TOC Mem
– Você faz medicina, né?
– Bom, eu pago a faculdade todo mês… – respondi para a minha amiga.
Praticamente todos que eu conheço sabem o que eu faço da vida, e eu comecei a perceber, ultimamente, que sempre que alguém começa a frase confirmando exatamente o que eu faço, é porque coisa boa não é…
Ela deu uma risadinha para agradar.
– Sabe o que é? É que eu tenho um amigo…
Ih, lá vem…
– E eu não sei que problema ele tem, mas é algo sério… Você não conhece algum psiquiatra que possa ajudar?
– Orra, mas precisa de psiquiatra? Quiqui o cara tem?
– Ah, eu não sei, ele fica repetindo tudo que ele faz umas mil vezes…
– Isso é SRF,
– Ahm?
– Síndrome da Repetição Feminina. Geralmente afeta a fala em mulheres, por isso que elas repetem tanto, mas em homens provavelmente causa ações repetidas, já que homem não é de falar muito mesmo. Mas não se preocupe, apesar de ser transmissível por saliva, tem cura, sim.
– Sério?
– NÃO! – retruquei. Como tem gente que ainda acredita nas besteiras que eu falo?
– Enfim, você conhece alguém?
– Conheço…
Silêncio.
Aquele olhar de expectativa no rosto dela.
Suspirei com relutância.
– Ah, tá bom, tó. Aqui tá o número dele… Ele chama Gubner¹*. Agora, por que procurar justo eu? Tem o Arthur, ele também tá fazendo medicina…
– Ah, mas você tem mais cara de doido – comentou ela, indo embora.
Dois dias depois, encontrei com o Dr. Gubner no Shopping (porque não há nada melhor para se fazer na cidade onde eu passo 5/7 da minha vida), e ele, depois de discorrer sobre os mais diversos assuntos, lembrou-se repentinamente do fato de ter uma consulta marcada com um amigo meu.
– Ficou marcada pra amanhã – anunciou. – Estranho, vir de São Paulo até aqui só pra isso… De um modo ou de outro, você não quer acompanhar a consulta?
– Quero sim – respondi prontamente.
O exame do paciente começa no momento em que ele entra na sala. Então, tentando utilizar de todos os meus conhecimentos furados, observei aquele ser; era um tanto mais baixo que eu, magro, de óculos, muito bem arrumado (usava terno!), o cabelinho todo penteado para trás, escuro, os olhos azuis girando para lá e para cá, encarando tudo, as mãos juntas à frente do peito, um tanto incerto.
– Olá – cumprimentou Gubner, quebrando o gelo.
– Oi – respondeu ele, apertando a sua mão. – Oi – repetiu, cumprimentando-me. Depois, parou um pouco, fechou os olhos, olhou para os lados e… – Oi! – estendeu a mão para o doutor, que prontamente o cumprimentou, e depois – Oi! – para mim, eu um tanto incerto. E, após outra pausa do mesmo estilo – Oi!! – para ele, – Oi!! – para mim, e se deu por satisfeito.
– Sente-se, por favor – ofereceu o médico, e o paciente retirou um lenço do bolso, limpou as mãos (depois de ter apertado as nossas) e depois a cadeira; depois as mãos e mais uma vez a cadeira; e por fim as duas extremidades dos membros superiores e o objeto de quatro pernas para se sentar.
Olhei um tanto incerto para Gubner, que apenas sorriu.
Com o passar da consulta, descobri que ele tinha 22 anos, era solteiro, morava com os pais e apresentava os sintomas havia muito tempo. Aparentemente, ele tinha de fazer certos rituais três vezes seguidas, senão um pensamento que ele mantinha sempre em mente poderia se realizar:
– Se eu não fizer isso, minha mãe vai trair o meu pai com o carteiro.
– Uhm… Mais alguma coisa?
– E se eu não pular em um pé só dentro de um balde de ketchup toda sexta-feira com lua encoberta das 3 da manhã até as 4 e 15, alienígenas vão abduzir a minha cabra de estimação.
– Você tem uma cabra de estimação?? – incontive-me.
– Tenho sim, em casa.
– E qual o nome dela?
– Celeste – retrucou prontamente.
Depois disso não falei mais nada.
O psiquiatra me comentou que o tratamento seria bastante longo; teriam de passar anos, senão décadas, estudando todas as nuances daquele distúrbio, sem mencionar a terapia para tratá-lo. Ou melhor, contê-lo.
– Mas por que o medo de a mãe trair ele com o carteiro?
– Provavelmente remonta à infância dele, à fase fálica, na qual ele deve ter atribuído a figura de um pai maligno a um carteiro para não aceitar a realidade do medo da castração, que deveria ser do pai verdadeiro, de modo que…
Eu parei de ouvir por aí, porque já não tinha entendido nem na primeira frase. E, se alguém entendeu, por favor, me explique.
Passados dois dias, o TOC-Mem me encontrou na rua, e eu não tive cara de não falar com ele. Após ser cumprimentado três vezes, conversa foi, conversa veio, e eu descobri que ele não era tão esquisito quanto parecia à primeira vista, tirando um ou outro tique (um deles era piscar dezenas de vezes os olhos quando sei lá eu o quê passava pela mente dele) e suas compulsões (uma delas inclui cuspir três vezes em cada formiga que passava a 37,5 graus da calçada – por incrível que pareça, duas formigas passaram nesta angulação).
– Você tá ocupado agora? – perguntou ele.
– Não – inocentespondi.
– Então venha até a minha casa! Você pode conhecer a Celeste!
– A sua mãe? – indaguei, perdido na história.
Repentinamente seu olho esquerdo piscou dezenas de vezes, e depois ele fechou os olhos, girando a cabeça.
– O que foi? – desesperei.
– Celeste é a minha cabra. Mas, se você não for até a minha casa, minha mãe vai virar uma cabra. Você tem de vir. Por favor!
Olhei para a cara transtornada de aflição dele, todo engomado em seu terno, e não tive como dizer não.
A casa dele era a apenas dois quarteirões da padaria onde eu estivera até então; era bastante grande, com um jardim relativamente extenso, e uma cabra amarrada à cerca, pastando.
– Esta é a Celeste! – alegromentou, praticamente saltando até ela; do nada, ele voltou, olhou para a grama, ajustou a perna e deu mais três saltinhos; depois, retornou, deu mais três saltinhos, por fim mais um, e se deu por satisfeito²*. – Ela é a melhor cabra do mundo! – completou, abraçando-a. E repetiu o abraço mais duas vezes, no que o ser falava Méééééééé.
Meu Deus, de onde ele tirou essa cabra???
Por fim, entramos na casa, perfeitamente arrumada; todos os quadros da parede formavam uma espécie de mosaico, daquele que mantém uma proporção de 1,618 sei lá o que, aquele número perfeito na natureza, que serve de base para cristaloides. O tapete era do mesmo jeito, cheio dos quadradinhos; tudo era perfeitamente simétrico e arrumado; até mesmo o teto mantinha um certo padrão.
Assim que entrou, sua mãe correu para abraçá-lo, beijá-lo e acariciá-lo, oferecendo todos os tipos de comida.
– Mas como você saiu sem o blusa? – reclamou.
– Mas mãe, tá o maior sol!
– Então como você saiu sem a boné? E sem as óculos da sol?
O olho dele deu mais um curto tique.
– Coma algum coisa, vai! Está muito magrro! Acabou de chegar um challah nova aqui em casa, eu vou trazer…
Ai, meu Deus… Não me diga que…
– É. Nós somos judeus.
Era o que me faltava.
– Que nem o Dr. Gubner, né? E você, não é?
– Como você sabe? – exasperdaguei.
– Essa sua correntinha aí não deixa nada a esconder.
-…
– E claro que você conhece toda mãe iídiche, né?
Repentinamente ela surgiu com cinco pratos de comida distribuídos pelos braços, colocando-os à mesa.
– Venham comer!
– Muito obrigado, mas eu acabei de…
– Nom, nom, se você e amigo do Michel, e amigo meu, e amigos meus nom saem deste casa sem comer! Olha só, você tá que é só pele e osso!
– Ele faz medicina, mãe – comentou o TOC-Mem.
– Que nem o filho de Clarra!
No final das contas, apesar de ter acabado de tomar café da manhã, comi mais um pouco de challah com coalhada seca…
Então, sem mais nem menos, o TOC-Mem olhou para o seu relógio, depois para o da cozinha, depois para o da pia, depois para os três celulares, e nesta ordem todos eles mais duas vezes, e checou uma agenda mais três.
– É agora – comentou.
– O quê?
Ele me mostrou o papel com dezenas de dias e horários escritos.
– Todos os dias, entre as 10:40:11 e as 10:45:32, o carteiro vem entregar cartas em casa. Vou me esconder. Não posso ver ele junto da minha mãezinha.
Foi meu momento de irritação com aquele complexo idiota de traição.
– Ai, pelamordesantamarcelinadetodososcéus! – até hoje não sei de onde me surgiu esta palavra. – Chega disso! Vem comigo, você vai ver que não tem nada dessa história de sua mãe trair seu pai com o carteiro!
Puxei ele pelos braços, muito embora ele lutasse ferozmente, e o prendi no chão, mantendo seus olhos abertos, para que visse a mãe cumprimentar o carteiro conforme ele lhe entregava as cartas.
Às 10:43:17, exatamente, ele entrou pelo portão, passou a mão na cabra, andou pelas pedrinhas simetricamente colocadas até a porta simetricamente estilizada, que foi aberta pela mãe, a qual não só recebeu as cartas, como cumprimentou o carteiro com um beijo.
O homem sob mim suava frio, tremia, bufava (tudo três vezes repetidamente) e, no ápice do cumprimento, deu um grito assustador; quando nós três o olhamos (incluindo o carteiro), ele estava deitado em posição fetal, os dedos de unhas perfeitamente feitas sendo simetricamente chupados.
– Que acontecerr? – indagou a mãe.
– Ele acha que a senhora vai trair o pai dele com o carteiro! – exclamei. – Por isso ele é desse jeito!
– Desse jeito como? Nossa filho e perrfeito!
– Nossa?
– Sim, ele minha marrido.
Olhei para o homem, o qual retirou seu boné dos correios e me cumprimentou.
– Ele é seu pai! – berrei, virando o homem caído no chão para que encarasse o seu progenitor.
– Michel, eu sou seu pai – disse ele, e tinha um ar tão ofegante e cansado que pareceu saído de filme.
O outro, até então de olhos arregalados e engolindo os dois polegares, repentinamente relaxou e piscou os olhos dezenas de vezes, até realmente ver os pais.
– É mesmo! – comentou, levantando-se. – Como?
Eu simplesmente abaixei a cabeça, inconformado.
– Você descobriu! Você descobriu a minha cura!
– Não exagere, você que surtou com isso à toa…
– Nossa, mas que incrível! Não acredito, em todos estes últimos 19 anos, 8 meses, 3 dias e 15 horas, você era o meu pai! E eu sempre achei que fosse outro homem!
– Mazal-tov! – comentei ironicamente.
– Isso merece mais challah! – exclamou a mãe dele.
Eu ainda tentei escapar, mas não consegui. O que eu comi aquele dia foi o suficiente para três dias…
Nota do autor, setembro de 2021: o TOC-Mem seria mais um que entraria para o rol dos amigos em comum que tenho com o Chato. Não sei muito bem em quem ele foi inspirado, mas foi da época em que estava estudando por conta algumas coisas de psiquiatria (que sempre me encantou).
De qualquer forma, o TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) é coisa séria. O paciente realmente sofre com pensamentos obsessivos, às vezes, ilógicos, às vezes, razoavelmente lógicos, e precisa compensar com a sua compulsão, como fazer a mesma coisa repetidamente, por exemplo. Lógico que, neste caso aqui, a ideia é um estereótipo em tom de comédia (assim como a própria estereotipia judaica), como todos os outros personagens do Homo Chatiens.
Mas, se conhecer alguém que tenha um comportamento deste tipo, ofereça ajuda.
¹ * Qualquer semelhança do Dr. Gubner com algum outro psiquiatra não passa de mera coincidência. Ou não. Bom, Freud explica isso. Ou não.
² * Depois de repensar muito sobre isso, descobri que ele estava tentando formar uma parábola semelhante a uma curva de Gauss que demonstra o índice de sobrevivência de ovos de tartarugas de acordo com a oxigenação da areia.
Não, o louco não sou eu. Eu só repasso informações.
Juro.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais