Tiroteio no Metrô
– Estou precisando de alguma coisa para escrever uma crônica.
– Bem, que tal falar do tiroteio no metrô de Nova York?
– Como é?
Eu estava sentado no meu escritório, olhando para a tela do computador em branco, tomando um café, enquanto a Vanusa lia o jornal no seu tablet.
– Você não viu essa notícia ainda?
– Ao contrário de você, eu durmo.
– Ai, que desperdício de tempo – ela disse. – Bem, veja aqui: ontem, na hora do almoço, um homem com uma máscara de gás jogou uma bomba de fumaça e saiu atirando em pessoas no metrô, bem na hora do rush. Não conseguiram pegar o cara, mas, ao menos, ninguém morreu.
– Que coisa horrível, Vanusa! Por que escrever sobre isso?
– Por causa da discussão de legalização de armas, isso me interessa muito.
– Como assim, Vanusa?
– Vamos ver o exemplo do Brasil; as armas já foram permitidas antes, mas foram proibidas em 2003, quando vocês fizeram o estatuto do desarmamento. Agora, com o governo do presidente atual, a aquisição de armas foi flexibilizada e vocês tiveram um aumento importante de pessoas portando armas.
– Certo.
– A questão é que tudo virou uma briga política; pessoas de direita falam que o desarmamento é desejado pela esquerda para poder dominar o povo, pois, segundo eles, é um passo necessário, desarmar a população para que não se rebele contra o poder.
– Estou acompanhando.
– Agora, o povo da esquerda fala que o armamento é algo da direita, e que isso não diminui a criminalidade, aumenta os homicídios, além dos atentados que vemos por aí. Por fim, dizem que as armas que os bandidos conseguem, na grande maioria dos casos, eram armas que um dia já foram legalizadas, ou seja, foram roubadas de cidadãos de bem. E a direita retruca que bandido consegue arma de qualquer forma no mercado negro.
– Estamos em uma briga de foices, aqui.
– Exatamente. O que você acha?
– Eu, Vanusa? Justo eu?
– Sim.
– Olha, sinceramente, não sei. Acho que a coisa está muito mais embaixo do que o porte de armas para resolver a violência. Tendo armas ou não, quem pretende roubar dará um jeito, seja com pistola, seja com faca. A ideia é: precisamos dar um jeito para que as pessoas não precisem mais roubar. E isso você só consegue educando a população e melhorando o nível social do país. Veja naqueles países nórdicos: eles estão basicamente fechando as prisões por falta de prisioneiros!
– Por outro lado, nestes países nórdicos, armas são legalizadas.
– Mas fica difícil dizer que uma coisa leva a outra. Eu quero dizer: não tem mais crimes lá porque as pessoas podem andar armadas? Ou será que é porque são os países com um IDH altíssimo, em que todas as pessoas têm um mínimo de que precisam para viver e não precisam cometer crimes? Onde estão até pensando em fazer um salário-mínimo populacional, em que todos ganham sem nem mesmo precisarem trabalhar?
– Você falando agora…
– Isso é um cuidado que a gente sempre tem de ter com ciência, Vanusa. Fatores de confusão. Causalidade. Não é porque estamos vendo uma coisa agora, que quer dizer que uma coisa levou à outra. Temos toda uma história que não pode ser esquecida, e dezenas de características. Se não, poderíamos dizer que porte de armas leva a depressão, já que o índice de depressão é maior nos países mais ao norte?
– Ah, é?
– Sim, mas isso se deve à pouca exposição solar nos meses de inverno. Mas, você pode relacionar o que quiser com o que quiser, se não tomar cuidado, não é?
Ela ficou pensativa.
– Como é em Vênus?
– A população não tem armas – ela falou. – Mas temos tolerância zero à violência.
– E isso funciona?
Ela deu de ombros.
– As pessoas aprendem rápido que o crime não compensa.
– Mas, vocês não ficam preocupados com um governo absolutista, que se aproveite do povo desarmado?
Ela ergueu o dedo para me responder; parou; e sumiu.
Acho que peguei num ponto fraco. Ou será que ela realmente nunca tinha pensado nisso?

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais