O Grande Branco
“Eu aprendi algumas coisas na minha escola, quando era bem pequeno. A primeira delas era: sempre fugir quando o chão começa a tremer. Nunca vou me esquecer do meu professor, dando a nossa aula prática: nós, todos escondidos, nos limites exteriores do nosso reino, ele, logo à frente, sacudindo as antenas. Aquela aula teria de ser cedo, pois todos sabiam que, naquele horário, era o caos; o chão treme como um terremoto, e Eles se aproximam: sinal de perigo. Suas antenas sacudiam, ele mexia as patas e dizia: Eles estão chegando.
Não sabíamos exatamente quem eram Eles; não sabíamos de onde vinham, nem para onde iam; alguns diziam que eram montanhas; outros, que eram deuses; os mais ousados, alienígenas. Mas não importava. O chão tremia, a terra escurecia, e Eles chegavam. E isto significava morte para muitos de nós, que não eram rápidos o suficiente. Muitos eram esmagados; outros, afogados em inundações. Fúria dos deuses. Alguns, no entanto, tinham sorte, desfrutavam de sua benevolência e voltavam para contar a história, como eu. Alguns, para nunca mais sair do reino.
A minha segunda lição, e a maior de todas, foi sobre o Grande Branco. Ele era um gigante; um gigante maior do que qualquer um dos outros gigantes. Seu hálito era frio; ocasionalmente (durante cada megatremor¹ e mais três a quatro vezes após cada um deles), ele abria seu enorme mesossoma (que é unido ao seu metassoma, até o que os nossos melhores cientistas conseguiram afirmar) e dele saíam pequenos montes, das mais diversas formas, todos gelados. O Grande Branco. Um destino inatingível para todos nós. A fonte de tudo o que necessitávamos. O maior de todos os deuses (embora alguns afirmassem com veemência que, mais do que um deus, ele era um continente, uma terra nova a ser desbravada).
Isto é o que eu me lembro até hoje e que nunca vou esquecer. E o que me fez decidir, desde pequeno, qual seria a minha missão de vida: desbravar o Grande Branco. Eu seria o vitorioso que conseguiria, afinal, descobrir quem ou o que ele era e como obter alimentos a partir dele.
Só não imaginaria que seria tão inesperado.
Eu devia ter, o quê, uns 60 megatremores, e estava com o meu grupo de expedição, buscando alimentos. Havíamos tido sorte grande; o Grande Branco havia aberto seu mesossoma, e dele saíra o grande Deserto Doce e Gelado. Ele aparecia de vez em quando, e, às vezes, quando Eles iam embora, ficava lá por algum tempo. Às vezes, ficava até um novo megatremor; às vezes, um d’Eles voltava e o fazia desaparecer em pleno ar. Mas todos nós sabíamos que aquele era o melhor alimento de todos. Era a nossa chance de alimentar quase todo o reino. Mandei dois voltarem para o reino, para avisarem os outros; eu e meus outros oito subimos até o deserto e caímos em seu interior, por suas rochas brancas e doces, cada uma quase do tamanho da minha cabeça.
E, de repente, um grande tremor; a sombra; e os trovões ecoaram. Um grande flash prateado, e eu vi os montes do deserto serem cravejados por raios, que levavam montes de rochas de uma só vez e meus amigos consigo. Eu me escondi; não sei quanto tempo levou, mas os flashes finalmente pararam. E, repentinamente, eu senti o deserto se mover. Exatamente. Ele se moveu. Eu não me arrisquei, até que senti que estava totalmente seguro. E, saindo do meio das rochas do Deserto Doce e Gelado (que, naquele momento, já estava até quente), escalei e cheguei ao topo do seu monte, de onde olhei para os meus arredores.
Estava escuro, mas isto não me atrapalhava. Eu só sei que, quando vi, não conseguia acreditar: todos os montes que tentávamos escalar, como o Grande Monte Amarelo Redondo, ou o Grande Oceano Branco, as Florestas, as Ilhas Vermelhas, e até mesmo outras terras das quais nunca ouvira falar, todos estavam lá. E, pude sentir, o frio era devastador.
Só podia ser; não podia acreditar. Estava dentro do Grande Branco. Era aquilo; aquele era o mesossoma do Grande Branco, onde ficavam guardadas todas as terras de alimentação. Era isso o que ele era: a terra de todas as terras. O Grande Branco era mais do que um gigante ou um deus; ele era um mundo.
Eu tinha de contar aquilo aos outros. Tinha de voltar para o reino. Mas, como?
Bom, eu sabia que várias vezes a cada megatremor o Deserto Doce e Gelado surgia para nós. Era a minha chance. Eu teria de esperar, até que a oportunidade surgisse; então, escaparia e voltaria para casa.
Mas a minha curiosidade era maior; eu tinha de conhecer o Grande Branco. Eu tinha de explorá-lo, ver mais a fundo o que ele era.
Não hesitei; saí e caminhei por seus longos caminhos esbranquiçados, ladeados por abismos gigantescos que poderiam me jogar no meio das florestas e das ilhas vermelhas lá embaixo. Tentei guardar a localização de tudo; deixei o meu rastro, para que equipes futuras tivessem facilidade em encontrar tudo.
No entanto, o Grande Branco logo começou a soltar o seu hálito frio, e eu já não mais aguentava; tive de voltar. Entrei novamente no Deserto Doce e Gelado e me embrenhei entre suas rochas, onde não seria tão frio e onde eu poderia me alimentar sem dificuldades.
O novo tremor parecia nunca chegar. Mas, ao que pareceram séculos depois, ele chegou, e eu senti o deserto se mover; logo, a luz voltou, e com ela o ar quente; pude sentir que as suas rochas logo começavam a se esquentar. Os flashes, os pedaços de deserto que desaparecem, o tremor, e logo o silêncio; era a minha chance. Fugi do meio das rochas, escalei seus contornos e desci para as Planícies Cinzas; desci pelo grande Paredão Branco, cheguei às Planícies Brancas e corri pelos seus veios acinzentados. Porém, quando achava que chegaria sem dificuldades ao reino, senti o tremor; Eles estavam chegando.
Não havia para onde correr; o Grande Vão Escuro, que ficava abaixo do Paredão Branco, estava tão longe quanto a entrada do reino, e eu não tinha onde me esconder dentre os veios da Planície Branca. Encolhi-me; tinha de contar com a benevolência dos deuses.
Foram momentos de puro terror. Os trovões, o tremor; pude ouvir o barulho de uma chuva torrencial, daquelas que frequentemente caíam nas Planícies Cinzas, e um pouco caiu, também, nas planícies brancas. E, por fim, mais tremores, e um d’Eles desapareceu. Eles haviam sido benevolentes.
Corri como nunca até o reino e procurei a Rainha; mas ninguém queria me acreditar. Mesmo sabendo do meu desaparecimento e da morte dos meus colegas, ninguém conseguia acreditar que eu havia, de fato, penetrado o Grande Branco, por mais que eu descrevesse o seu interior, com todos os detalhes.
– Então me dê uma chance, ó majestade! – exclamei. – Preciso de uma equipe e eu vou provar que é verdade. O Grande Branco é a resposta para alimentar todo o nosso reino!
No começo, acharam que eu era louco; no entanto, depois de inúmeros megatremores, quando achava que nunca mais conseguiria, a Rainha se compadeceu da minha insistência e consentiu. Selecionou uma equipe de colegas velhos – todos os mais velhos do reino, que provavelmente logo morreriam – e nos enviou com equipamento sucateado, mas eu não tive medo. Aquela seria a minha oportunidade. Iríamos conquistar o Grande Branco.
Antes do próximo megatremor, envoltos pela escuridão, partimos; cruzamos no silêncio da eterna noite as Planícies Brancas, escalamos o Paredão Branco e ficamos de prontidão. Seria uma tentativa arriscada; teríamos de adentrar o deserto entre um tremor e outro.
O megatremor; a claridade; Eles. O deserto surgiu; pudemos sentir seu aroma. Os trovões, os flashes, mais tremores, e o mais puro silêncio.
– Vamos, vamos! – gritei para a minha equipe, e corremos.
Conseguimos entrar; escondemo-nos o mais fundo que pudemos em suas rochas, rezando para que Eles não vissem. E, depois de uma espera longa e aflitiva, quando eu achava que os deuses não sorririam para mim desta vez, um novo tremor, e o deserto se moveu. Logo estávamos no interior do Grande Branco.”
Parei um pouco; olhei ao redor, para aquela pequena classe de futuros aventureiros, com seus olhos brilhando, suas anteninhas sacudindo, ansiosas pelo que aconteceria.
– E então? – um dos meus aluninhos perguntou.
Deveria ser a décima vez que eu contava a mesma história para aquela classe, mas eles simplesmente não se cansavam. Eu era um verdadeiro herói.
– Não foram todos que sobreviveram. Dois não resistiram ao frio do Grande Branco, e um caiu no abismo dentre os caminhos brancos. Mas nós retornamos em sete e contamos tudo à Rainha. Agora, fazemos incursões periódicas ao Grande Branco, como os senhores farão, daqui a alguns megatremores.
– E professor… O que é o Grande Branco, afinal de contas?
– Nós não sabemos ao certo. Eu gosto de pensar que ele é o Grande Continente de todos os Continentes. E eu gosto de chamá-lo de… Geladeira.
Eles bateram palmas; eu sorri.
– Eu já não estou mais em idade de entrar nestas aventuras, especialmente depois dos meus ferimentos nas expedições ao Grande Branco. Por isso, eu lhes pergunto: quem dos senhores será o primeiro a desbravar o Quadrado Branco, de onde saem os continentes quentes?
– Mas, professor, todos dizem que isso é impossível! Muitos morreram tentando! – disseram, em coro.
– Para um bom desbravador… Nada é impossível! Nota do autor, setembro de 2021: a ideia desta crônica surgiu de uma premissa: como seria o mundo visto pelos olhos de uma formiga? Cada vez que a leio, gosto mais.
¹ Megatremores são aqueles períodos do caos pelo qual definimos o nosso ano, quando tudo se clareia, o chão se movimenta mais, e Eles andam pela Terra.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais