A garota do 7
Tudo começou… Quando tudo havia começado? Eu não sei. Não faço a menor ideia. Aliás, nem ele sabia como tudo havia começado. A verdade é que havia começado, e pronto. É mais uma daquelas coisas misteriosas da vida. Isso aconteceu com um amigo de um amigo de um vizinho meu, e apenas mostra como a vida adora colocar coisas na nossa frente que não podemos ter (como uma loja da Ferrari na frente da sua porta ou uma Daslu de frente para a favela).
Bom, o fato é que este homem – que vamos chamar de X – morava em um prédio, no qual, vez por outra, ele encontrava uma garota que não morava lá. E, obviamente, ele ficou encantado com ela, claro. Não podia ser diferente.
Ele a observava sempre que aparecia, tentava marcar um horário, quando ela chegava, quando ela saía, ficava na porta da entrada conversando com o porteiro só para ver ela passar, se escondia atrás de jornal, coisas desse tipo.
Bom, o que me contaram foi de uma vez que ele abriu a porta do elevador, fora do horário esperado, e pam! lá estava ela. A garota do 7 – como ele passou a chamá-la, já que tinha um namorado no 7 – disse um oi! animado para ele, e o coitado do X ficou tão encabulado que balbuciou, gaguejou, murmurou, tossiu, corou e se curvou, tudo ao mesmo tempo, retrocedendo aos poucos. Como resultado, ele tropeçou e rolou escada abaixo para o subsolo, mas simplesmente desapareceu quando ela foi procurá-lo, para ver se estava bem.
E as coisas prosseguiram ridículas assim. O coitado nunca conseguia falar nada, simplesmente desaparecia quando ela aparecia, ficava apenas observando, observando, observando… Era capaz de saber mais da vida dela do que ela mesma, pelo menos a parte da vida que se relacionava com o seu prédio, entre o róu de entrada e a porta do apartamento. Claro, não sabia seu nome, nem onde morava, nem nada do gênero; apenas imaginava tudo, e em sua cabeça ela era uma modelo super famosa de dia e espiã de noite tentando sabotar o governo de Santa Paula e tomar as plantas do metrô para uma dominação total da cidade. Seu namorado era apenas parte do plano, assim como suas vindas, tudo um truque, e havia toda uma história, fantasias nas quais os dois fugiam juntos em um balão por sobre o Bolo de Sal derrotando caças apenas com metralhadoras, e todas aquelas coisas dignas de filmes, com explosões, xingamentos, muito amor e até trilha sonora.
A verdade é que ele ficou nisso por tanto tempo, sem nunca conseguir falar com ela, embora ela continuasse a insistentemente lhe dar oi quando ele deixava a ponta do cabelo aparecer, por descuido, do canto da parede atrás da qual se escondia, que ela se casou com o namorado, e os dois se mudaram para outro prédio, seja lá onde. Até onde se sabe, eles viveram felizes para sempre, mas o X ficou de coração partido. Por um tempo ainda sustentou histórias absurdas (que poderiam muito bem virar filmes) nas quais ela mudava de ideia e ficava com ele, e tinham os balões e tudo mais, mas quando tudo se provou impossível de acontecer, ele ficou lá, com a maior dor de cotovelo que eu já vi.
As coisas nunca acabam bem para aqueles que ficam apenas observando…
Mas agora ele já está todo animadinho de novo, porque uma certa Garota do 11 surgiu… Nem quero ver no que isso vai dar…

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais