Ônibus
Eu venho tentando escrever esta crônica há quase dois anos, senão mais, desde o dia em que comecei a andar de ônibus, mas, não sei por quê, nunca consegui. Talvez escrever algo tão grande, importante e complexo como o ônibus acabou bloqueando a minha mente, por medo de não conseguir ser bom o suficiente para tal. Mas, sejamos humanos, e arrisquemos, pois assim é a vida, ou não?
Ande de ônibus. É legal.
É isso que dizem nos anúncios. Mas é de fato mesmo legal andar deste gigante automático, ou será apenas história para vender mais passagens?
Porque, afinal, quando se anda de ônibus, tem de se suportar os pontos lotados, os carros abarrotados, as sacudidas, as batidas, as paradas, a lerdeza, aquele cheiro de CC…
Não obstante (o ônibus merece uma palavra clássica e ousada como esta), o busão tem o seu charme. O mercedão com 48 lugares, motorista particular e seu auxiliar sempre encontra o seu lugar no coração do povo brasileiro, seja por ódio ou por amor. Porque, não sei, ele tem toda a sua sociedade interna, quase como se fosse um mundo completamente novo. No omnibus, existem aqueles que se conhecem sempre, que se veem sempre no ponto ou então, por sempre fazer o mesmo trajeto, embora por pontos diferentes, sempre se encontram e, por consequência, tornaram-se amigos. Além disso, o motorista e o cobrador têm uma sintonia própria, que eu acho impressionante, na qual, assim que os passageiros terminaram de descer, ele bate com uma chave no cano ao qual nos seguramos, e o motorista, sem pestanejar, fecha a porta, partindo. Haja confiança cega (ou pelo menos com os olhos virados para o lado oposto)!
Outra coisa que eu sempre adorei no ônibus são os vendedores ambulantes, que pedem para subir, sobem de graça e andam por dentro do ônibus.
“Um minuto de sua atenção, senhoras e senhores! Venho aqui, sem compromisso, para lhe vender” toda a sorte de coisas. Se bobear, até a minha sogra (futura, presente ou passada). Eu sempre tive dó destes valentes cavaleiros das vendas, que saem por aí burlando o emprego pelo subemprego, em vez de se entregar ao crime. Bom, não sei se era dó ou orgulho; talvez mais o segundo que o primeiro, embora ambos sempre andem juntos. Só sei que eu me impressiono toda vez que vejo aqueles homens e mulheres subindo com uma cesta repleta de doces, vendendo no transporte público, para garantir a sua vida. E uma boa porcentagem (um estudo deveria ser feito sobre isso) acaba comprando, por dó, orgulho ou fome, o que ele vende, e no final há dezenas de caras felizes abrindo pacotinhos de jujubas ou amendoins, compartilhando com a pessoa do lado com a qual, de outro modo, nunca teriam travado contato. Elefantas, é isso que eu mais admiro neste meio de transporte; o modo como ele consegue unir as vidas de pessoas tão distintas.
Por isso mesmo, diversas vezes eu já voltei ou fui de ônibus para casa, sorrindo ao ouvir as pessoas conversando ou observá-las. Existem os tipos que se isolam e não falam com ninguém, os que só falam se são dirigidos, ou os que falam assim que veem alguém ao lado, como ao se sentar em um banco disponível.
Além disso, é no ônibus que se veem os maiores exemplos de cavalheirismo (ou não); jovens cedendo lugares para velhinhos, homens cedendo lugar para mulheres…
Às vezes, entretanto, eu voltava tão cansado para casa, que não queria saber de nada disso; pegava um livro e tentava me perder no seu interior, esquecendo completamente os meus arredores, as curvas do ônibus e, por vezes, as minhas boas maneiras; quantas vezes, ao levantar, percebia que, se não ao meu lado, logo perto, havia um velhinho de pé que deveria estar sentado no meu lugar. Mas, fazer o quê?
Mas, apesar desta utopia pintada pelos meus melhores dias o busão, nem tudo são flores ou dias de glória; houve uma época na qual pegava o ônibus sempre lotado, e, quando sentei pela primeira vez, não acreditei; foram seis meses de guerra até achar uma linha alternativa (intermunicipal) que ia vazia. Aí sim começaram os meus dias de amizade (apesar de que, nos meus dias de bom humor, eu gostava de ir no ônibus em pé, lotado ou não, só para matar as saudades ou aproveitar o passeio e o ventinho). Já tive meus dias de chuva dentro do ônibus, quando todo mundo fechava as janelas e ele ficava totalmente embaçado, o pessoal suando do lado de dentro e as ruas encharcadas e frias do lado de fora.
Hoje em dia, raramente pego ônibus; mais porque não preciso, aqui em Sorocaba, do que por qualquer outro motivo. Se bem que, quando volto para São Paulo e, às vezes, só me sobra o bom e velho Mercedão, não tenho outra escolha, e lá vou eu, todo feliz, até o ponto e pela linha em frente, sentado no meu banquinho, lendo o meu livro ou olhando o vendedor de balas.
Porque andar de ônibus, apesar de tudo, é legal.
Nota do autor, setembro de 2021: ah, que visão romantizada do ônibus! Palavras de quem o usa pouco, devo dizer. Mas, de qualquer forma, eu sempre fui encantado por observar as pessoas e seus comportamentos em locais cheios de gente, como rodoviárias, aeroportos, estações e tudo mais. Mas, mesmo sabendo que sim, tem gente que sofre muito mais do que eu sofri no ônibus e que detesta cada segundo, ainda acho que o transporte público tem o seu encanto.
Keanu Reeves também.
Também acha, eu digo. Não do encanto.
Bom, talvez tenha, também. Mais do que eu.
Enfim, melhor ficar quieto. Deixa eu ler outra crônica.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais
13 de junho de 2025 @ 08:44
Faz anos que uso raramente ônibus ainda mais com a chegada dos Ubers, mas usei muito na adolescência e realmente é uma visão bem romantizada. E sinceramente não tenho nem uma saudades de usar.