O Caso Mais Bizarro de Todos
Nota do autor: por mais bizarra que esta história pareça, ela foi baseada em um caso real, ocorrido no Reino Unido e divulgado em Abri de 2025.
– De todos os casos que já trabalhei em todos estes anos, o mais esquisito de todos foi, sem dúvida… O Caso dos Fetiches – Isabella falou.
Estávamos todos jantando em casa; Isabella, eu, e mais um casal de amigos nossos, que já tinham filhos, mas, por serem adolescentes, haviam ficado em casa.
– Parece interessante – disse Amanda, que era médica como Isabella.
– Esse eu não conheço – falei.
E era verdade. Eu trabalhei com Isabella em boa parte dos casos e vou dizer que poderia listar diversos casos esquisitíssimos, mas deste, eu não me lembrava. A não ser que ela usasse um nome diferente do que eu usava para identificar os casos.
– É aquele do pelúcio?
– Não, esse eu chamo de caso do pelúcio, mesmo.
– O das joias do faraó? Do conde Drácula? Do Frankenstein?
– Nenhum deles, André.
– Deixa ela contar, pelo amor de Deus! – falou Amanda.
– Está bem, está bem – falei, vencido.
Ela deu tapas na minha mão.
– Chateado em saber que sua esposa tem uma vida que não envolve você?
– Nunca imaginei que isso seria possível – falei, sorrindo.
– Esse caso precisa de um certo sigilo – Isabella falou. – Por isso que acabei não comentando. Foi um escândalo, na verdade. O hospital conseguiu abafar. Mas a coisa ainda está se desenrolando na justiça, acho que não vão conseguir deixar muito tempo em silêncio.
– Vamos, Isa – disse Rodrigo, marido da Amanda. – Está matando a gente de curiosidade.
– Bom, tudo isso foi uns dois, três anos atrás. Eu estava para sair do plantão do IML, quando chegou um novo paciente. Um homem de um setenta e poucos anos, tinha sido encontrado em casa, morto. Veio para descobrirmos o que tinha acontecido exatamente. Como já estava tarde, a minha colega, Gabriela, assumiu o plantão.
“‘Pode deixar, Isa, eu faço a autópsia dele’, ela falou. ‘Tem certeza? Quer ajuda?’, eu respondi. ‘Não, pode ir. Eu vou jantar e já faço’. Bem, eu fui para casa e, no dia seguinte, estava de volta para o trabalho. Eu fui checar os relatórios e parecia tudo certo: ela tinha feito a autópsia do homem, que tinha morrido aparentemente de um infarto. Fiquei curiosa, porque, você sabe, eu sempre gosto de olhar os pacientes para ver se consigo inferir algo apenas de olhar, e fui ao setor de armazenamento, onde eles ficam enquanto aguardam a liberação e transporte. Aquela coisa de filme, sabe? Gavetas e tudo mais. Puxei a gaveta e… Bom, vocês não imaginam o que eu encontrei.
– Já sei – falou Amanda. – Tinham trocado os mortos!
– Ele estava vivo! – arriscou Rodrigo.
– Tinha rejuvenescido, tipo Benjamin Button! – tentei eu.
Isabella riu.
– Não, nada disso. Ele estava com uma máscara de couro, estilo tiazinha.
– Como assim?! – exclamou Amanda.
– Ele tinha morrido na cama? – disse Rodrigo.
– Pois é, foi exatamente o que eu pensei. Aquele clássico, né? Acha que é meninão, toma remédio, e na hora do vamos ver, o coração não aguenta. Mas tem uma coisa muito esquisita nessa história. Alguém consegue perceber o que é?
Os outros ficaram em silêncio. Eu arrisquei:
– Por que ele estava usando a máscara ainda no armazenamento, se ele deveria estar sem roupa nenhuma?
– Exatamente! – exclamou Isabella, no que eu sorri de satisfação por ter acertado. – Por que tinham feito toda a autópsia e deixado a máscara? Aquilo simplesmente não fazia o menor sentido. Então, algumas hipóteses passaram pela minha mente. O que vocês acham?
– Ele tinha uma amante, que foi no necrotério no meio da madrugada! – Amanda falou.
– Admirei a imaginação – falei.
Todos rimos.
– Não, não foi isso.
– Uma assassina vingativa que deixa como marca uma máscara de tiazinha no necrotério! – falou Rodrigo.
– Isso aí daria um livro. Olha aí, André, que tal você escrever algo assim, em vez de ficar escrevendo aquelas histórias mirabolantes sobre mim?
– Ah, vá, Isa. A realidade é tão mais legal!
– Nada pode ser mais legal que uma serial killer do fetiche. Tiazinha da morte – disse Rodrigo.
– São boas hipóteses. Mas não. Eu resolvi, então, dar uma olhada no livro de entradas da madrugada. Tinha sido uma madrugada tranquila, não tinha chegado nenhum caso novo, e não tinham registrado a entrada de ninguém. É claro, é possível que alguém tivesse entrado escondido para zombar dos mortos, mas não é mais tão fácil fazer isso como era antigamente.
“Para poder descobrir a minha hipótese verdadeira, eu precisava falar com o técnico de autópsia que estava na noite”.
– Espera, Isa. Você está escondendo informações. O que mais você viu no cara além da máscara? – eu falei. – Tenho certeza de que tinha mais alguma pista escondida que você não está falando, só para a gente ficar surpreso com a sua descoberta.
– Muito bem, vou falar exatamente o que eu vi. Um homem de 72 anos, sem aliança, com abdome flácido, de quem perdeu peso nos últimos meses. Tinha unhas bem conservadas, a barba bem feita, assim como o cabelo. Parecia um homem que cuidava bastante da aparência. Anéis de colesterol ao redor das írises, mostrando que, de fato, a morte por isquemia miocárdica fazia sentido. Algumas varizes nas pernas, mas nada mais chamativo além disso. E uma prótese peniana.
Amanda engasgou nesse momento.
– Como é?
– Exatamente isso.
– Mas isso… Ahm… Como funciona?
– Tem dois tipos, basicamente. Uma que fica ereta o tempo todo, outra que você precisa encher na hora de usar.
– Você tá de brincadeira – falou Rodrigo.
– Aquela velha piada de que não conseguem fechar o caixão, sabe? – eu comentei. – Se Jonas estivesse aqui, rapaz, o tanto de piada pronta que ele teria…
– Não estamos longe da minha hipótese da amante, então! – disse Amanda.
– Mas, isso funciona com ele morto?
– Por que não funcionaria?
– Enfim, agora, vocês têm todas as informações que eu tinha. Com isso, eu fui atrás do técnico da noite, que tinha o costume de sempre ir beber no bar do outro lado da rua ao final do plantão. Sentei com ele lá, onde ele estava tomando uma cerveja, e perguntei…
– Calma lá. Que horas eram isso?
– Oito da manhã.
– Oito da manhã e o cara tava tomando uma gelada? É isso mesmo?
– Quando você trabalha no turno inverso, o café da manhã é o jantar – ela falou.
– Não é à toa que vocês ficam todos malucos… Imagina, trabalhar no necrotério de madrugada, eu, ehm – concluiu Rodrigo.
– Não julgo – falou Amanda, que era cirurgiã cardíaca. – Já dei muito plantão noturno. A vontade é essa mesma.
– Bom, eu me sentei lá e perguntei para ele como tinha sido a autópsia. “Ah, foi tudo bem”, ele disse. “Mas, vocês viram alguma coisa de diferente?”, “Não, nada fora do comum. Foi infarto, não foi?”, “Isso. E a prótese?”, “Prótese? Ah, sim! Que coisa, ehm, doutora? De vez em quando a gente pega uns assim”. Decidi continuar perguntando. “Que horas acabou a autópsia?”, “Ah, você conhece a doutora Gabriela, foi super rápido. Acho que onze horas já tinha acabado”, “E aí? Não chegou mais nada?”, “Não, onze e meia ela me dispensou, disse que ela mesma ia fechar”. “Ela mesma ia fechar?”, eu perguntei, com ar de surpresa, “Sim, sim, a doutora gosta de fechar alguns casos ela mesma. Acho que ela fica treinando para deixar bem bonitinho o fechamento, sabe?”.
– E estava bonito o fechamento? – eu questionei.
– Estava bom, mas nada excepcional. Nada que você não faça em uns quinze minutos.
– Tá bom, Isa, eu não estou entendendo aonde você quer chegar com isso. E daí que ela tinha fechado ela mesma? Qual a sua ideia? – Amanda perguntou.
– Bom, aí eu arrisquei mais. “E a máscara?”, eu perguntei. “Máscara? Que máscara?”, ele respondeu. “Eu fui olhar o corpo”, expliquei, “e tinha uma máscara no rosto dele hoje de manhã”. “Que coisa esquisita!”, ele respondeu. “Ele está lá ainda? Deixa eu terminar minha cerveja, que a gente vai ver”. Ele demorou com aquela cerveja, mexeu no celular, e, quando se deu por satisfeito, a gente voltou para o necrotério.
– Nunca atrapalhe um homem na sua cerveja pós trampo – falou Rodrigo. – Ela é sagrada.
– De fato – eu respondi. – Nada melhor que a cerveja depois de um dia longo. Ou uma noite, no caso.
– Bom, quando chegamos ao necrotério, adivinhem?
– A máscara tinha sumido! – disse Amanda.
– Exatamente! Eu abri o gavetão novamente, e o corpo estava lá, mas a máscara, não. “Que tipo de máscara era, doutora?”, ele perguntou. Eu expliquei, e procuramos por todo lugar, perguntamos ao técnico do dia, e nada. Ninguém tinha visto máscara nenhuma em nenhum lugar.
– Eita! – exclamou Rodrigo.
– Pois é.
– E aí? O que você fez? Conseguiu descobrir quem era o responsável pela máscara?
– Consegui, mas não foi tão fácil assim. Eu tinha a possibilidade de ficar esperando aparecer novamente um mascarado no necrotério, mas, quais as chances? Então, eu tentei ver se aparecia novamente um padrão desses. E eis que, uns dois meses depois, chegou. Um homem de idade semelhante, também com a aparência de ter morrido por isquemia cardíaca. Exatamente igual. Ele chegou às cinco e meia, mas eu dei uma enrolada. Mandei uma mensagem para a Gabriela, falando que tinha chegado, e que eu precisava sair mais cedo, porque tinha combinado um encontro com o André. Ela aceitou sem problemas fazer o caso, depois do jantar, como de costume. Então, eu saí um pouquinho mais cedo, para fazer valer a desculpa. Quando era quase meia-noite, eu voltei para o necrotério, e a sala de autópsias estava trancada. Isso me deixou mais cabreira ainda. É claro que eu não forcei a porta, nem me arrisquei a tentar pedir para alguém abrir, porque seria muito esquisito. Que desculpa eu poderia dar para estar voltando no meio da madrugada para a sala de autópsias?
– Mas, o que é que estava acontecendo lá, afinal?
– Ah, eu abro outra garrafa de vinho se você adivinhar, Amanda.
– Se você abrir outra, eu adivinho!
Eu fui buscar mais uma na adega, e Isabella continuou com a história.
– Eu tinha uma teoria do que poderia estar acontecendo, baseado em algo que aconteceu no Reino Unido há um tempo. Só que, neste caso, era muito, muito mais bizarro do que o que tinha acontecido lá. Então, fui procurar um conhecido meu que conhece os caminhos da deep web…
– O Jonas? Sério mesmo?
– Em carne e osso. Se tinha alguma pessoa que poderia descobrir, era ele. Expliquei o que estava pensando, e ele começou a pesquisar. Levou um bom tempo, mas ele finalmente descobriu o que eu queria, e o próximo passo era somente esperar. Acho que umas nove semanas depois, outro paciente do jeito que a gente queria apareceu. Fiz exatamente o mesmo esquema; deixei a área limpa.
– Mas, espera, Isa – falou Rodrigo. – Aquele paciente lá, o do dia que a sala estava trancada… No dia seguinte ele estava de máscara?
– Ah, não, é claro que não. O nosso perpetrador não iria cometer o mesmo erro duas vezes. Aquilo foi um mero acidente. Então, às onze e quarenta e cinco da noite, Jonas e eu estávamos prontos para ver uma transmissão muito interessante, digna de um cine privê dos horrores.
– Não! – Amanda falou, cobrindo a boca.
– Sim!
– Não, pera, você não quer dizer que… – Rodrigo começou, mas não teve coragem de terminar.
– Querer eu não quero, mas são os fatos.
– Mas quem é que fazia isso? – eu questionei. A ideia era tão, mas tão absurda, que nada fazia sentido na minha mente. – A médica?
– Sim. E o técnico filmava.
– Mas, ele estava envolvido também?
– É claro. O Antunes disse que tinha sido dispensado na madrugada, mas, se ele realmente não tivesse trabalhado a noite toda, ele não estaria tomando cerveja àquela hora, estaria tomando café. Aquilo me deu certeza de que eles estavam aprontando alguma. Por isso mesmo que joguei a isca da máscara, e fiz questão que ele viesse comigo ver. Ele, de alguma forma, avisou a Gabriela de que ela tinha cometido um erro. E ela, mais do que rápido, voltou e pegou a máscara. Ela morava perto do IML, sabe?
– Mas, calma lá – disse Rodrigo. – Ela realmente tava… Fazendo aquilo… Com o morto?
– Filmes, fotos sensuais, tudo o que tinha direito. E tudo era transmitido ao vivo na deep web, em um canal privado e pago. E não era pouco. O pessoal desembolsava uma grana para ver mortos voltando à vida.
– Mas, que tipo de pessoa iria assistir um negócio desses? – eu perguntei, enojado.
– Pois é, tem louco pra tudo. E ela fazia o maior sucesso.
– Mas, Isa… O que você fez?
– Não tinha escolha. Ela não podia continuar com aquilo. Jonas salvou tudo em um pen Drive, e nós enviamos para a diretoria do IML. Eles conseguiram abafar o caso, mas a Gabriela foi demitida e o CRM caçou a sua licença. Agora, até onde eu sei, ela está morando em outro estado, onde trabalha em uma funerária.
– Você tá de brincadeira! – exclamou Amanda.
– Não estou, não. Mas o Jonas continua de olho e, até agora, ela nunca mais fez isso.
Ficaram todos em silêncio, absorvendo o peso daquela história absurda.
– E então, André. Tem algum caso mais bizarro do que esse?
– Definitivamente… Não – eu respondi. E nunca mais eu olharia para uma máscara daquelas da mesma forma.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais