Dia de chuva
Como dizia Suassuna, não há graça alguma em contar uma história de sucesso. As pessoas ficam entediadas se você conta apenas coisas boas. Há muito mais graça na desgraça e, por isso, aqui se dizgraça.
Era um dia de chuva. Vou dizer que há muito não via um tempo como este em São Paulo, ao menos, não no inverno. Mas eu já estava preparado, pois no dia anterior havia chovido, então, deixei separada uma roupa reserva para usar depois que chegasse ao serviço.
Com o guarda-chuvas, uma jaqueta repelente à água, uma malha, uma camisa, uma calça jeans e uma bota de neve (que não era impermeável), pus-me a caminho da estação de trem. Primeira parte, ok; tudo bem, havia uma inundação reversa vinda da boca de lobo e eu encharquei minha bota já nos primeiros passos, mas eu estava preparado para isso.
Chegando à estação, via à distância um trem parado – milagre! Mas, nem adiantava correr, pois eu nunca chegaria lá a tempo de embarcar. Resignado, passei meu último bilhete para entrar na estação, desci as escadas e…
Uau! Tinha um trem parado lá! Corri para dentro, pegando o primeiro vagão e, depois, segui adiante até o vagão da frente – era o melhor para baldear para o metrô.
Porém, algo estranho: luzes apagadas, com só as luzes de emergência acesas. Todos quietos, cada um em seu celular. Parecia estranho, quiçá filme de terror, mas eu sou um bom paulistano, e se tem uma coisa que eu sei, é: nunca deixe seu lugar no vagão. Especialmente do trem, que demora para vir de novo.
Minutos se passaram; a chuva continuava. Finalmente, alguém se dignou a nos informar, em uma voz abafada, metálica e que poderia muito bem ter sido em árabe, de tão incompreensível, que tinha acontecido alguma coisa em algum lugar e, por isso, o trem ia sair com atraso. Algo como 40 minutos.
Dei de ombros. Ok, vou chegar atrasado, mas estou no trem, estou parcialmente seco e estou lendo meu livro. Sem estresse.
Depois de 25 minutos de espera, afinal, um guarda começa a passar, ordenando que todos desembarquem, porque aquele trem não vai partir.
A esperança é a última que morre; pessoas embromam para sair (“Nunca deixe seu lugar no vagão!”), mas, por fim, conformamo-nos e saímos. Um novo trem viria – mas, quanto tempo ele levaria? Quão cheio estaria? Quanto eu demoraria para chegar à próxima estação?
Olhei para o céu; a chuva havia parado, restando apenas respingos. Seria melhor arriscar ir a pé, ou correr o risco (certo e inexorável) de entrar às custas de ficar como uma sardinha em lata? (Se bem que acho que até ela teria mais espaço do que eu).
Decidi arriscar; poderia ir a pé até a próxima estação, tanto pela marginal, quanto pela ciclovia da marginal, mas, o quão longe seria, e quanto tempo eu levaria? Havia um transporte mais rápido, não havia? Um Uber, um táxi?
É claro que não. Demora e o preço fica estratosférico em dias de chuva (chega a custar um bitcoin por viagem, sem brincadeira). Assim, saí da estação, peguei uma bicicleta do Itaú (meu transporte usual até a estação de metrô da Faria Lima) e segui pela ciclovia.
Nota: respingos a baixa velocidade são apenas respingos. À velocidade mais alta, eles se tornam chuviscos. E, em uma bicicleta, é uma chuva fraca. Mas, tudo bem: mochila nas costas, guarda-chuvas preso entre a mochila e minhas costas, uma mão segurava o capuz do meu casaco quase repelente, a outra segurava o guidão, e eu fui adiante.
Até a metade do caminho, quando São Pedro decidiu puxar a descarga.
Sim, uma tempestade. E eu estava de bicicleta.
Você poderia pensar: por que não pegou um Uber? Bem, já expliquei do preço, mas, afora isso: onde deixaria a bicicleta? Quanto tempo esperaria? Quanto me molharia esperando? E, lógico: que graça teria em contar essa história, meu caro Suassuna?
Assim, fiz o que toda pessoa (quase) sensata faria: abri o guarda-chuva e segui em frente.
Fiquei pensando o que as pessoas nos carros ao lado diriam, me observando, sob a chuva, a calça encharcada até os bolsos, as botas parecendo pés de patos, a água escorrendo pela mochila e pelo casaco atraente de água, eu inclinado sob um guarda-chuva e a um passo de usar um snorkel.
Por fim, cheguei à estação: quase tão molhado como se tivesse mergulhado no rio, mas cheguei.
Problema: tinha gastado minha última passagem no trem.
Solução: comprar passagem no aplicativo.
Desenrolar: comprei 10 bilhetes.
Problema: não queria atualizar o aplicativo.
Solução 1: sair e entrar do app. Não funcionou.
Solução 2: ativar e desativar a internet. Não funcionou.
Solução 3: comprar um bilhete novo no caixa.
Problema: não aceita cartão.
Solução: usar dinheiro.
Problema: só tenho 3 reais, e a passagem custa 5,70 (quem anda com dinheiro, meu Deus?).
Solução: sacar dinheiro no caixa eletrônico.
Problema: o caixa eletrônico não está reconhecendo minha digital.
Solução: fazer um dedo de silicone com a minha digital. Onde será que eu encontro um fornecedor de dedos de silicone?
Sacudi a cabeça. Não, de onde que isso ia ajudar em alguma coisa? Tentei limpar o dedo, tentei limpar o sensor, fui novamente, a tela avançou, mas, no fim, não queria reconhecer a minha digital de forma nenhuma, e na hora em que ia me entregar o dinheiro, fui negado por não ser eu mesmo. Imaginei que teria alguma importante lição filosófica deste fato e que se eu fosse uma pessoa mais elevada, certamente aprenderia com isso e poderia contar depois como uma anedota espirituosa a estilo Cortella.
Porém, tudo o que consegui foi pensar em um palavrão estilo Clóvis de Barros e na crônica que vos escrevo.
Mas não, eu não tinha nadado pela chuva de bicicleta para desistir agora!
(Você pode se perguntar: por que, seu idiota, você não usou o cartão para sacar o dinheiro? A resposta é simples: quem anda com carteira ou cartão hoje em dia, se você tem tudo no celular? Pois é, aí está um bom motivo. Sou idiota, mesmo).
Voltei desanimado, desmotivado, sem vontade de cantar uma linda canção para o caixa, pensando no que fazer; faltavam 5 minutos para as sete horas, eu precisava estar às 7 na Mooca. Pensei seriamente em mandar uma mensagem ao serviço dizendo: fui derrotado fragorosamente. Nos vemos amanhã. Au revoir!
Mas, aí, lembrei-me dos diversos pacientes que estavam fazendo gesso para pé torto comigo, que já tinham tirado o gesso, e para os quais não fazer o gesso naquele mesmo dia representaria um atraso enorme no tratamento.
(Também pensei que isso ia complicar bastante minha agenda e a fila de espera, mas vamos usar o outro motivo mais nobre).
Assim, entrei novamente no aplicativo do banco e comprei uma nova passagem; quem sabe? Se ao menos uma atualizasse no aplicativo, já seria o suficiente. Já desesperançoso, cansado de ouvir a musiquinha da Estação Faria Lima Pag Bank pela vigésima vez (pã-rã-rã-rã-rã-rããã tará-jubiju… ou algo assim. Não sou bom em transformar melodia em onomatopeias, foi mal), abri o aplicativo e…
Ah! Os onze bilhetes apareceram! Finalmente, venci! Venci a chuva, o trem parado, o sistema! Consegui! Consegui!
Poderia ter saído dançando na chuva, mas me faltava estilo (e também chuva, porque eu estava dentro da estação e já tinha me molhado o suficiente).
E esta história acaba aqui, comigo cruzando a catraca para finalmente pegar o metrô para o trabalho. Não tem graça contar o que aconteceu depois, porque as coisas deram razoavelmente certo: cheguei atrasado, mas deu tempo de fazer todos os gessos; peguei um uniforme seco; a minha roupa reserva estava só parcialmente molhada; a barra do meu livro ficou úmida, mas depois secou e não estragou.
Não, definitivamente, este último parágrafo não teve a menor graça. Esqueça que o escrevi, para não tirar o mérito do resto da obra.
(Que mérito?)
Chuááááá.
(Essa é uma onomatopeia de chuva. Espero que essa você tenha entendido).

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais