Vanusa, a Venusiana, em: O Fim da Era do Cobre
Eu estava nadando borboleta¹, quando, subitamente, vi um negócio esquisito no fundo da piscina. Achei que fossem só meus óculos embaçados, ignorei e prossegui, brigando para conseguir sair com a cabeça da água, soltar o ar e respirar quase ao mesmo tempo. E eis que, novamente, está lá uma figura esquisita, que continuou me perseguindo, até que, subitamente, chegou perto o suficiente para eu reconhecer.
Dei um grito em uma explosão de bolhas e me segurei à raia, antes que me afogasse. Seria o último dragão daquele filme da Disney? Seria o meu pior pesadelo, e realmente havia um tubarão geneticamente modificado que, inteligente e resistente ao cloro, poderia nadar em uma piscina? Mas, não, era só Vanusa, desta vez usando um maiô azul, touca de natação e óculos (ela estava realmente a caráter).
– Vanusa, pelo amor de Deus! Você quer que eu me afogue?
– Mas… Você não estava se afogando? – ela comentou e depois começou a rir. – Você quer dizer que aquilo realmente é nadar? Eu jurava que você estava morrendo! Estava pensando em chamar o salva-vidas!
Ela ria sem parar, nadando com graciosidade, sem sequer se apoiar em coisa alguma. Olhei para os lados; não havia ninguém na piscina (este era o lado bom de nadar bem cedo de manhã) e o sol ainda estava se levantando.
– Ah, tudo bem – suspirei, recuperando o fôlego. – O que foi agora?
– Estava ouvindo um podcast muito interessante sobre o fim da era do cobre.
Eu a encarei, brancamente, principalmente porque meus óculos estavam embaçados e eu não enxergava nada. Tirei-os.
– Certo, e daí?
– E daí que parece que o mundo civilizado daquela época ruiu por causa do que chamaram dos “Povos dos Mares”. Mas, na verdade, não foi isso; todas as grandes cidades eram muito dependentes umas das outras, e, como consequência de secas em um lugar, pararam de fornecer determinados produtos, commodities, se você quiser usar um termo atual, o que comprometeu a cadeia de produção de outros produtos e, no fim, estava tudo em ruínas.
– Você interrompeu meu treino para me dar aula de história?
Ela ignorou e prosseguiu.
– Não só isso, eles usaram os povos dos mares como bode expiatório, mas, na verdade, esses povos provavelmente estavam fugindo das ruínas das suas próprias cidades e foram culpados, mesmo sendo inocentes!
– Tudo bem, Vanusa, mas, aonde você quer chegar?
– Estou preocupada com o calote daquela construtora, ou incorporadora, ou sei lá.
– Quem??
– Aquela chinesa lá, acho que Evergrande, algo assim.
– O que tem a ver uma coisa com a outra??
– A queda de uma gigante; queda da bolsa da China, queda das bolsas do mundo todo, comprometimento da produção de equipamentos eletrônicos… É o novo fim de uma era de Cobre.
– Mas, Vanusa, como assim? Não seja tão drástica!
– Curioso é pensar na ironia…
– Que ironia?
– Naquela época, usavam cobre para tudo. Agora, cobre é o que vocês usam nas fiações que vocês espalharam pelo mundo todo, não? Veja só, que coincidência… – ela falou, e desapareceu.
Legal, pensei, enquanto tentava recolocar os óculos sem que embaçassem de novo, não sei se agora eu devo ter mais medo de um tubarão geneticamente modificado, uma empresa chinesa quebrando, ou uma venusiana enxerida com teorias do Apocalipse!
Acho que eu preferiria o tubarão…
¹ Para quem é da minha época, Borboleta é o nado que o Snorlax faz, ou então Zohan, o agente bom de corte (filme do Adam Sandler). Para quem não pegou nenhuma das referências, bem, é o tipo de nado mais difícil e sempre dá a impressão de que você está lutando para não se afogar.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais