Vanusa, a Venusiana, em: Política brasileira
A Vanusa já me apareceu algumas vezes enquanto eu estava dirigindo, e, no começo, eu me assustava muito. No entanto, não sei se ela ficou mais sutil, ou se eu me acostumei, mas parei de pular no banco e quase atropelar alguém toda vez que ela surgia.
– Já sei. Você quer saber por que o Justin Bieber passou a fazer música de rapper? – brinquei, quando ela surgiu ao meu lado, hoje.
– Quem é Justin Bieber? – ela indagou.
– Você está estudando os humanos e não sabe quem ele é? – foi a minha pergunta de volta, inconformado.
– Eu só estou estudando as coisas úteis da humanidade. Ele é um político importante ou coisa do gênero?
Apenas pisquei; não sabia se valia à pena explicar quem ele era.
– Na realidade, eu vim tirar algumas dúvidas com você a respeito da política brasileira – ela falou, pegando o seu IPad Mini, onde escrevia sua interminável lista de questionamentos. – A primeira coisa, que eu achei muito interessante, foi ainda na disputa pela prefeitura de São Paulo, quando a Marta Suplicy foi obrigada a dar a sua vaga para o Fernando Haddad.
– O que tem exatamente de interessante nisso?
– O que veio depois; quando o governo ofereceu para ela a vaga no ministério da Cultura. Tem gente dizendo que não foi como forma de compensação, mas você não achou uma coincidência sem igual?
– Bom…
– E outro caso que aconteceu agora, quando o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que era da oposição até há muito pouco, decidiu apoiar a presidente Dilma na sua reeleição em 2014. Em troca do comando do ministério da Micro e Pequena Empresa. Interessante como os valores políticos trocam fácil, não? Até mesmo o Chalita, candidato que se dizia o único a unir oposição e situação, logo no final do primeiro turno decidiu apoiar um dos partidos…
– É…
– Mas o que foi realmente um show foi o Mensalão. O Joaquim Barbosa contra, o Lewandovsky a favor, foi um show. Bate boca aqui, bate boca ali, idas ao exterior para cuidar da coluna… E a dosimetria, agora?
Ela realmente estava tão empolgada com aquilo, como uma criança com presentes de natal.
– Primeiro eu achei muito pouco as penas, especialmente pelo fato de que eles só precisam efetivamente cumprir em regime fechado se for maior do que 8 anos. E, destes 8 anos, só 1/6 precisa ser em regime fechado, o outro 1/6 em regime semiaberto e, como acontece historicamente no seu país, os outros 2/3 são abonados por bom comportamento. Eu estava chegando a ficar revoltada com isso, até porque eu imaginei que iriam recorrer, e recorrer, e recorrer, até o ponto da pena caducar, quando o ministro Joaquim Barbosa começou a tomar atitudes. Confiscou os passaportes; falou que as penas não seriam cumpridas em prisões especiais, só em prisão comum…
Ela falava praticamente em um monólogo, só expondo sua empolgação com o maior show de corrupção da história do país. Como uma socióloga/antropóloga interplanetária, aquilo, de fato, deveria ser tão interessante quanto a política do pão e circo.
– Mas aí, eles vêm com aquela alegação de que não há vagas nas prisões comuns para eles cumprirem pena. Ou seja, acabarão em liberdade? E a manifestação do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, de que prefere a morte, do que cumprir pena em prisão brasileira? Você não acha interessante que as pessoas só se importam com os direitos humanos quando o delas é que está na reta? Por que ninguém até hoje se importou com modificar o sistema penitenciário brasileiro, e só agora, quando acho que, pela primeira vez na história deste país, políticos de cargos importantíssimos vão para a prisão comum, o sistema prisional realmente parece o caos que ele é? Por que só agora perceberam a superlotação?
Vanusa, ao contrário das últimas vezes, em que se mostrava revoltada com tudo o que acontecia, naquele momento estava empolgadíssima.
– Vanusa, considerando o horror de tudo isso que você me falou, por que você está tão animada assim? – indaguei.
– Ué – ela respondeu com naturalidade. – Aí é que está a graça. Agora que o circo vai pegar fogo!
Nota do autor, setembro de 2021: se Vanusa já estava empolgada nesta época, imagine como ela ficou com tudo o que veio depois: petrolão, impeachment, condenação e prisão do Lula, depois libertação do Lula… Tenho certeza de que ela nos assiste da sua nave espacial, comendo pipocas interplanetárias e torcendo como se fôssemos o maior realiti chou da galáxia.

O Dr. David sempre sonhou em ser médico e, especialmente, em cuidar de crianças. Formou-se em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, após dois anos trabalhando como médico generalista, onde pôde atuar próximo a famílias pobres e conhecer suas dificuldades e os diversos problemas do sistema de saúde brasileiro, começou a residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Leia mais