O incidente da contramão
Eu já comentei algumas vezes o quão excepcional o pensamento de Isabella poderia ser. Era quase inacreditável como, de uma coisa simples como às vezes a forma como o garçom punha os talheres na mesa, ela podia inferir ao menos uma dezena de diagnósticos médicos, quando não diversas outras hipóteses sobre a vida dele.
Certamente marcante foi o dia em que ela ficou sabendo do caso de Strauss-Kahn, e, de alguma forma, que até hoje ela não me explicou exatamente como, ela sabia que era tudo uma farsa, que a mulher estava envolvida com tráfico, entre outras coisas piores, e que tudo não passava de um plano do governo francês para evitar a derrota do Sarkozy. Inclusive a gravidez de sua esposa. Só viemos a descobrir efetivamente da farsa da funcionária alguns meses depois, quando Strauss-Kahn foi liberado, e do suposto complô até hoje não temos certeza, mas não duvido que Isabella esteja correta.
A respeito desta sua impressionante capacidade de dedução, ela sempre balançava a mão, dizendo que não era absolutamente nada de especial, que era uma das coisas mais simples do mundo, naquela sua modéstia que sempre me encantou. Não tenho dúvidas de que, no seu interior, Isabella sabia muito bem a importância do que fazia e a enorme diferença que havia entre ela e qualquer outro médico do país, se não do mundo, mas ela fazia questão de não dar a isso a menor importância, o que era uma das coisas mais maravilhosas em seu caráter.
– A única diferença entre mim e os outros médicos é que muitos se focam apenas nas coisas comuns e ignoram as coisas incomuns. Nas palavras de Goethe, nós estamos acostumados a ver os homens ignorarem o que não entendem. Quando você pega um caso curioso, você tem de pensar nas coisas incomuns, antes mesmo das comuns.
– Mas é lógico que, se você não tiver um grande conhecimento das coisas incomuns, você nunca pode inferir que elas existem! – eu exclamei, tentando provar a ela o quanto o conhecimento que ela possuía era valioso.
Ela riu de volta, enquanto tomava do seu vinho do Porto costumeiro.
– Eu acho que não. Algumas inferências são óbvias. Eu vou lhe contar de um caso que vi esta semana, e você me fala o que você acha que pode ter acontecido. Pode ser?
Concordei de pronto; nos anos em que passáramos juntos, ocasionalmente ela fazia estas adivinhas para ver o quanto eu estava aprendendo de medicina sob sua tutela. E, devo admitir, no começo eu ficava chateado, mas, nos últimos meses em que passamos juntos, eu estava ficando relativamente afiado. Só esperava que, naqueles três anos em que ficamos separados, eu não tivesse perdido minhas habilidades.
– Eu estava vendo o jornal de noite na sexta-feira passada, quando vi a notícia de um senhorzinho de setenta e dois anos que dirigiu por dois quilômetros na contramão da rodovia Raposo Tavares. Um carro desviou a tempo, mas capotou no acostamento e nada aconteceu com o motorista. No entanto, apesar de todos os outros carros terem desviado, um bateu de frente. O motorista e o passageiro do banco de trás morreram, mas o passageiro da frente e o senhorzinho não se feriram.
– Bom, a primeira coisa que eu penso é tentativa de suicídio – falei, com relativa certeza. Era um caso bastante claro e comum. – Isso já aconteceu algumas vezes nos últimos anos, e devo dizer que está se tornando bastante comum.
– É uma das sete hipóteses mais prováveis – ela respondeu, e eu fiquei uns bons minutos imaginando quais outras seis ela poderia inferir a partir de tão poucas informações. – Mas, como disse, esta é a mais comum, e você tem de pensar na mais incomum. O que você me diria se eu falasse que o senhorzinho tinha certeza absoluta de que ele estava na direção certa, e todo o resto estava na direção errada?
Foi neste momento que compreendi por que o caso tinha lhe chamado a atenção. Um velhinho que surta e resolve dirigir na contramão, achando que todos estão fazendo errado!
– É… Aquilo que acontece muitas vezes com idosos, que você me falou uma vez… Como chama? Derilium?
– Delirium – ela respondeu, rindo. – Sim, é uma ideia. Uma das hipóteses. Devo dizer que foi uma das coisas que eu pensei, quando vi esta história. Agora, e se eu lhe disser que o senhorzinho tinha algum problema cardíaco, que ninguém sabia definir, e que por isso ninguém queria lhe contar que duas vítimas haviam morrido. Isto muda sua hipótese diagnóstica?
Eu fiquei alguns minutos pensando nisso, tempo no qual ela terminou a sua taça e a levou de volta para a cozinha. Quando ela voltou, eu apenas a encarei com uma expressão branca; não podia ver de que forma aquilo seria relevante na história.
– Muito bem, então eu vou lhe contar exatamente o que eu fiz quando eu vi esta notícia. Enquanto isso, vou tocar algo no piano. O que você gostaria de ouvir?
Balancei a cabeça; para mim, não importava o que ela tocasse, eu sempre teria a sensação de estar nas nuvens. E, além disso, eu não conhecia absolutamente nada de música clássica, por mais que ela tivesse tentado me ensinar algo nos anos anteriores.
Ela começou a tocar algo que posteriormente eu descobri ser de Chopin e passou a contar a história.
– Eu fui ao hospital onde ele estava internado, porque tinha certeza de que algo grave tinha acontecido, para fazer com que ele tivesse uma conduta tão inesperada. E, obviamente, como ele tinha sido atendido pela equipe cirúrgica, eu também tinha certeza de que ninguém iria pensar nisso e iriam mandá-lo para casa sem nenhum exame mais detalhado, se ele não tivesse nenhuma lesão. Desta forma, fui rezando para que ele ainda estivesse no hospital, mas não tive sorte. Quando cheguei ao setor de emergência, ele já havia saído fazia uma hora. Pedi à enfermeira a sua ficha de atendimento e, como já esperava, não haviam feito nenhuma investigação. Só tinham dosado a glicemia capilar, e olhe lá.
Ela balançou a cabeça.
– Errei o tempo desta nota. Vou começar de novo.
Eu estava tão entretido que, mesmo que soubesse o que era um erro de tempo de uma nota, não teria percebido. Mas ela retornou aonde havia errado na música, e logo continuou com a história.
– Na ficha, tem os dados do paciente, então eu tentei ligar, mas, logicamente, como sempre acontece aqui, o telefone era do vizinho, e não deles. Assim, copiei o endereço e decidi ir eu mesma até a casa do senhorzinho, antes que algo de ruim acontecesse. Ele mora na zona rural de Sorocaba, no bairro do 25, e eu levei uma boa meia hora até achar o seu sítio, no meio da estrada de terra. Chegando lá, parei diante dos portões, e um homem, que deveria ser seu filho, sem dúvida, veio me receber, acompanhado de uns três cachorros ferozes. Eu me apresentei como médica do hospital, expliquei que havia tentado entrar em contato pelo telefone, mas que não tinha conseguido, e falei da necessidade de fazer um exame mais completo. Ele não pareceu muito convencido, ficou olhando os arredores, mas aceitou quando eu mostrei meu crachá. Ele chamou o próprio filho, que não devia ter mais de quinze anos, que lhe entregou uma espingarda e foi prender os cachorros, para que eu pudesse entrar. O neto me levou até a casa, e o filho me mostrou o caminho.
– Pessoal desconfiado, não? – comentei.
– Tem tido vários casos de assalto por esta região ultimamente. Não os culpo. A casa era bastante simples, não tinha muitos cômodos, e o senhorzinho estava sentado no sofá da sala, descansando. Eu me apresentei e expliquei por que estava ali, e os familiares pareceram bastante felizes de eu estar lá. “É bom que tenha vindo algum médico, porque não deram a menor bola para ele lá”, a filha dele falou. “Nós ficamos preocupados que fosse alguma coisa seria, porque ele insiste o tempo todo que estava indo na direção certa”, o filho disse. Eu mesma resolvi perguntar para ele, e ele insistiu o tempo todo que estava indo na direção correta, e que não estava entendendo por que todo mundo estava na contramão. Disse até que deu sinais com o farol alto, mas ninguém mudava de pista nem nada. “Eu vi até um Golf vindo na minha direção, eu dei um sinal para ele, mas ele desviou e depois eu não vi mais. Depois dele, vieram poucos carros, até que, do nada, surgiu um e me acertou. Espero que não tenha acontecido nada com os outros motoristas! Sabe, eu dei sorte que a minha filha insistiu que eu comprasse um carro com… Qual o nome daquela coisa que abre quando você bate?”. “Air-bags, pai”, a filha respondeu. E depois disse para mim: “Ele está assim desde que bateu o carro. Vira e mexe esquece o nome de algumas palavras. Doutora, será que ele está ficando demente?”.
Ela parou de falar e se concentrou em uma parte da música que parecia particularmente difícil, embora já tivesse tocado passagens ainda mais complexas sem ter aparentado a menor dificuldade, enquanto falava, de modo que supus que ela estava esperando que eu comentasse alguma coisa.
– Não sei… O senhorzinho tinha Alzheimer e de repente ele piorou? – eu arrisquei.
Ela sorriu.
– É muito difícil um Alzheimer que descompensa assim. Quando nós pensamos em uma demência aguda, nós pensamos em demência vascular. Mas deixe-me terminar a minha história, e depois pensamos nos diagnósticos. Depois daquela conversa, eu tive certeza de que algo grave estava acontecendo e insisti que eles fossem comigo para o hospital. O filho não pareceu muito feliz, mas eu expliquei a gravidade da situação, e nós voltamos para lá; tiveram de carregar o senhorzinho, porque ele não conseguia mais mover a perna esquerda. O pessoal da clínica médica também não pareceu muito feliz, especialmente porque todo mundo imaginava que o velhinho só tinha descompensado, mas eu mandei que fizesse um eletrocardiograma, um ecocardiograma e uma tomografia de crânio e entrei em contato com o neurocirurgião. No final, foi diagnosticado um acidente vascular encefálico isquêmico, uma fibrilação atrial, e ele saiu com um anticoagulante, um antihipertensivo e uma estatina. E evitamos que, por muito pouco, ele entrasse em coma.
Ela terminou a música exatamente neste ponto, quase como se tivesse planejado, e eu a fiquei encarando, embasbacado. Como assim, em coma? Como ela havia chegado àquela conclusão, só com aquela historinha boba de dirigir na contramão? Vendo minha surpresa, ela sorriu; para variar, estava se divertindo com aquilo.
– Aí é que está o que eu falei sobre o comum e o incomum. Quando eu vi a história de um homem que dirige na contramão, eu também pensei em suicídio. Mas, quando vi depois que ele tinha certeza de que estava indo na direção certa, achei aquilo muito estranho. Como você falou, eu poderia pensar em delirium, uma descompensação metabólica e talvez até mesmo em algum transtorno psiquiátrico, mas de resto o paciente parecia bem demais para ter algo do tipo. O que me fez obrigatoriamente pensar em algo neurológico focal.
– Como um derrame?
– Exatamente. E a história de ele ter uma doença cardíaca que poderia piorar quando lhe contassem o que havia acontecido imediatamente me fez pensar em uma arritmia. A partir daí, a conclusão era simples: uma fibrilação atrial, que é uma das arritmias mais comuns e uma das maiores geradoras de pequenos coágulos. Ela enviou um para o cérebro, obstruiu a circulação de uma pequena artéria do lobo temporal esquerdo, e pronto. Ali estava o seu problema. Só que, se o paciente não fosse tratado, a coisa poderia piorar. E ela estava piorando, porque, quando eu fui conversar com ele, eu percebi que ele tinha outra coisa: uma heminegligência visual.
– O que é isso?
– É quando ele ignora completamente o que está acontecendo de um lado do seu campo de visão. No caso, o esquerdo, porque ele viu que o Golf desviou, mas não sabia o que aconteceu depois. Porque ele não estava sequer enxergando o espelho retrovisor, ou talvez, até mesmo, a metade esquerda da pista. Isto falou ainda mais a favor de uma fibrilação enviando múltiplos êmbolos para o cérebro. E, como eu falei, era tudo uma questão de tempo até que pegasse alguma artéria mais importante, e ele perdesse a mobilidade de metade do seu corpo.
– Por isso que ele parou de mexer a perna?
– Exatamente. Quando fizeram a tomografia, não tiveram dificuldade de encontrar as minúsculas lesões isquêmicas. O eletrocardiograma provou a minha hipótese, o ecocardiograma mostrou o trombo no coração, e agora ele está sendo adequadamente tratado. Com a medicação e fisioterapia, é provável que ele se recupere de forma razoável.
– E ele vai recuperar a visão?
– Como nós agimos a tempo, talvez sim. Quando eu o examinei, ele havia recuperado a visão, mas quando chegou ao hospital pela segunda vez, ele havia perdido novamente. A perspectiva é bastante boa.
– Nossa! – exclamei, deslizando um pouco no sofá e olhando para o teto. – E ninguém tinha pensado nisso? É impressionante!
– Não é tão impressionante. É extremamente simples, só que ninguém se deu ao trabalho de juntar os fatos.
Eu concordei; com ela explicando, parecia extremamente simples. O problema era achar alguém que conseguisse juntar os fatos, não?
– Muito bem, o que você quer ouvir agora? Que tal um pouco de Schubert?

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais