentricidades e particularidades que você possa imaginar. Ao que parece, porém, aqueles que mais sentiram mal puderam falar: Leopoldo e Maria Madalena haviam se sentado a um canto, em suas vestes pretas e secando lágrimas, por breves momentos durante o discurso, uma vez que até então haviam trabalhado para dar conta do evento.
— Ah, pobre seu Antunes — comentou Madalena. — Quantas vezes não tive de o ajudar com o cabelo!
— Cabelo? — questionei, curioso.
— Ele usava peruca — ela respondeu, um tanto incerta; parecia que era um segredo que não devia compartilhar, mas, uma vez que tinha começado, não tinha escolha. — Mas tinha dificuldade de colocar, porque…
— Madalena! — a pretendente de César chamou. — Derrubaram champanhe no degrau da escada.
— Já estou indo, senhora! — ela respondeu prontamente. — Dafne — ela murmurou para mim, bufando. — Já está se achando dona da casa.
E se foi para limpar a sujeira dos outros.
O tempo passou sem muitos incidentes. O exame toxicológico saiu, e, de fato, Antunes havia consumido muito álcool e um tanto de Rivotril; difícil de dizer se alguém lhe dera a medicação, ou se ele mesmo tomara. Digitais dos frascos não haviam trazido nada de novo, e os jornais haviam determinado que a história trazida por Castanho era, de fato, a verdadeira.
Algum tempo depois, estava lendo o jornal (sim, eu ainda mantenho o hábito de comprar o jornal impresso e ler aos fins de semana, quando tenho tempo) e vi a manchete de que seria aberto o inventário de Antunes, e que o irmão inglês estava vindo para receber o que lhe era de direito do testamento.
Eu, pessoalmente, não entendia absolutamente nada disso. Não tenho filhos, nem posses, então, quando eu me for, não será qualquer dificuldade distribuir o que não tenho para ninguém. Por outro lado, para os ricos, isso me parece ser uma verdadeira dor de cabeça.
Surpreendente, porém, era pensar que Antunes havia divido sua herança entre seu filho e seu único outro parente vivo – o irmão solteirão lorde de um rincão inglês.
— Não, não acho que isso vá acontecer conosco — comentou Isabella, que estava sentada do outro lado da mesa de café.
— Como é que você pode garantir… Ei!
Não adiantava reclamar do fato que ela havia lido minha mente; isso já era frequente antes, mas, com o tempo juntos, estava se tornando mais e mais fácil. Desta forma, simplesmente lancei aquele olhar de “Por favor, explique-se”, ao qual ela também já estava acostumada.
— Você estava lendo a notícia sobre o velho de Campos, não é?
— Sim.
— De repente, seus olhos desviaram, e você claramente estava se lembrando sobre o caso. Enrugou um pouco a testa e fez uma expressão de desgosto, o que mostra que está, em parte, irritado com a evolução do caso, mas, também, com o motivo do assassinato. Em seguida, você olhou para a aliança na sua mão, depois olhou de relance para mim, o que prova que estava preocupado com isso acontecer conosco no futuro. Daí, minha resposta.
— Estava realmente me questionando se isso é uma coisa que afeta somente os ricos, ou se nós, pobres mortais, também estamos sujeitos a isso.
— Ah, isso afeta todas as camadas sociais. Mas só vira notícia a partir de um certo PIB — ela falou, tomando café. — Aliás, no armário tem uma prednisona para o seu ombro. O melhor horário para tomar é no café da manhã.
— Puxa, eu estava mesmo…
Parei e olhei novamente com a mesma expressão.
— Acho que é uma tendinite calcária. Dizem que dói muito.
— Como é que você sabe?
De fato, meu ombro estava doendo havia dois dias já, uma dor particularmente infernal, mas eu evito ao máximo reclamar para Isabella. Sempre acho que deve ser muito irritante ter de ficar atendendo pessoas o tempo todo, por qualquer motivo.
— Bem, a forma como você está segurando o jornal. O cotovelo colado no tronco, sem levantar muito, e a careta de dor que você tenta esconder toda vez que movimenta o ombro. Fora que eu vi você levantando de noite algumas vezes, tentando mexer o ombro e indo provavelmente pegar remédio para dor. Manguito dói, mas não assim. Poucas coisas doem tanto no ombro a ponto de fazer você, que está acostumado a controlar a dor, ser vencido e tomar um remédio.
— Mas…
— Não se preocupe, isso melhora em uma a duas semanas. Diminua um pouco os movimentos do ombro, mas não fique com ele totalmente parado, se não ele pode congelar e você não vai conseguir mexer.
— Nem que eu quisesse eu conseguiria mexer, está doendo tanto para levantar que…
De repente, eu parei congelei; virei lentamente o rosto em direção a Isabella, e disse:
— O herdeiro está em perigo!
O lado bom é que Isabella sempre compreende até mais rápido do que eu.
— Achei que fosse perceber isso mais rápido, mas acho que o ombro está atrapalhando suas análises — ela respondeu, factualmente. — Vai para Campos?
— Assim que resolver as coberturas da agência.
— Um telefonema não basta?
— Preciso confirmar uma coisa, mas…
Isabella suspirou.
— Acho que não vai voltar hoje, não é?
— Provavelmente, não.
Ela deu de ombros, a mesma expressão que ela sempre fazia quando o trabalho me ocupava fora do horário. Eu sabia como ela empreenderia o seu dia: leria um livro, tomaria um vinho, tocaria piano, aproveitaria à sua maneira o tempo de solidão. Se eu voltasse no mesmo dia, acredito que ela me faria companhia; porém, como não tinha exatamente uma previsão de voltar e o dia seguinte seria segunda-feira, ela realmente não tinha como ir.
Passei a próxima hora organizando coberturas para a agência; estávamos com dois casos de infidelidade em andamento, e um deles incluiria a vigilância nesta noite de domingo – que seria minha –, o que significava que meus colegas não ficariam muito felizes com a troca de última hora (quem gosta de trabalhar domingo à noite?). Jonas, porém, achou as horas extras bem vidas (isso e o fato de ele não ter vida social) e aceitou a troca.
Para não deixar Isabella chateada, eu tentei falar com Castanho e pegar o telefone da pessoa com que precisava falar; ele demorou para responder (era domingo de manhã), mas me enviou o telefone. A pessoa, é claro, não atendeu – ou estava dormindo, ou estava trabalhando e não poderia atender.
Não tinha escolha; tomei o remédio que Isabella me indicou, fiz uma pequena bolsa de viagem com roupas e medicamentos de reserva, e parti para a cidade mais europeia de São Paulo.
Cheguei à cidade perto da hora do almoço e, é claro, ela estava fervilhando; Campos do Jordão é uma cidade para jovens, tem seu charme, mas devo dizer que não gosto particularmente dela. Está sempre muito cheia, mesmo quando não está frio, e eu me sinto assaltado toda vez que preciso comprar qualquer coisa, mesmo que seja uma garrafa de água.
Quando estacionei perto da mansão de seu Antunes, pude pegar o celular e ver a mensagem de Madalena, que finalmente havia me respondido: não, ela não estava trabalhando, estava de folga na sua casa, que ficava nas cercanias da cidade, longe do bairro chique do Capivari. Assim, liguei o carro e me dirigi para lá.
Era um bairro simples que não se parecia em nada com o glamour que usualmente se tem em Campos. É a mesma sensação que tive quando fui para Brasília: para fazer toda aquela máquina de riqueza funcionar, é necessário um exército de funcionários anônimos que claramente não têm como viver na terra dos ricos, habitando, assim, casas simples em bairros simples, como qualquer periferia de cidade.
Madalena me recebeu pedindo desculpas pela bagunça da casa – ela não tivera tempo de arrumar, era seu único dia de folga – e me oferecendo um café para espantar o frio.
— Obrigado, Madalena. Não quero tomar muito do seu tempo.
— Ah, não se preocupa, doutor, eu estou de folga hoje, tenho tempo de sobra.
— Trabalha muito para o seu Antunes? — perguntei, soprando a fumaça do café.
— De segunda a sábado. Às vezes eles trocam os domingos por dia de semana. Mas, não posso reclamar, eles realmente só ficam aqui no inverno.
— E o filho deles? César? O que acha dele?
— O seu César? Ah, eu vi ele crescer. Pra mim, continua sendo o menino que sempre via nas férias.
— Ele te trata bem?
Ela corou.
— Sim, sim. Não tenho do que reclamar.
Acho que havia alguma história perdida ali, mas da qual eu ainda não tinha intenção de me inteirar.
— Sabe me dizer se César tem algum vício? Fumar, beber, jogar?
— Ah, as três coisas, mas eu não chamaria isso de vício — disse ela, balançando a mão como se fizesse pouco caso. — Ele só faz isso quando está com amigos..
— E a namorada dele? Dafne, não é? O que acha dela?
Os olhos de Madalena faiscaram.
— Sim — falou, entredentes. — É uma megera.
Escolha interessante de palavras.
— Ela te trata mal?
— Como se eu fosse um lixo. Dona Fátima nunca me tratou assim. Não sei o que César viu nela…
— Eles são noivos, algo assim? Estão juntos há muito tempo?
— Não, não. Dona Dafne está com ele há uns… Dois, três meses. Mas acha que já é dona de tudo.
— César costuma trocar com frequência de relacionamentos?
— Não que eu fique prestando muita atenção nisso — ela falou, enrolando as mãos no avental. — Mas eu… Acho que ele nunca passou um inverno aqui com a mesma pessoa duas vezes. Só espero que não comece agora com essazinha.
Talvez ela prestasse mais atenção do que admitia.
Dafne continuava sendo uma pessoa de relativo interesse da investigação, mas pouco quente. Nova demais na família, grande potencial de ser substituída, não me parecia que ela poderia querer se livrar do sogro com tão pouco a ganhar. Mas, de qualquer forma, não adiantava ficar elucubrando isso: eu precisava garantir se todo o caso realmente fora um suicídio ou não.
— Madalena, você comentou uma coisa comigo no funeral que me deixou muito curioso.
— Eu comentei?
— Sim. Você disse que o seu Antunes usava peruca.
— Ah, sim. Mas eu não deveria ter falado isso. Não conte pra ninguém! É um segredo!
Considerando o fato que o homem havia sido encontrado totalmente careca, preso pelo pescoço ao lustre, não era mais segredo para muita gente, mas eles haviam tentado manter um pouco de dignidade enterrando-o com sua melhor peruca e com bastante maquiagem para cobrir as marcas no rosto, enquanto o colarinho cobria o pescoço.
— Você me disse que ele precisava de ajuda para colocar a peruca, não é?
— S-sim — respondeu ela, um tanto hesitante.
— Que tipo de ajuda era essa? — eu perguntei, observando-a com atenção.
— Ah, ele não conseguia colocar na cabeça — ela falou. — Sempre tinha que baixar a cabeça, assim, e ela ficava escorregando.
— Sabe dizer por que ele não conseguia?
— Ele nunca me explicou direito — ela disse. — Mas eu acho que ele tinha alguma coisa no ombro… Sabe, um tio meu já teve isso, não conseguia mais pentear o cabelo de jeito nenhum, então minha tia que tinha de arrumar toda vez. E eu ajudava o seu Antunes todo dia de manhã a colocar a peruca de novo.
Ela suspirou. Era claro que gostava muito da família e parecia que ia sentir falta disso.
Por dentro, eu queria pular, mas me controlei. Minha teoria estava correta; aquilo havia, sim, sido um assassinato. O assassino estava à solta – e a vida dos herdeiros certamente corria risco.
Pouco depois, despedi-me de Madalena e segui pela cidade; minha próxima visita seria a Castanho, que morava em um dos pequenos prédios próximos ao Capivari. Quando cheguei, ele estava se preparando para passear com seu Lulu da Pomerânia.
— Venha dar uma volta comigo. Podemos aproveitar e conversar.
Alessandro ficara pra terminar de preparar o almoço dominical, para o qual me convidaram.
— Castanho, tenho razões para crer que o caso não foi um simples suicídio.
— Ah, Dias, eu sei que você tem esse histórico de grandes conspirações e tudo mais, mas, veja, estamos em uma cidade pequena, provinciana. Aqui é mais arroz com feijão. Homem desgostoso com o casamento mata a mulher e se mata depois para não enfrentar a prisão. Se procurarmos o suficiente, vamos encontrar algum caso de infidelidade. Alguma coisa vai surgir que mostre o motivo do crime.
Ele parou para coletar as fezes do seu cachorro.
— Veja, Castanho, o negócio é o seguinte… Não pode ter sido o Antunes.
Ele parou com o saquinho na mão, encarando-me demoradamente.
— Como você pode ter certeza? — perguntou, por fim.
— Acabei de falar com Madalena. Antunes tinha uma lesão do ombro, nunca iria conseguir disparar aquela flecha — respondi, levando quase inconscientemente a mão ao meu ombro dolorido. Só de imaginar o movimento, ele já me doía.
— Como…? — ele falou, depois de uma pausa.
Expliquei tudo o que Madalena me contara; sugeri que, em uma cidade como aquela, não seria difícil para ele encontrar o médico que cuidava de Antunes e obter essa informação, por meio judicial, se necessário. Ou, caso se tratasse em São Paulo, também não seria algo impossível.
— Tudo bem, Dias, acredito em você. Mas, qual é a sua suspeita?
— Eu tenho uma teoria. Mas, para isso, eu precisaria obter informações que não conseguiria normalmente de forma legal, não fazendo mais parte da polícia.
— O que você quer, exatamente?
— Lembra no nosso treinamento, que estávamos começando a usar a expressão “Follow the money?”.
Castanho parou, pensativo.
— Não vou conseguir ver isso hoje, Dias. Vai dar trabalho. Preciso de uma razão muito forte.
— Acabei de lhe dar.
— Isso não vai bastar.
— De qualquer forma… Você precisa manter os dois herdeiros separados. Leve o Lorde Inglês para um hotel, alguma coisa assim. Como se fosse serviço de proteção à testemunha.
— Dias, eu não tenho meios…
— Se não fizer isso — eu disse —, as mortes não vão parar.
Castanho, para o desagrado de Alessandro, passou o a próxima hora tentando organizar alguma forma de proteção para o lorde. O lado bom de ser o delegado é que ao menos ele tinha mais autonomia do que eu, na minha época de polícia. O lado ruim é que ele ainda tinha instâncias superiores a responder, como sempre.
Com um pouco de lábia e cobrando favores – e, devo dizer, arriscando relativamente em um tiro no escuro – ele conseguiu um quarto de hotel simples para alocarmos o nosso visitante internacional. O próximo passo era, agora, dizer-lhe que precisávamos que ele saísse da mansão, ao mesmo tempo sem causar alarde, nem explicar os motivos, enquanto as nossas investigações seguiam adiante.
— Não vejo por que eu deveria sair daqui! — exclamou ele, quando explicamos o motivo.
— Não podemos descartar que a morte de seu irmão tenha sido por terceiros. Esta mansão não é segura para ninguém — Castanho explicou.
— E por acaso vão desalojar meu sobrinho, também?
A ideia de mudar o lorde era simples: manteríamos os dois herdeiros separados, ao mesmo tempo em que cortávamos os custos pela metade. Porém, não contávamos que ele se oporia tanto.
— Sim, também vamos — disse Castanho em um tom conciliador.
— Então, comecem por ele! — o lorde esbravejou.
Castanho me encarou; deslocar César também era uma possibilidade, mas, considerando que a mansão era dele, não haveria absolutamente motivo que o convencesse.
— Não vou sair desta casa de forma alguma! — disse o velho, batendo o pé.
Fizemos uma reunião estratégica.
— A leitura e a distribuição do testamento será amanhã — eu falei.
Estávamos na biblioteca, que parecia tristemente vazia sem as centenas de pessoas que haviam se reunido para prestar homenagens finais ao casal.
— Se o assassino for agir, agirá hoje, para garantir os seus ganhos.
— Temos acesso ao testamento de algum dos dois? — questionou Castanho.
— César provavelmente não tem testamento. O lorde certamente tem, mas não vejo como poderíamos acessá-lo.
— Da maneira como vejo, pode ser qualquer um dos dois. Porém, se uma tentativa de assassinato ocorrer hoje, ficará claro quem é o beneficiário.
— Por diversos motivos. O principal é que saberemos quem seria a vítima, ficando claro quem é o assassino.
— Não só isso. Um se beneficia se o outro morrer hoje; outro se beneficia se morrer em qualquer momento.
— Quem diria que terminaríamos neste ponto?
Não houve quem conseguisse convencer os dois herdeiros a sair da mansão e se alojar em outro lugar. Assim, eu me ofereci para ficar de guarda; colocamos um em cada ponta do grande corredor do primeiro andar, e eu fiquei sentado bem de frente para o terraço, encarando o suporte de corpo onde havíamos encontrado dona Fátima.
Os dois acharam um excesso de zelo, totalmente desnecessário. Estavam ambos convencidos de que o que ocorrera a seu Antunes havia sido apenas uma fatalidade.
— Mas tem algo que faça você pensar que seu pai nutria algum desgosto pela sua mãe? — Castanho questionou a César.
— Eu já vi eles brigarem algumas vezes — foi a resposta. — Não era bonito. Meu pai era relativamente violento, especialmente quando bebia. Pelo que fiquei sabendo do toxicológico, ele realmente bebeu bastante na festa. É bem possível que tenha se irritado com a minha mãe por qualquer motivo.
— Mas isso explica tirar a própria vida?
— Ele nunca enfrentaria um dia na prisão. De jeito nenhum. Preferia morrer a ficar preso. Bem, como vocês podem ver.
Castanho voltou para sua casa; eu acabei jantando com os dois, um em cada canto da mesa, lançando olhares desconfiados. Por fim, chegou a hora de todos se retirarem a seus postos; cada um deles para um quarto, eu para o meio do corredor, munido de café, um livro e muitos remédios para dor. Conforme a noite avançava, meu ombro doía mais e mais, como de costume, e eu tive de recorrer a mais remédios. Continuei lendo meu livro, perambulei pelo andar, alguns passos para lá, outros para cá, sempre tentando achar a melhor posição para meu ombro, que latejava como se fosse ser arrancado.
Em torno da uma da madrugada, quando tudo estava silencioso e eu tomava minha quinta xícara de café, aos costumes do que fazia quando estava de vigilância noturna (no final, só tinha trocado um infiel por um assassino), ouvi a porta do lado do lorde se abrir. Pouco depois, ele veio caminhando lentamente pelo corredor, em passos incertos, até me encontrar.
— Opa! Mister Dias, está por aqui?
— Garantindo a sua proteção, milorde — eu falei. Ele adorava quando o chamavam assim. — Posso ajudar em alguma coisa?
— Preciso de sal de frutas — ele falou. — Tenho uma indigestão horrível, tenho de tomar todo dia, mas acabei não trazendo, na pressa da viagem, nem tive tempo de comprar.
— Imagino que tenha algo na cozinha — falei.
— Sim, sim. Meu irmão tem… Tinha o mesmo problema que eu. Sei que ele tem o costume de guardar no armário da cozinha, ao lado dos temperos. Não é a primeira vez que fico aqui.
— Vou com o senhor — eu disse, levantando-me. — Vai ser bom andar um pouco e, também, vamos lembrar que foi lá que Fátima foi assassinada, então é bom ficar de olho.
— Verdade, verdade — ele murmurou, seguindo em direção à escada.
Observei enquanto ele descia a escada. Podia imaginar as possibilidades: o lorde inglês, repleto de dívidas para manter seu feudo em outro país, vem escondido ao Brasil, dá cabo de seu irmão e sua cunhada, ficando, assim, com metade da herança. Chega no meio da noite; toca a campainha, e o irmão o deixa entrar, ou talvez já tivesse a chave ele mesmo; toma um sal de frutas na cozinha (os dois podem tomar, por que não?). Talvez encha de narcóticos a bebida do irmão, que fica meio desfalecido na cozinha. Chama a cunhada, acerta-a com a flecha, leva o corpo trôpego do irmão e o executa com o cinto. Tudo muito exequível; meu ombro latejava só de imaginar o esforço.
Ou seria, se o homem não descesse as escadas com dificuldade. Estaria fingindo para mim? Ou teria realmente uma fraqueza, alguma alteração de equilíbrio associada à senilidade que o impediria de realizar esses atos? Isabella certamente saberia.
Chegamos à cozinha, e o homem se serviu do seu sal de frutas, suspirando com alívio. Não percebeu, ou por pura displicência mesmo, deixou cair um pedaço do envelope. Seguiu de volta pela sala, passando ao lado das armas aparentemente sem lhes prestar a menor atenção, mas disse:
— Gostaria de levar tudo isso para meu castelo na Inglaterra. Ficariam muito melhor do que aqui. Mas, creio que ficará tudo para meu sobrinho. Não sei quais são os termos do testamento de meu irmão, sabe.
Difícil de imaginar um brasileiro com um castelo na Inglaterra, mas, quem sou eu para julgar a vida dos ricos e milionários? Frequentemente vejo notícias de castelos à venda por uma bagatela; o grande custo é a manutenção e os impostos. Quem é que tem dinheiro para isso?
Fiz questão de checar a segurança dos aposentos de Sir John (sim, ele tinha mudado seu nome para receber o título), antes de o deixar entrar, e tudo parecia limpo. Depois que ele se acomodou na cama, fiz a gentileza de apagar a luz e segui para a minha cadeira e a minha xícara já fria de café. Estava particularmente frio naquela noite e, infelizmente, não havia uma lareira onde eu me encontrava; tive de me contentar com meu casaco. Por outro lado, se ficasse confortável demais, correria o risco de dormir (se meu ombro deixasse, claro). Assim, engolindo mais um analgésico, segui noite adentro.
Eram em torno de três horas da manhã quando senti um movimento passando por mim; eu estava na única posição em que meu braço me permitia ficar, na penumbra, com os olhos semicerrados, o que certamente fez o vulto pensar que eu estava dormindo.
— Boa noite, César.
O homem deu um pulo, assustado.
— B-boa noite, seu Dias.
— Indo a algum lugar?
— Vou pegar um sal de frutas na cozinha.
Se realmente fosse, deveria ter feito uma curva antes que eu o chamasse.
— Problema de família?
— Sim. Meu pai também tem… Tinha.
— E seu tio também.
— Sério?
— Sim. Não tem duas horas que ele desceu para pegar um sal de frutas.
— Puxa, que coincidência.
— Vou descer com você — falei. — Aproveito para passar mais um café. Se não se importar, é claro.
— Não, não, é claro que não. Não deve ser fácil passar a noite de vigia, não é?
— Ossos do ofício.
— Muito obrigado pela ajuda, seu Dias — ele falou, enquanto descíamos as escadas. — Não acho que seria necessário, mas, mesmo assim, obrigado.
— Imagine — respondi, observando-o descer.
Ia com muito mais desenvoltura que o tio. Era mais fácil de imaginar: César havia saído com os amigos, depois ido para a casa de um deles. Fingiu dormir e se levantou, exatamente como acabara de fazer; saiu da casa, veio à casa dos pais, da qual claramente tinha a chave; tomou um sal de frutas na cozinha; chamou a mãe de alguma forma e, com seus braços fortes, disparou a flecha certeira. Guardou a arma no lugar, subiu as escadas, aproveitou-se do pai dormindo e executou ali mesmo. Ou, caso o pai estivesse acordado, fez exatamente como imaginara com seu tio: colocara o narcótico no sal de frutas.
Depois, pegaria metade do dinheiro da herança para si. E bastava se livrar do tio para pegar a outra metade, embora restasse o mistério do que o testamento dele traria; para onde seria direcionado o dinheiro? Certamente, haveria uma grande disputa judicial – cronologicamente, o pai morrera, mas os bens sequer haviam sido distribuídos. O testamento do tio seria aplicável? Não seria? Mas, de qualquer forma, por que o homem que tinha tudo precisaria acelerar os seus ganhos? Tinha alguma dívida que precisava sanar? Fornecedores de drogas, algo do tipo? Fora influenciado pela pretendente? Não seria o primeiro caso de parricídio influenciado por relacionamentos.
Conversamos amenidades enquanto eu fazia meu café e ele tomava seu sal de frutas – cuja embalagem, assim como parecia ser hábito de família, ele deixou cair no chão sem a menor preocupação.
Nenhuma pista ali. Ou seria deliberado?
Com o café renovado, subimos para o andar de cima, e eu também fiz questão de checar a segurança de seu quarto – o que foi só uma desculpa para bisbilhotar o que ele estava fazendo lá e se tinha algo suspeito. Sua namorada estava deitada na cama, roncando e em sono tão profundo que sequer me ouviu entrar; no banheiro, não havia nada que chamasse a atenção. Certamente ninguém forçara a entrada pela janela. Tudo parecia, enfim, inocente.
A noite transcorreu sem mais ocorrências; e, finalmente, às seis horas da manhã, quando o sol estava pensando se nascia ou não, Castanho chegou para me render. Contei-lhe o que havia acontecido e perguntei se havia alguma novidade.
— Madrugada de domingo, Dias. Não sei como as coisas funcionam em São Paulo, mas, aqui, as pessoas dormem e ninguém faz hora extra de investigação monetária.
Sem condições de seguir o dia sem um descanso, peguei um dos quartos para mim e me deitei para finalmente dormir. Bem, mais ou menos. A exaustão venceu a dor, mas, ainda assim, eu fui acordado várias vezes quando tentava movimentar o braço dolorido durante o sono.
Subitamente, às dez da manhã, um grito desesperado; saltei da cama, os olhos ainda embaçados e a roupa amassada de quem ficara parado em uma única posição, mas a dor no braço me fez ir mais devagar, apoiando-o, aquecendo-o antes de realmente sair.
O movimento todo vinha da ponta do corredor, do quarto de César: quando cheguei, Dafne estava em um canto do quarto, de camisola, sentada no chão e chorando; Castanho estava debruçado sobre a cama, onde jazia César, checando seu pulso no pescoço, mas não precisava de muito para saber: estava morto. Uma espuma saía de sua boca, e o que eu temia que acontecesse durante toda a noite acontecera: um assassinato.
Teria sido durante o tempo em que eu estava dormindo? Poderia ter sido naqueles breves momentos em que os escoltei para a cozinha? Ou teria sido Dafne, que fingira estar dormindo quando fui checar a segurança do quarto?
— Castanho? — eu disse.
Ele me encarou, balançando a cabeça e confirmando o óbvio.
— Precisamos checar o lorde.
Corremos para o outro extremo do corredor, eu mais devagar, pois não podia balançar o ombro, para encontrar a mesma cena: o homem deitado de barriga para cima, espuma saindo de sua boca.
Quem poderia ter feito aquilo?
Algum tempo depois, foi a vez de retribuirmos a hospitalidade de Castanho oferecendo-lhe um almoço em nossa casa.
— E aí, o ombro está melhor?
— Ah, sim — respondi. — Duas semanas de uma dor infernal, mas depois passou. Agora estou no fortalecimento.
— Não fosse esse seu ombro, acho que nunca teríamos descoberto o verdadeiro culpado.
— E, no final, quem foi, então?
— Vamos recapitular tudo — disse Castanho, torcendo as pontas do bigode. Ele sempre gostou de fazer isso (tanto recapitular, quanto torcer o bigode), pois colocava sua mente em ordem. — Dona Fátima foi encontrada morta por uma flechada no balcão da casa por Madalena, que correu para chamar ajuda. Depois, Leopoldo encontrou seu Antunes enforcado com um cinto em seu próprio lustre. A arma do crime, um arco, estava de volta em seu lugar. Digitais: de seu Antunes, que possivelmente manipulava o arco, e de Madalena, que provavelmente limpava as armas. Vale lembrar, o assassino poderia ter usado luvas, mas, se fosse realmente Antunes, não teria por que usar, já que pretendia tomar a própria vida na sequência.
“Antunes ou o assassino tomou um sal de frutas antes de executar o crime. No seu corpo, tínhamos o narcótico que ele usava para dormir normalmente e o álcool que consumira na festa. Tudo parecia indicar para um assassinato seguido de suicídio, até que nosso querido Sherlock Holmes aqui veio com a história genial de que não podia ser Antunes, uma vez que ele não conseguia sequer vestir a própria peruca!”.
Eu assenti com a cabeça, enquanto nós servíamos do almoço.
— Eu conferi com o médico responsável, o que me deu um bom trabalho, e seu Antunes tinha uma doença do manguito rotador que realmente o impediria de fazer o disparo. Com isso, nossa suspeita caiu para os dois herdeiros, Sir John e César. Como Dias aqui sabiamente sugeriu, eu segui o rastro do dinheiro, ainda que tenha demorado muito. O lorde inglês tinha, de fato, uma grande quantidade de dívidas de suas terras no Reino Unido, que seriam sanadas com o dinheiro da herança e ainda sobraria um tanto para viver de uma forma um tanto, digamos, estoica. César, por sua vez, tinha também muitas dívidas nas plataformas de jogos online e com certeza estava ansioso para se ver livre delas. Fora isso, alguns saques de valores altos indicam que ele estava pagando alguém por alguma coisa que não queria que fosse rastreada, e nos cabe apenas especular. Assim, é de se pensar que ambos poderiam lucrar recebendo a outra metade da herança. Não tínhamos como saber quem era o culpado e tentamos manter ambos separados durante a noite, para que um não atacasse o outro, mas, de alguma forma, nosso plano falhou.
“A coincidência: no meio da noite, ambos desceram para tomar sal de frutas. Segundo eles, um mal de família. Bem, na ocasião da morte de Antunes, a perícia já havia levado os pacotes de sal de frutas e não havia achado nada de alterado neles. No entanto, aqueles pacotes eram novos e não haviam sido testados. Ambos amanheceram mortos, vítimas do mesmo veneno. A hipótese que temos: John, que desceu primeiro, tentou envenenar o sobrinho, colocando pacotes de veneno no lugar do sal de frutas. Ele tomou um que seria seguro, antes de trocar os pacotes e voltar ao quarto. César, por sua vez, foi executar o mesmo plano, sabendo que o tio também tomava sal de frutas, e acabou caindo na cilada”.
— Mas, para isso dar certo, César teria de ter trocado o sal antes do próprio tio! — disse Isabella.
— Exatamente! — Castanho respondeu, animado. — Temos uma possibilidade: César trocou alguns pacotes de sal de frutas, talvez só os da frente. O tio desceu para tomar; ele, ansioso, tenta sair do próprio quarto e ir ao do tio para checar, mas encontra Dias no meio do caminho e inventa a história de descer para tomar o sal de frutas. Sob o olhar de Dias, só lhe resta tomar algum – e ele toma um dos de trás. O que ele não sabe, porém, é que seu tio havia trocado todos os sais de fruta, e acaba tomando veneno. E, assim, quase como em um Romeu e Julieta moderno e bizarro, ambos morrem.
— Parece realmente complicado — disse Isabella.
— De fato, mas é a melhor resposta que tivemos até agora para este crime. Dessa forma, todos os culpados se encontram punidos.
Bebericamos um pouco de vinho, pensativamente, antes de Isabella falar:
— E Madalena?
— Você mesma já tinha descartado esta possibilidade, Isabella, pelas razões físicas.
— Uma curiosidade… Chegaram a conferir o testamento de Antunes?
— Sim — Castanho respondeu.
— E para quem ficou toda a sua fortuna?
— Algumas instituições de caridade, mas boa parte ficou para, quem diria, Madalena e Leopoldo. Acho que eram as pessoas mais próximas que Antunes tinha; preferiu deixar a eles, do que para a cunhada.
— Então, teríamos um motivo para ambos.
— Mas não adianta ter motivos, sem modo de execução
— Se eu lhe dissesse que havia um pequeno móvel fora do lugar no dia em fomos à casa, você mudaria sua forma de pensar?
— Como assim? — ele indagou, e todos a encaramos com curiosidade. — Que diferença um móvel faria?
— A sala de entrada tem um tapete. Perto das armas, fica uma poltrona com um suporte de perna. Este suporte, que é basicamente um banco baixo, foi movido recentemente de lugar, pois as marcas dos seus quatro apoios estavam claramente visíveis no tapete.
— Ora, Isabella, o que isso…
— A impossibilidade física de Madalena estaria resolvida! — exclamei, no que Isabella assentiu com satisfação. — Eu não acredito nisso!
— Você não quer dizer…
— Pois quero.
— Mas não temos como provar…
— Infelizmente, não. Conhecendo bem os hábitos da família, ela preparou os sais de fruta sabendo que ambos tomariam, usando luvas, é claro (o resto era desnecessário, porque tudo tinha suas digitais). Ela calculou também que, diante dos termos do testamento, os principais suspeitos seriam César e John. E, sendo uma funcionária tão próxima de Antunes, ela também saberia o fato de que, na ausência de um familiar próximo, a herança iria para as instituições e para ela e Leopoldo.
— O crime perfeito! — exclamou Alessandro.
— Exatamente. Leopoldo não conseguiria atirar, por causa da hérnia, e Madalena também não, por causa da altura. Com um banco, ela disparou contra Fátima; aproveitando-se do sono profundo de Antunes, Leopoldo o enforcou com um cinto e, juntos, ambos o ergueram para o lustre. Veja, não tiveram de subir a escada com ele, o que seria muito difícil para ambos, porque ele já estava no quarto. Por fim, o mistério corroeu a todos, e eles se livraram dos dois últimos herdeiros. Dafne escapou por pouco: se já fosse casada com César, certamente teria morrido também.
— Você sabia disso tudo desde o começo?
— Sim — Isabella respondeu, simplesmente. — Mas não queria atrapalhar o seu trabalho.
— Atrapalhar? Atrapalhar? Talvez, duas pessoas tivessem sido poupadas.
— Naquele momento, Madalena era apenas uma possibilidade. Os herdeiros diretos pareciam mais prováveis do que ela. Mas ela estava tão confiante, que acabou deixando escapar sobre o ombro, o que é um ponto para André. Eu não sabia dessa informação, mas, é claro, aumentou demais as probabilidades de ela ser a culpada. Restava avançar para a segunda fase, de alguma forma que ficasse aparente exatamente o que encontramos: a disputa entre herdeiros leva a morte de ambos. Porém, foi justamente o contrário: com a morte de ambos, associando a história do ombro e a posição do banco, ficou claro quem seria a culpada. Mas, de qualquer forma, contar sobre o banco aqui ou antes não teria resolvido a questão.
— E agora? — questionou Alessandro, encarando alternadamente ela e o marido.
— Bem — Isabella respondeu, tomando mais um gole de vinho. — Agora a polícia precisa fazer o que a polícia precisa fazer. Mas, sem provas que não sejam circunstanciais… Acho que nada além de uma confissão poderia provar os verdadeiros autores do crime.
Crimes perfeitos existem, é claro. E este seria mais um deles, se não fosse por Isabella.
Mas, por outro lado, eu ainda me pergunto… Seria Madalena realmente culpada? Não tínhamos nenhuma prova contundente. John tinha chegado no dia do assassinato; César tinha um álibi que dependia da palavra de um amigo. Talvez… Algum dos dois pudesse ser o primeiro assassino, e Madalena aproveitou a oportunidade? Quando deixou escapar sobre o problema do ombro de Antunes e o desgosto por Dafne, estaria tentando culpá-la?
Na verdade, aquele crime está longe de ser solucionado. Talvez seja, de fato, um crime perfeito. O que você acha?

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais