O Cara do Seis
O prédio era um daqueles antigos, tão velho que sequer tinha elevador. Dois andares, além do térreo, possuía seis apartamentos, dois para cada piso. As escadas eram estreitas e íngremes, a luz era parca, o ambiente inteiro cheirava a velho, mas ninguém tinha qualquer problema com isso. Todos os moradores se conheciam, eram antigos amigos, moravam lá há anos.
Por exemplo, havia o casal de mexicanos do um. O trio de estudantes do dois. As duas residentes do três, a família do quatro, uma banda no cinco, todos muito legais. O grande problema, porém, era o seis.
O apartamento seis estava abandonado havia anos, desde que, diziam, houvera um assassinato lá; com isso, um fantasma visitava todas as pessoas que tentassem passar pelo menos uma noite lá, de modo que ninguém nunca alugava aquele lugar. Estava fechado desde tempos imemoriais, e ninguém se aproximava dele mais do que o necessário, sendo o mais afastado das escadarias e o menos iluminado do andar.
Até que ele se mudou para lá. O cara do seis, como o chamavam, um sujeito esquisito.
No primeiro dia em que ele apareceu, usando uma jaqueta jeans e uma calça, uma boina cobrindo os cabelos e óculos escuros, sendo sua face, coberta por uma grossa barba, indefinível, todos do prédio ficaram impressionados. Como de costume, um quadro de apostas rolou por lá, tentando adivinhar quantas horas o homem aguentaria lá dentro. Para os mexicanos, duas horas; para a família, três. A banda punha mais fé no homem sinistro e apostava em dez horas, enquanto as duas residentes julgavam não mais que cinco e os estudantes ficavam com confortáveis quatro horas. Nada mais, nada menos.
O cara do seis, contudo, parecia decidido a se mudar. Com ajudantes, trouxe todos os seus móveis em um dia só; assim que chegou, subiu as escadas sem cumprimentar ninguém, sem nem mesmo lançar sequer um olhar por sobre os ombros, e ficou lá em cima desde então; seus empregados, por sua vez, subiam e desciam com os aparatos para a casa.
Em questão de horas, estava tudo arrumado, tudo organizado, o homem já fechara sua porta e caíra em seu silêncio; no róu de entrada, o pessoal se reunira para tentar decidir, afinal, o que se faria do famigerado cara do seis.
Caiu a noite, e todos ficaram acordados, apenas esperando pelo que aconteceria. A família via a sua novela, os mexicanos desfrutavam de uma noite fogosa, as residentes e os estudantes estudavam para uma prova próxima, e a banda em um quarto à prova de som, aproveitava o tempo para compor uma nova música.
Contudo, do nada, um som de ópera se sobrepõe ao murmúrio da vida cotidiana; O fantasma da ópera, seguido de A cavalgada das Valquírias, e obviamente aquela música do Betovem, que assusta todo mundo e toca quando o Franquestaim aparece. Todos olham assustados para cima (ou para o lado), apenas imaginando o que diabos aquele homem do seis estava fazendo. Por que aquela música assustadora?
Arrepiante ou não, ela indicava que ele ainda resistia ao fantasma do lugar (se é que não fora ele que aparecera e fizera a música tocar); passaram-se uma hora, duas horas, três, quatro, cinco… Todos haviam perdido a aposta, até então, menos a banda (a qual prosseguia indiferente com sua nova canção, justamente O Cara do Seis), e deu meia noite. Foi o ápice de Uma noite no monte Calvo, quando um relógio cuco bateu doze vezes, e então o som de que o disco havia sido paralisado no mesmo ponto, tocando vezes e vezes e vezes ainda a mesma parte da música.
A manhã chegou, e o estranho cara do seis permanecia em silêncio, apenas a música tocando, incessante. Em questão de tempo, conforme o prédio despertava, sem suportar mais aquela sinfonia pentelha, todos se reuniram no corredor do segundo andar, tentando entender o que estava acontecendo.
A banda se entreolhou, sonolenta; os estudantes e as residentes, que não haviam dormido, igualmente se entreolharam, incertos; a família inteira (exceto pelas crianças, as quais dormiam ainda a sono profundo) lançava olhares um tanto incertos; o casal de mexicanos, cuja noite fogosa prosseguira apesar do drama no andar de cima, encarava o chão, incerto.
O cantor da banda, mais corajoso, tentou bater à porta, e quando ela rangeu e pendeu para frente ele quase pulou de medo; o som da música veio ainda mais forte, e quando, com uma vara, eles tiveram coragem suficiente para abrir o resto da porta, identificaram um gramofone em cima de uma antiga mobília, tocando Uma noite no monte Calvo, sempre no ápice, e uma mão segurando a agulha no mesmo lugar. Tal mão estava coberta por um roupão cor de vinho, o qual encobria, ainda, um pijama de listras verdes e azuis e um par de chinelos fofos cor de uva. Um pescoço se estendia para fora, apoiado no encosto de uma velha poltrona de couro, a barba grossa, o cabelo escondido sob o chapéu e os óculos ainda no rosto.
Todos se aproximaram vagarosamente; o cara do seis estava completamente inerte, a língua de fora, aparentemente morto.
– O fantasma fez mais uma vítima – sentenciou soturnamente a mulher da família, e os outros, incertos, concordaram.
Repentinamente, todos pularam para trás e gritaram de susto; o estranho homem se mexeu, com uma mão agarrou o cantor da banda, com a outra aumentou o volume do gramofone, e uma voz gutural saiu de sua garganta rugosa:
– Eu vejo gente morta! – gritou, e todos voaram para longe da casa.
Uma gargalhada fria ecoou pelo prédio, conforme todos corriam pela rua, e o estranho homem do seis fechava a porta. Mas não trancava; nunca mais precisaria trancá-la.
– O que um homem não tem de fazer por sua privacidade hoje em dia – comentou para o seu gato. – Onde já se viu, entrar na casa de um homem dormindo… Sem bater!
Deste dia em diante, ninguém nunca mais voltou a importunar o cara do seis. O gramofone nunca mais tocou, ele nunca mais saiu de casa, mas ninguém se arriscou a abrir a porta. Nem a chegar perto dela.
E a música O Cara do Seis foi um grande sucesso. Vez por outra era possível ouvi-la através da porta do apartamento seis daquele antigo prédio.
Nota do autor, agosto de 2021: este prédio é muito parecido com aquele em que morei quando comecei a faculdade, mas não, não tínhamos um misterioso cara do Seis.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais