Censura ou crime?
– Isso é uma das coisas mais bizarras que eu já vi.
Eu dei um pulo da cadeira onde estava; Vanusa, para variar, estava atrás de mim, olhando o que eu fazia por cima do meu ombro. Na ocasião, eu estava vendo um vídeo que minha esposa tinha acabado de me mandar, de um certo filme que está na Netflix e outras plataformas já desde 2017, mas que agora começou a causar furdunço por causa de uma cena explícita de pedofilia.
– Fala sério, Vanusa, você se teletransporta ou fica invisível?
– Faz alguma diferença para você?
No fundo, não, mas eu ficava curioso mesmo assim.
– De qualquer forma, o que você acha disso? – ela me perguntou, claramente nervosa.
– Olha, para ser bem sincero, a cena é bisonha, mas eu não sei absolutamente nada sobre este filme!
– Bem, de forma resumida, esse cara que abusa das crianças acaba se tornando diretor! E ainda termina o filme entregando os canudos e formatura e dando tapa na bunda das crianças!
– É, isso parece realmente muito estranho.
– É absurdo!
– Mas, não é tratado de forma irônica, Vanusa? Tipo, não é a intenção do filme? Ser uma comédia?
– Você iria achar legal se tratassem um estupro de forma irônica ou como uma comédia? Um latrocínio? Um ato racista? Antissemitismo? Por que justo o abuso sexual de crianças é tratado de forma tão leviana?
– É, eu não tinha pensado por esse lado…
– Nada justifica! Nada! – ela bradava, e eu juro que podia ver fumacinhas saindo pelas suas orelhas.
– Olha, estava vendo aqui, parece que é baseado em um livro…
– Que é para maiores de idade! Mas o filme é para 14 anos!
– Você acha que deveriam ter feito como uma classificação maior?
– Sem dúvida alguma!
– Bem, parece que eles já definiriam que vão mandar tirar o filme das plataformas – comentei, lendo outras notícias sobre o assunto.
– Pois demoraram! Isso não deveria nem ter entrado no ar! É um crime!
– Mas, Vanusa, será que isso não é algum tipo de censura? Quer dizer, a gente não deveria ter o direito de livre expressão?
– De que lado você está, ehm? – ela questionou, furiosa.
– Só estou agindo como Sócrates. Perguntando. Eu nem vi o filme e sei pouco ou nada de filosofia e direito. Eu realmente não entendo muito disso, e, bem, você é uma antropóloga interplanetária, entende com certeza melhor do que eu.
– Você tem o direito de livre expressão até o momento em que você comete um crime! Eu já te dei exemplos antes de coisas que são crimes! Não dá para fazer essas coisas e sair alegando direito de livre expressão! Foi assim que Marte caiu, lembre bem!
– Mas, olha, a gente tem alguns filmes e livros que tratam do assunto, veja “Tess dos D’Uberville”, um clássico, e…
– Mas não dá pro vilão se dar bem! Quem faz isso se dá mal! É assim que tem que funcionar, criminoso tem que ser tratado como criminoso! Não dá para passar a mão na cabeça e ainda promover o sujeito! Ah! Quer saber, eu vou pra Plutão, esfriar a cabeça!
E, com isso, ela desapareceu.
É, talvez ela se teletransporte, mesmo. Como será que ela faz isso?

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais