A raça ariana
É, lá estava eu, mais uma vez, sentado em uma cadeira pequena, quente (ainda que acolchoada e quase confortável), tentando achar uma posição aceitável para alguém do meu tamanho naqueles assentos de crianças, enquanto um professor de história explicava a história das olimpíadas. Eu poderia ter dormido umas cinco, seis vezes (claro, iria acordar com uma dor nas costas que não estaria no gibi), mas me mantive firme, prestando atenção (ou quase) ao que ele falava.
Nas olimpíadas de 1936, Hitler mandou seus “exemplos perfeitos de humanos”, a raça ariana, para competir nas olimpíadas, e eles, devo admitir, conseguiram resultados assombrosos (arremessaram uma lança a quase 72 metros! Eu não consigo tacar ela nem a três!), mas, ainda assim, perderam para os negros, provando que a ideia de raça perfeita estava errada. Hitler saiu comendo o chapéu e queimando o bigodinho de raiva.
Foi quando me perguntei: “O que teria acontecido se Hitler tivesse ganhado a guerra, se estivesse hoje – velho, sem cabelos, mas com o bigodinho – no poder?”. Mais: imaginei como seria uma conversa com um Hitler do futuro, criando seus próprios “seres perfeitos”.
– Also, hier sind die Männer, die ich entdeckt habe, um zu entwickeln, wärend die Leistung…
(Opa, esqueci a tradução…)
– Muito bem, aqui estão os homens que eu inventei, para que se desenvolvam, enquanto o desempenho é totalmente garantido…
– Ei, espera um pouquinho, seu Hilter. Como é o esquema aqui?
– Presta atenção que eu só vou explicar uma vez! Aqui estão os homens que eu criei, desenvolvendo-se.
Casulos como os do filme Matrix, como de romances de Aldous Huxley, estendiam-se indefinidamente, tomando um gigantesco corredor branco, com suas luzes vermelhas, dispostos na vertical, o interior contendo um homem branco como leite, com eletrodos implantados em seu peito e cabeça.
– Decidimos que a idade ideal para um ser humano é exatamente os 25 anos. Acabaram-se os problemas de crescimento, de modificação do cérebro, dos comportamentos, mas ainda não começaram os problemas de adultos. Além disso, nesta idade o metabolismo ainda é acelerado, o que os impede de engordar tão facilmente, perfeito em uma sociedade perfeita.
– Nada de barriga de chope, então?
– Não.
– E acabar com o estereotipo alemão? É como tirar a bola de futebol e as havaianas dos brasileiros!
– Olha, não reclama ou eu te mando para Auschwitz, está bem?
– Ainda existe?
– É claro, lá estão todas as párias da sociedade, para serem eliminados. A cada leva de cem que conseguimos, matamos nas câmaras de gás. Simples e eficaz.
– Que párias?
– Uns certos infelizes que sobreviveram, que não pertencem à raça ariana, ou então algumas anomalias genéticas que aparecem, de vez em quando, uma vez a cada duzentas milhões.
– Uhm… – murmurei.
– Pois bem, voltando à minha explicação. A recombinação genética permitiu que todos tenham cabelos louros, olhos azuis, nariz perfeito, corpo de Adonis, físico de Aquiles. Estimulamos seus cérebros desde pequenos para que aprendam tudo em menos de um ano de treinamento intensivo, no qual estes eletrodos que vê à sua frente criam as ligações entre os neurônios, implantando todo o conhecimento necessário.
– Tudo?
– Absolutamente tudo. Todos são inteligentes, todos têm conhecimentos filosóficos, biológicos. Eliminamos lixos inúteis como televisão e aqueles programas que filmam pessoas dentro de uma casa, de modo que eles não têm qualquer conhecimento fútil. E o melhor, veja só.
Ele me levou até uma janela e a abriu, mostrando-me um batalhão de cabeças louras enfileiradas logo abaixo de si.
– Qual é a raça perfeita?
– Ariana! – responderam.
– Quem é o seu imperador favorito?
– Hitler!
– Viu só? Nenhuma diferença de opinião, nenhum pensamento diferente, nada, tudo absolutamente perfeito, a perfeita ordem. O mesmo credo, a mesma religião. Nenhum judeu, nenhum muçulmano, nenhum homossexual, nada. Todos exatamente iguais. Claro, às vezes acontece um erro nas máquinas e um certo infeliz nasce com uns pensamentos um tanto diferentes, mas nada de que Auschwitz não cuide.
– Meu Deus! – exclamei.
Um faxineiro loiro, alto, forte, de olhos azuis, passou por nós.
– E a divisão de trabalho, então? Perfeita. Cada um executa uma tarefa por uma semana. Todos fazem tudo, ninguém tem nenhuma preferência, nenhum tem nenhuma especialidade. Não temos médicos, já que ninguém fica doente, pois podemos prever e controlar com 100% de certeza o que virá a acontecer, e não temos advogados, pois ninguém tem problemas de compras. Tudo é de todos. No final do dia, cada um pega a sua ração de comida e vai para casa, onde moram com uma família pré-formada. Todos os dias saem à noite, para fazerem o que quiserem, beber, dançar, qualquer coisa. Ao som dos sinos, eles voltam. Após dez anos vivendo juntos, eles ganham um filho criado por nós, que deve ser trazido aqui todos os dias para ser educado. E as pessoas só morrem depois dos 150 anos, apesar de não terem envelhecido em nada, pois as células têm uma morte programada para tal data.
– Programada?
– Sim, elas simplesmente se desligam depois de 150 anos de uso. E a pessoa morre. Mas não temos velório, nada de tristeza. Ela é simplesmente cremada, e o carbono das suas cinzas é usado na constituição de diamantes para enfeitar minha coroa.
– Têm festas de aniversário? – perguntei.
– Não.
– Casamento?
– Para quê? Não!
– Bar Mitzvá?
– O quê?!
– Nada não, esquece. Vocês não têm nada?
– Não.
– É tudo igual?
– Sim. Venha ver.
Subimos em um helicóptero (pilotado por um loiro, forte, de olhos azuis, com profundos conhecimentos platônicos), que nos levou em um tour pela cidade de Hitler, com cabeças douradas marchando, trabalhando, todos juntos, ao mesmo tempo, fazendo as mesmas coisas, sem falar nada, sem poder discutir um assunto, por terem a mesma opinião, tendo de, dia após dia, repetir as mesmas frases assustadoras dos mesmos assuntos. Sem conhecimento inútil. Sem fofocas sobre a vizinha. Sem estipulações sobre o tempo. Nada diferente, tudo igual, tudo o mesmo.
E Hitler, riu, satisfeito com sua obra.
– A raça Ariana é a mais perfeita! – exclamou.
– Socorro!! – gritei e gritei.
Por fim, me vi de volta no anfiteatro, apertado, vendo o professor dando a sua palestra. Olhei para o meu lado, onde havia um garoto loiro de olhos verdes. Verdes! Ao meu lado, um japonês de cabelos negros curtos e olhos castanhos. Graças a Deus! Estava tudo normal de novo! Com alívio, ouvi uma garota fofocando sobre uma amiga, ouvi discussões sobre o tempo, sobre como o auditório era quente, sobre como era chata a aula de matemática, acordos e desacordos! Contradições!
Suspirei aliviado. Graças a Deus!
Para que uma raça perfeita e igual, se é errando que se aprende, e fazendo diferente que se sobrevive?
Viva as diferenças!

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais
17 de junho de 2025 @ 16:54
Me pareceu uma utopia socialista com toques de ficção científica, concordo que a diversidade é boa que graça teria se todos fossem iguais, mas discordo totalmente sobre matemática ser chata como engenheiro formado posso dizer que é linda demais.