Premiação Chática
– Capitão Herculano!!!
O chato estava pulando no meio do corredor do avião; várias pessoas se juntaram para segurá-lo; ele foi ao chão, o avião desestabilizou, e tudo o que eu pude fazer foi apertar ainda mais o meu cinto antes que ele começasse a girar em pleno ar.
Mas talvez seja melhor eu começar do começo.
Certa feita (a estilo mineiro) chegou o chato à minha casa e, em vez de usar a campainha, bateu à porta três vezes, chamou pelo meu nome, bateu mais três vezes, chamou pelo meu nome, e, não ainda suficientemente chato, bateu ainda mais três vezes e me chamou a terceira vez pelo nome.
– Isto é coisa do Toc-Mem – foi a primeira coisa que disse. – Você tá andando demais com ele.
O chato, entretanto, estava tão extasiado que sequer se deu ao trabalho de responder.
– Nós vamos pra BH receber um prêmio! – ele exclamou, quase pulando (eu digo quase porque, por mais que ele tentasse saltar, não passava de alguns milímetros do solo).
– Como é que é?
Demorou alguns segundos para eu conseguir ver a minha correspondência na mão dele, aberta, de tanto que ele sacudia a mão em felicidade.
– Você vai receber um prêmio, na quinta-feira, às sete da noite!
Isto apenas me deixou mais intrigado, porque já era quarta, ou seja… Ou ele estava roubando a minha correspondência, ou estava atravancando tudo. Arranquei a carta de sua mão como quem arranca papéis de uma criança malcriada e comecei a ler. A premiação seria, sim, numa quinta às sete – dali a quinze dias! Era de uma universidade de Belo Horizonte para onde eu havia mandado um de meus contos. Havia checado os resultados até havia dois meses, quando tinha desencanado do prêmio. Ora, mas quem diria?
– Como que nós vamos? De ônibus ou de avião? Eu quero ir de avião! Eu quero ir de avião!
Apenas suspirei e tive de aguentar o chato me azucrinando o resto do dia. Por fim, combinamos: iríamos de avião, já que eu nunca passara além da linha da entrega das passagens em um aeroporto, e eu cuidaria das passagens, enquanto ele cuidaria do hotel e do carro.
Passei o próximo mês procurando candidatos para ir comigo, mas o dia era tão cretino e tão em cima da hora que ninguém podia simplesmente largar o trabalho para ir. Desta forma, iríamos mesmo somente eu e o chato… Aproveitei as milhas do cartão de crédito da minha tia e comprei as passagens; escolhi passagens bem separadas – a minha, 5F, a do chato, 24C (de Chato) – e pronto. Não gastei praticamente nada, apenas a taxa de embarque. Se o chato ia comigo, e eu ia ter de aguentá-lo, ele teria de arcar com as consequências.
O dia chegou rápido demais, e lá estávamos nós, no aeroporto (eu havia pegado carona com o meu pai; o chato, eu não sei, mas aparentemente havia chegado cinco horas antes do necessário), o chato carregado de malas, uma câmera pendurada no pescoço, camiseta de São Paulo (para fazer propaganda em BH; chegando lá ele compraria as de lá para fazer propaganda aqui), e eu comentei que só faltava o chapéu do Mickey para ficar completo. Preciso dizer que ele conseguiu achar um em uma das lojinhas do aeroporto?
Por algum milagre, sem qualquer atraso, logo estávamos nós caminhando por aquele túnel de embarque; o chato tirava foto de tudo. Fez até um filminho; só que ele é tão baixo, que todas as tomadas pegaram meu pescoço, meu queixo, minhas narinas e o teto. Ficou horrível.
Fomos para as nossas respectivas poltronas, e ele ficou profundamente chateado que estávamos separados.
– É que o avião já tava lotado, foi quase por milagre que consegui estes lugares.
Caí do cavalo. Fiquei rezando para que sentasse alguém do meu lado, mas pouco depois o avião fechou as portas, e havia ainda muitos lugares vazios. Vendo que ninguém iria mais entrar, o chato se levantou e correu para a poltrona ao meu lado. Droga!
Sua animação era tanta (também nunca havia andado de avião) que ele começou a pular no banco. A aeromoça teve de interromper a sua explicação para fazê-lo parar. Mais uma vez estável, o avião começou a taxiar, e era só emoção para os dois. Enfiei minha cabeça na janelinha, evitando ter de aguentar o ser inaguentável ao meu lado, e fiquei olhando. O avião se ajustou, acelerou e… Decolou! Ah, mas que sensação incrível!
Entretanto, para desfazer minha alegria, logo senti um cheiro extremamente desagradável; uma mistura de pão de queijo, café e ácido. Olhei para o lado; o chato estava ainda mais branco do que de costume (um nível entre o Toc-Mem e a Antártida), com a boca enfiada em um saco plástico. Logo todos torceram o nariz, e a aeromoça veio, pronta para tomar o saco e jogá-lo fora.
– Acho que eu não tô bem… – ele falou e teve de roubar o meu vomitódromo.
A aeromoça perguntou se ele não queria ir ao banheiro, e ele foi, de lado (porque não conseguia passar de frente pelo corredor apertado) e se trancou como pôde. Aproveitei meus momentos de paz maravilhado, olhando a vista de São Paulo.
Pouco depois veio o carrinho de lanchinhos, e eu peguei um biscoito, um saquinho de amendoins e um suco de laranja¹. E, mal havia o carrinho se retirado, um estrondo; todos olharam para trás, assustados, e o chato irrompeu do banheiro, derrubando a minúscula porta.
– Eu não estava conseguindo me virar para abrir! – ele exclamou, como se não fosse culpa dele.
Afundei na poltrona e, quando ele chegou ao meu lado, enfiei a cara novamente na janelinha. Ignorei quando ele falou: “Você não pegou lanchinho para mim? Que absurdo!”. Como raios ele ia comer um lanchinho se até havia pouco estava pondo para fora até o almoço do dia anterior?
Quando aterrissamos, e o avião começou a taxiar, enquanto todos se levantavam para poder sair, ele foi empurrado pessoas de volta para seus lugares para poder usar o banheiro novamente. Eu aproveitei a oportunidade para pular para fora do meu assento e sair o mais rápido possível.
Fiquei observando a vista de Belo Horizonte do aeroporto, depois fui para o guichê para pegar o carro alugado (ele havia colocado no meu nome, como de costume), e já estava vendo todos os pontos turísticos quando ele apareceu, carregando suas três malas de rodinha. Nem fiz questão de perguntar como ele havia conseguido despachar tudo.
– Mamãe é cliente especial – ele respondeu, sem dúvida vendo a dúvida em minhas feições. – Ela roda o mundo muito por causa das convenções de motocicleta.
Eu sempre achei que os motociclistas iam às convenções em suas próprias motos, e não de aviões. Aparentemente, eu estava enganado.
– Ela leva a moto no avião – ele completou. Preferi nem imaginar o quanto ela devia gastar nessas estripulias, especialmente porque isto me levaria ao pensamento: por que o chato mimado não gastava o dinheiro da sua mãe, então, em vez do meu?
Pegamos o carro, um novo Uno vermelho, enfiamos todas as malas (joguei tudo para o lado esquerdo para compensar o peso do meu companheiro), calibramos com um pouco mais de pressão o pneu dianteiro da direita e, com o carro relativamente equilibrado, começamos nossa viagem de 40 quilômetros até a cidade.
A cada segundo o chato tirava uma foto. Da placa a 100 metros. Da placa a 80 metros. Da placa a 60 metros…
– Desse jeito vai acabar a bateria!
– Eu trouxe três reservas.
– E o chip!
– Eu trouxe cinco reservas.
Balancei a cabeça, inconformado.
– Faz algo de útil e coloca a rua do hotel aí no GPS, vai.
– Mas eu não sei usar essa coisa!
– Ai, meu Deus, pra que que você serve, ehm? Não sei nem por que eu te trouxe! – reclamei.
– Não fale assim! Eu sei que você não vive sem a minha companhia!
– Preste atenção, então, que eu não vou explicar de novo como se usa!
E mostrei, enquanto dirigia. O mais difícil foi ficar ouvindo ele falar que era um absurdo eu dirigir e mexer no GPS² ao mesmo tempo, que isso ainda ia causar um acidente, que nós íamos morrer, ou pior, ficar tetraplégicos, que nem aquele cara do super-homem. Eu ia até redarguir que ele tinha ficado neste estado por cair do cavalo, mas achei que não valia a pena e simplesmente continuei a mostrar como se usava o aparelho.
Quilômetros excessivos e milhares de fotos depois, chegamos ao hotel; ficava no meio de um quarteirão, no centro da cidade, e de fora parecia razoavelmente bonitinho.
– Onde é o estacionamento?
– Não sei.
– Você não disse que tinha estacionamento?
– Mas tem!
– Então cadê?
– Não sei.
– Que absurdo!
– Ei, não rouba meu absurdo! Só eu posso usar!
Resolvi dar a volta no quarteirão e, não achando nenhuma indicação que levasse a um estacionamento, resolvi parar na frente do hotel.
– Vai lá e pergunta onde é.
Pouco depois ele retornou.
– É só deixar aí que o cara estaciona.
Enquanto descarregávamos as malas, o chato foi me descrevendo as maravilhas do hotel.
– Tem fitines Center e piscina e ar-condicionado e TV a cabo e internet e…
(Posteriormente descobri que o fitines Center era uma salinha com algumas anilhas, uma esteira, uma bicicleta e um banco. E a piscina, se não fruto dos sonhos do meu amigo baixinho, era ou o terraço quando enchesse de água, ou uma banheira vazia).
Subimos para o quarto (ele havia pedido um duplo com duas camas de solteiro), e eu abri a porta; um cheiro de mofo irrompeu em meu nariz, e eu tive de espirrar. O quarto era velho, daqueles de hotéis de uns 80 anos atrás; o piso de madeira, a colcha parecia ter uma camada de pó de mais ou menos um centímetro, e o ar-condicionado era provavelmente da União Soviética. Abri as cortinas e as janelas para olhar o mundo lá fora; um barulhão de ônibus e carros, gente berrando, e uma camada de uma polegada de sujeira do lado de fora do vidro. Lindo.
– O chuveiro é bom! – disse o chato.
Não podia ficar pensando muito naquilo; tinha de me arrumar para sair. Abri minha mala, tirei minha roupa, pendurei em um cabide para tentar desamassar (“Eles devem ter serviço para passar a roupa”, havia dito o chato, ainda em São Paulo. Diante daquilo, havia desistido desta possibilidade e iria ter de desamassar no corpo) e liguei o chuveiro; um jorro de água quente para o lado, saindo por um buraco, e um fio saindo pela boca normal do chuveiro. Suspirei. Virei o chuveiro até que o jorro de água viesse em minha direção, e não contra a parede, e usei isso para tomar banho – até que a água esfriasse repentinamente. Todo ensaboado, tive de desligar a água, esfriar dois congelantes minutos, até que a água esquentasse novamente, e rapidamente terminar o banho, antes que ela esfriasse.
Corri para me arrumar, enquanto o chato tirava suas coisas para tomar banho de uma de suas malas – uma touca de banho (para que, eu não sabia), um escovão e um patinho de borracha (isto eu tinha uma leve ideia de para quê).
– Não demore! – falei. Tenho de chegar lá às cinco, e já são quatro e meia!
Isto foi o mesmo que dizer “demore”. Ele levou tanto tempo tomando banho que eu até dormi na cama (depois de espirrar um monte); quando acordei, eram cinco e meia, e ele estava passando gel no cabelo, digo, na careca.
– Para com isso e vamos logo! – exclamei. – Estou atrasado!
Ele deu os últimos retoques nos dois fios de sua cabeça e disse que estava pronto; descemos e pedimos o carro, que levou vinte minutos para chegar.
Com pressa, entrei no carro e entreguei o GPS para ele.
– Vai pondo o endereço da faculdade aí – falei, enquanto ligava o carro.
Feliz com o fato de que eu estava confiando nele para alguma coisa, o chato instalou o GPS e pôs o endereço. Neste meio tempo, eu tentava sair com o carro, que estava fraco como um cavalo doente.
– Alguém colocou água em vez de álcool no tanque disso aqui, não é possível! – exclamei.
– Que absurdo! – reclamou meu companheiro.
Finalmente, o carro conseguiu sair, e eu comecei a seguir o GPS. Entretanto, ao contrário do que esperava, ele foi nos levando para um lugar cada vez mais longe.
– Tem certeza de que é aqui?
– Sim, é essa a rua que você falou.
– Mas era pra ser mais perto do hotel, de acordo com o Gugou! Três quilômetros.
– Não sei, essa é a rua que você falou.
Dei de ombros e continuei.
Fomos nos embrenhando cada vez mais na cidade, até que iniciamos uma subida sofrida por um morro com alguns casebres.
– É aqui mesmo?
– É esse o endereço! Você não confia em mim?
– Não – respondi prontamente.
– Que absurdo! Sou seu amigo há tantos anos e você ainda não confia em mim?
Em determinado ponto, o carro simplesmente desistiu de subir a ladeira. Parei e olhei para o meu companheiro. Depois, queimando metade da embreagem, tentei sair; nada. Queimei a outra metade; nada.
– Você vai ter de descer.
– Por que eu?
– Porque você é o ser mais pesado deste carro.
– E como eu vou fazer para chegar lá em cima?
– Vai andando.
– E chegar todo suado na cerimônia?
– Ninguém mandou alugar um carro que não anda!
– Não fale mal das minhas coisas!
– Sai logo! – reclamei, e ele saiu.
O carro arrancou, e eu subi os últimos vinte metros de ladeira; parei lá em cima e fiquei esperando. Cinco minutos depois, ofegando como nunca, chegou o meu “amigo”, vermelho como um pimentão no sol do meio-dia.
– Que… Absurdo… De… La… Deira! – reclamou ele, parando no seu topo com a mão no peito e respirando fundo.
Olhei para onde o GPS indicava, enquanto isso; o local era a cinquenta metros dali, descendo outra ladeira, mas não havia nada – apenas um terreno baldio. O chato entrou, e eu desci, para me certificar; de fato, não havia nada!
– Tem certeza de que é aqui?
– Tenho!
– Não tinha nenhuma rua com o mesmo nome?
– Não, só essa! – ele retrucou.
– Deixa eu ver…
Digitei o nome novamente, e apareceram duas ruas com o mesmo nome, mas em bairros diferentes.
– Eu não acredito! – exclamei. – Eu falei pra você que não era aqui! Ai, meu Deus…
Ajustei a rua e meti o pé no acelerador; na descida, até o chato ajuda.
Corri como louco pela cidade – estava a dez quilômetros do local correto, que era, como eu (e o Gugou) havia dito, a três quilômetros do hotel.
Chegamos à faculdade só com uma hora e meia de atraso. Ainda bem que a premiação oficial era às sete, e o evento para o qual eu havia sido convidado – um tal de bate-papo literário – era às cinco, cinco e meia.
Cheguei pedindo desculpas pelo atraso – mas tudo bem, disse a moça, não tinha problema. Ela me pôs em uma fileira, junto de outros participantes, e o chato atrás de mim, já que ele fazia parte do público. Minha felicidade durou pouco. Logo veio um outro cara, magro, um pouco mais baixo que eu, de óculos, barbado, conversar comigo. Ele iniciou um tópico interessantíssimo: beber para escrever.
– Eu terminei com a minha namorada na segunda-feira – ele disse – e tomei uma dose de conhaque, duas de pinga, sete de vodka, dez garrafas de cerveja, não sei como voltei para casa, acordei na terça com uma dor de cabeça…
Eu tentava manter uma face neutra.
– Você bebe para escrever? Eu só consigo escrever bêbado. Mas nunca usei drogas.
– Eu bebo pouco – respondi. – Quase nada. Nunca escrevi nada depois de beber.
– Ah, mas fica muito melhor depois de beber! Uns anos atrás eu me separei da minha mulher, comecei a beber dez garrafas de cerveja por dia, por dois anos, e…
Vendo que o chato, embora duas fileiras atrás, estava prestando mais atenção do que eu, ele dirigiu o olhar para ele, e logo a conversa se tornou um diálogo apenas entre os dois. Eu aproveitei o momento de distração para ir falar com outro cara que estava ao meu lado. Contudo, pouco depois o chato magro retornou, desta vez falando sobre escritores favoritos.
– O meu é Bukowski. Ele é muito melhor que… (sinto, mas não lembro o nome agora). É um mestre! É impressionante como…
Eu apenas concordava, com cara de paisagem. Na verdade, a minha face poderia ser mais bem descrita pela expressão em inglês “WTF?”, que não necessita de tradução aqui. Quem diabos era Bukowski? Ou o outro desconhecido? Ou o terceiro que ele adicionou? A quem ele estava tentando impressionar? Enquanto isso, os outros letrados concordavam, não sei se porque de fato os conheciam, ou se apenas para poderem pagar de bacanas, mas concordavam. E eu com a minha cara de “Ahm?”³.
O chato, enquanto isso, babava pelo novo amigo. Aparentemente, os chatos se atraem. Logo meu colega se levantou e resolveu se sentar ao lado dos outros, para ser incluído na conversa; eu, enquanto isso, retomei a minha com um jornalista divertido.
O tempo, no entanto, não passava, e as conversas logo à minha frente só se tornavam piores. Vi um cara que fazia psicologia afundando na poltrona, sem ter com quem conversar e apenas se perdendo no meio do assunto. Quando alguém soltou que ia aprender grego para poder ir não sei aonde participar de não sei o quê, eu cheguei a uma conclusão: ou eu era doido, ou eles eram doidos. Como o chato parecia estar adorando, logo percebi que os doidos deveriam ser eles.
Finalmente, a premiação em si começou; quando eu fui chamado para receber o prêmio de segundo lugar, o chato gritou como louco em comemoração. E, quando o encontrei novamente, no meio do cófi-breique, ele, já meio inebriado pelo champanhe, falou:
– Que absurdo! Você devia ter ganhado em primeiro lugar! Aposto que foi comprado!
Olhares faiscantes cruzaram o salão, e eu achei melhor ir embora o quanto antes.
Chegamos ao hotel às custas de uma terceira metade da embreagem (é um conceito quântico, terceira metade), e, exausto, eu fui ligar o ar-condicionado para dormir, já que o quarto estava um forno. Mas quem disse que ele funcionava?
Irritadíssimo, liguei para a recepção; o mensageiro veio, testou os mesmos botões que eu havia testado e falou:
– É, está quebrado, vou notificar a recepção.
Obrigado! Isso eu já tinha feito!!!
Cinco minutos depois, sem notícias da recepção. Decidi ligar.
– Vamos estar vendo o que podemos fazer, senhor, eu já retorno – foi a resposta, depois de cinco minutos de discussão.
Esperei mais um minuto, quase dormindo, quando o homem ligou de novo.
– Nós temos um quarto disponível neste mesmo andar, mas com cama de casal, e um no terceiro andar, com duas camas de solteiro. O que o senhor prefere?
– O do terceiro andar, com certeza! – exclamei.
– Estaremos enviando o mensageiro em instantes, senhor.
A cada gerundismo eu podia sentir uma coronária minha se contrair mais, mas aguentei firme. O chato, enquanto isso, não emitia palavra. O que estava acontecendo? Em condições normais, ele já teria se transformado no bizarro-rulque!
O mensageiro lesmoide (devia ser um mensageiro do tipo telégrafo) chegou dez minutos depois, para ajudar o chato a carregar suas três malas. Tomamos o elevador – que primeiro parou no lóbi, antes de subir de volta – e finalmente chegamos ao novo quarto, que, pasmem, tinha piso frio, chuveiro funcionante e ar-condicionado produzido no ocidente e ainda na década passada. Estavam escondendo o quarto bom desde o começo!
Não pensei muito; liguei o aparelho, dei boa noite ao chato, deitei na minha cama e fechei os olhos, pensando que provavelmente ninguém usava aquele quarto fazia anos.
Contudo, não consegui dormir, apesar da exaustão; ao meu lado, o chato roncava e grotescamente ronronava; o ar-condicionado, por sua vez, fazia mais barulho que o avião e não esfriava de modo algum. Peguei no sono à uma da manhã e acordei às seis com o chato me sacudindo, dizendo que era hora do café da manhã, e que nós tínhamos de ir cedo para pegar pães de queijo originalmente mineiros fresquinhos.
Desci como um zumbi para o lóbi para encontrar garçons zumbis ainda colocando os pratos zumbis na mesa, no meio da escuridão. Tomei o café quase dormindo sentado. O chato, enquanto isso, maravilhava-se com as delícias mineiras.
– Ai, que delícia essa geleia! As coisas mineiras são tão mais gostosas!
Eu tomei a embalagem em mãos e li o produtor.
– É mesmo? – comentei, sorrindo.
– É! Sem dúvida! Muito melhor que São Paulo! As frutas daqui são melhores porque têm menos poluição, sabia?
– Então como você me explica que o produtor é de Taboão da Serra? – anunciei, triunfante.
O chato murchou, mas não durou muito. Dez segundos – e um pão de queijo – depois, ele começou a comentar sobre os seus novos amigos. Tive de aguentar esta conversa chata o caminho inteiro até o aeroporto, não conseguindo ultrapassar 80 em uma estrada de 100 quilômetros por hora.
Quando lá chegamos, devolvemos o carro, e o chato foi fazer o chequim; ele reclamou a fila inteira, reclamou de todos os atendentes e, especialmente, reclamou quando, falando que sua mala era frágil – aquela mala que levava os apetrechos de banho, inclusive o pato de borracha – colocaram o adesivo ao contrário, viraram-na de qualquer jeito, e ela foi batendo em todos os postezinhos que a ajudavam a acompanhar o trajeto da esteira.
Fomos para a parte onde esperamos o embarque, e eu peguei um jornalzinho de Belo Horizonte para ler. O meu companheiro, enquanto isso, tirava fotos adoidado e reclamava do preço das lojinhas.
– Dutifri nada, isso é tudo enganação!
– Mas ninguém disse que era sem impostos! – respondi.
– Claro que diz! Olha o nome da loja!
– É DuFry, não Duty Free – respondi.
– É uma enganação, isso sim! Um engodo! Aliás, sabe com quem aprendi esta palavra? Com aquele cara lá da premiação! Ele…
E ele desandou a falar do outro. Ai, meu Deus!
Repentinamente, a moça no alto falante anunciou alguma coisa ininteligível.
– Não tô conseguindo entender o que ela tá falando! Que absurdo! Eu vou até o guichê perguntar.
Eu só balancei a cabeça; ela havia falado algo sobre o nosso voo, e, olhando o painel, logo descobri que ele estava com uma hora de atraso. Só pude ouvir, à distância, um “Que absurdoooo!”.
Resolvi me esconder do chato e só apareci novamente quando informaram pelo alto falante que o embarque iria iniciar imediatamente – com uma hora e meia de atraso. O chato chegou pouco tempo depois, bufando – devia ter brigado com alguém havia pouco.
– Você não acredita que absurdo – ele começou. – Eu estava… Capitão Herculano!
Nova expressão de “WTF?”.
– Ali, ó! – ele falou, nem um pouco discreto, puxou minha camisa, virou meu tronco (porque não alcançava meu rosto) e apontou para um cara atrás da fila, que fingiu que não viu e virou o rosto.
– Quem é esse?
– O ator da novela!
– Ele é capitão?
– Não, ele faz o personagem Capitão Herculano!
– E qual é o nome dele?
– Não sei! Droga! Queria tanto uma foto com ele!
– Vai lá e pede.
– Mas como eu vou pedir se eu não sei o nome dele?
– Então não pede.
– Já sei! Fica parado aí!
Para conseguir tirar fotos do capitão, ele se postou diante de mim, colocando-se em um ângulo que o alcançasse “sem querer”, e começou a tirar fotos. Porém, o chato era tão baixo que tudo o que conseguia pegar era o teto; em dado momento, resolveu subir em um banco. Da altura correta, apontou a câmera na minha direção, e apertou o botão loucamente.
Um barulhinho, e a câmera desligou.
– Ah, não! – exclamou. – Que absurdo!
Passou a mão em todos os bolsos, mas não encontrou o que queria.
– Minha bateria reserva! Cadê?
– Não tava na mala com as coisas frágeis?
– Não! Eu despachei! Droga! Será que eu consigo pegar?
Senti-me tentado a falar que sim e deixar ele se perder no meio do aeroporto, mas me controlei e falei que provavelmente não.
– E você não tem uma câmera?
– Não.
– Como não? Como você não traz câmera? Que absurdo!
A fila começou a andar.
– Vou tentar tirar com o celular. Peraí. Fica parado aí! Fica!
– Eu não vou parar só pra você tirar uma foto dum cara que você nem sabe o nome verdadeiro!
– Fica parado aí! Fica! Como destrava essa coisa?
Quando ele afinal destravou o celular tâtchi-scrin, eu já estava entregando minha passagem.
– Ei, me espera! – ele gritou e saiu correndo.
Pouco depois, estávamos sentados nas poltronas. Ele à minha frente, em um ponto do avião no qual não havia janela, e eu logo atrás, com a cabeça enfiada na minúscula ventana.
Levou meia hora para o avião taxiar e, depois da fila, decolar, na qual o chato usou infrutiferamente de todas as suas artimanhas para fotografar o ator. Quando finalmente a aeromoça deu a sua explicaçãozinha, o chato se aquietou e ficou olhando no celular as fotos que não conseguira tirar.
A moça teve de falar três vezes para que ele desligasse os aparelhos eletrônicos antes de decolar.
Quando finalmente pôde ligar o celular novamente, ele tentou tirar fotos até acabar com a bateria. Ao acabar, o avião inteiro pôde ouvir um: “Que absurdo!”.
Neste momento, eu tive um insaite sobre o chato. Entendi por que ele não havia usado aquela expressão sequer uma vez no hotel ou no carro: porque ele havia escolhido ambos. Quando ele fazia uma coisa, era inconcebível ao seu próprio ser que ela estivesse errada. Por outro lado, quando eu, ou qualquer outro fazia, sempre poderia estar errado. Daí a expressão. E isso valia até para seres inanimados, cuja bateria não tinha a menor culpa de se extinguir devido ao excesso de uso.
Ele passou os próximos minutos em uma luta cruel de levantar e pedir o autógrafo do ator ou não; por fim, quando o piloto anunciou que ia iniciar a aterrissagem e começou a fazer a curva para passar por cima da ponte Rio-Niterói, o chato não aguentou. Soltou o cinto, rolou por cima dos outros dois passageiros, caiu no chão do avião e gritou:
– Capitão Herculano!
A cena se desenrolou em câmera lenta; o chato pulando; pessoas tentando segurá-lo; o ator se escondendo sob o assento; o avião desestabilizando; e eu engolindo em seco e apertando o cinto.
Um estrondo e um baque; o avião bateu na água. Pessoas gritavam por todos os lados; eu peguei o papelzinho de instruções, abri a porta de emergência, peguei o meu assento e saltei na água. A última coisa que vi foi o chato ainda gritando pelo nome do personagem.
Fomos resgatados pouco depois, e eu fui colocado em um voo direto para São Paulo; o chato, por outro lado, ficou preso no Rio de Janeiro ainda por um bom tempo. Pelo menos, vai poder tirar várias fotos do ator que faz o Capitão Herculano, durante o seu julgamento.
Nota do autor, setembro de 2021: esta história é quase toda verdade. Substitua o Chato pela minha noiva e a minha família, e, logicamente, o acidente de avião, e você terá tudo o que aconteceu. De fato, vimos o capitão Herculano, protagonizado por fosse quem fosse, e minha noiva realmente tentou tirar a foto dele me usando de modelo, mas não deu muito certo. O hotel era realmente ruim; e o uno, de fato, não conseguia subir as ladeiras. Mas tudo bem.
¹ (Nota de 2021) Ah, gloriosos tempos em que ainda serviam lanchinhos nos aviões se você ter de pagar!
² (Nota de 2021) É, gente. Nessa época, a gente ainda usava câmeras e GPS separados do celular. Precisava de bateria e chip para tudo. E não, o GPS não mostrava o trânsito, era uma droga.
³ (Setembro de 2021) Ah, os encontros entre os escritores! Sempre me sinto um peixe fora d’água. Não decoro nome de autores. Não li todos os clássicos que deveria ter lido. Não fiz faculdade de letras! Rsrsrsrs

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais