Funcionário Fantasma
O despertador tocou às cinco da manhã; eu desliguei, levantei-me e fui ao banheiro. Fiz xixi, olhei notícias no Instagram, lavei o rosto e… Meu reflexo parecia meio azulado.
Deve ser o sono, pensei.
Enxaguei o rosto de novo, esfreguei os olhos e… Continuava azul.
Mas que coisa!
De repente, uma coisa azul pulou do espelho, e eu só não gritei para não acordar a casa inteira.
– Vanusa! Como… Como você fez isso?
– Ah, nem adianta tentar explicar, você não iria entender. Vocês nem conseguiram nomear todas as partículas subatômicas, quem dirá dominar a quinta dimensão e as fatorações de probabilidade quântica?
Meu Deus do céu, quem merece física àquela hora da manhã?
– Mas, por que, Vanusa? Por quê? Era só você me esperar na mesa da sala, preferencialmente depois de eu ter feito um café!
– Fique feliz que eu esperei você acordar.
Soltei um bocejo de desgosto e desci as escadas com ela no meu encalço.
– Fala então, Van-van. O que o você quer?
– Van-van?
– Ué, você me vê dormindo, me vê me trocando, fazendo xixi, tomando banho… Temos intimidade suficiente para apelidos, não?
– Van-van… Taí, gostei.
Depois de fazer o café, ela se sentou diante de mim, desta vez com a caneca “Melhor antropóloga interplanetária da galáxia”, tomando sabe Deus o quê.
– Então, algum motivo para você surgir do meu espelho como se fosse um fantasma?
– Fantasma! Exatamente! Ah, é por isso que eu gosto de você, você sempre pega as referências!
Revirei os olhos.
– Do que você está falando?
– Dessa notícia aqui! Dos funcionários-fantasma do seu presidente.
– Nada de novo – falei, tomando um gole de café e dando de ombros.
– Viu! Essa atitude! Essa atitude!
– O que tem?
– É isso que perpetua essas coisas! Como o comentário dele! Disse que, se fossem investigar ou condenar ou seja o que for por isso, teriam de condenar toda a câmara, senado, enfim, esse circo aí que vocês, terráqueos, chamam de governo democrático.
– Ah, Vanusa… Se eu fosse ficar chateado ou irritado toda vez que houvesse denúncia de corrupção… Sabe, aqui em São Paulo, houve uma época em que a gente teve um político cujo slogan era “Rouba, mas faz”.
– Isso é bizarro!
– Bizarro mesmo é eu ter saudade disso, porque, atualmente, eles só roubam e, quando fazem algo, só pioram as coisas. Estou no ponto de achar que seria melhor só roubar e não fazer nada.
– Tá, deixando a sua desilusão política de lado… Me explica uma coisa… Como é isso de funcionário fantasma? Eles contratam mortos?
– Não – falei, terminando meu café e rindo da ideia. Contratar mortos! Parecia um livro de um russo maluco¹! – Eles contratam uma pessoa que nunca comparece ao trabalho. E o salário dela… Bom, não sei se desviam, se pegam uma parte, se a pessoa realmente recebe… Acho que tem muitas variações. Talvez dê para fazer uma rachadinha fantasma, se bobear.
– Gente, vocês são muito criativos. Sério, muito. É impressionante a quantidade de formas que vocês encontram para ganhar dinheiro sem trabalhar. Se vocês dedicassem toda essa criatividade para coisas úteis…
– A gente iria dominar Vênus?
Ela riu.
– Não, isso nunca. Vocês estão a anos-luz disso. Tadinhos – ela falou, dando-me tapinhas na cabeça. – Mas poderiam evitar terminar como Marte.
Ela terminou sua bebida, checando notícias na internet, enquanto eu abria meu laptop.
– Hora de escrever uma crônica?
– Exatamente.
– Vai escrever sobre mim?
– Talvez.
– Gostei da ilustração, por sinal. É assim que você me vê?
– Sim. Por quê, não é assim que você é?
– Não, mesmo – ela disse e desapareceu na sua quinta dimensão. Deixando-me, claro, com mais uma crise existencial.
Precisaria de mais café.
¹ Antes que me acusem de xenofobia, Nicolai Gogol escreveu um livro chamado Almas Mortas, em que um homem comprava os direitos a escravos mortos. O que ia fazer com eles, ninguém sabe, porque o autor ficou tantã e tacou fogo no manuscrito!

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais